Horas a fio de ensaio. Os movimentos e a sincronia têm que ser perfeitos. Cobranças de diretores, da Harmonia. 100% de presença e entrega. Mas a vida acontece para as jovens que vestem as sandálias de prata. Estudos, filhos, lesões… Para muitas, o sonho morre. Porém, como proposto no enredo da escola deste ano, a Tijuca reescreve a história e dá nova oportunidade a passistas que desfilaram pela escola e se afastaram.

A ideia veio do próprio grupo, ao se reunir na escola e relembrar os velhos tempos. Crias do Morro do Borel, nem mesmo o afastamento da ala esfriou o amor. Agora, a proposta é outra: reunir as veteranas em uma ala diferente, desempenhando seu papel, mas com menos cobranças. A veterana Johniany Menezes conta como surgiu a ideia e revela a importância do apoio do diretor-geral de Harmonia, Allan Guimarães.

Johniany Menezes
Johniany Menezes

“Estávamos todos na quadra, não foi proposital. E aí a gente falou: ‘Será que a gente consegue uma ala para vir todo mundo de novo?’. E surgiu essa ideia. Eu fui o pivô. Assim que consegui falar com o Allan, ele foi muito atencioso com a gente. E toda vez que a gente se encontrava na quadra, encontrava com o Allan e falava: ‘E aí, será que vai rolar?’. E ele: ‘Quem sabe?’. Até que chegou um dia em que ele falou: ‘Faz o grupo e deixa comigo’. Aí eu chamei a Luana, e a Luana chamou o William, e fomos juntando a galera. Fomos colocando pessoas no grupo até que chegou a hora de levarem ao presidente. O presidente gostou da ideia e autorizou a nossa ala para este ano”, contou ao CARNAVALESCO.

Johniany desfila na escola desde 2015 e, pela primeira vez, desfilará em um carro de sua escola do coração. A passista revela a diferença de vir na ala de passistas para a estreia como veterana.

“É diferente, porque a gente não tem a responsabilidade de estar alinhada, compacta com o grupo. Estamos mais livres e mais soltas, brincando, nos divertindo, tanto nos ensaios quanto no carro. Vamos nos divertir muito!”, disse.

A recepcionista Luana André desfila na Tijuca desde os 17 anos, quando ainda precisava apresentar boas notas no boletim e autorização para desfilar. Afastou-se da ala pelo mesmo motivo das colegas: o excesso de compromissos. Para não prejudicar o grupo, preferiu se ausentar.

Luana Andre
Luana André

“A gente não conseguia assumir mais um compromisso como passista, porque passista tem que estar muito assídua na escola, se dedicar quase 100%. E a gente, para não falhar, preferiu se retirar. A oportunidade de voltar foi uma surpresa para a gente. Estou muito feliz, porque nós somos tijucanas. Inclusive, eu tenho uma tatuagem da Tijuca, sou fanática, apaixonada pela escola. Sempre fui muito bem recebida aqui dentro. A gente vai dar nossa vida aqui na Sapucaí, com a nossa escola”, declarou.

Com a nova ala e a nova proposta de desfile, surgem outras responsabilidades e desafios. Como todas virão em carros alegóricos, Luana afirma que o cuidado tem que ser redobrado.

“Mais concentração, cuidado, porque além da desenvoltura que temos que ter em cima do carro para evoluir, existe o risco, é uma altura. Mas nós vamos com garra, amor ao nosso pavilhão, vamos dar tudo de nós. O samba está na ponta da língua, o samba está no pé, já vem na alma. Tijuca até morrer!”, afirmou.

Tijuca é um amor passado por gerações para as irmãs Diamante. O tio-avô já foi presidente da escola, um tio foi compositor, o pai diretor de bateria, assim como o irmão é atualmente, e os filhos já seguem os mesmos passos. As irmãs foram passistas da escola e agora retornam para o grupo que estreia este ano. Alessandra compartilha os desafios para reunir todas e fazer o sonho acontecer.

Alessandra Diamante
Alessandra Diamante

“Eu me sinto muito honrada que o nosso presidente acolheu e ajudou a gente. O Allan também ajudou muito, porque era um desejo de todas nós há muitos anos. Só que, por motivos pessoais — trabalho, faculdade, filho — a gente não conseguia reunir todas para assumir um compromisso novamente com a escola. E este ano, graças a Deus e graças aos nossos colegas de ala, conseguimos conversar e fazer esse retorno triunfal no carro”, contou.

Livia Diamante
Livia Diamante

A enfermeira Lívia Diamante, irmã de Alessandra, tem um legado extenso na azul e amarelo do Borel. Já passou pela ala das crianças, foi porta-estandarte, passista e, mesmo fora das alas, marcava presença na diretoria. Afastou-se da ala de passistas há oito anos para estudar enfermagem e hoje, formada, volta à escola do coração em um enredo emocionante e significativo em sua trajetória.

“O interessante é que a gente volta logo neste ano, em que o samba fala ‘reconhece o seu lugar e luta’. A gente volta reconhecendo o nosso lugar. A gente nunca deveria ter saído. É aqui, na escola. E vamos lutar junto com a Tijuca para fazer esse diferencial no carro, dando movimento, dando canto, quebrando tudo, fazendo o que a gente pode e o que não pode para concorrer a esse campeonato”, declarou.

Luciene Maria de Oliveira, massoterapeuta e veterana, foi passista por 12 anos e se afastou por conta de uma lesão. Voltou em 2025 e agora pode se reunir com as amigas na ala de veteranas. Nascida e criada no Morro do Borel, contou ao CARNAVALESCO que também foi uma “Carolina”. Sua história se cruza com a de Carolina Maria de Jesus, escritora que é enredo da escola neste ano. Luciene foi catadora de lixo, flanelinha e é filha de mãe solo.

Luciene Oliveira
Luciene Oliveira

“Vir representando esse enredo é de muita importância para mim, porque consegui sair daquela bolha, mas ainda tenho muitas amigas, muitas pessoas lá do Borel, que vivem uma realidade muito difícil. Carrego comigo a responsabilidade de abrir portas para as meninas de lá e mostrar que a gente consegue, mesmo através dessa sociedade, de toda a misoginia e de todo o racismo estrutural que a gente enfrenta, pular esse muro. Eu sou uma vírgula de todo um sistema que tenta nos oprimir. Luto através da minha rede social, mostrando para os meus e para as minhas amigas que estão lá no Borel que, através do estudo, da cultura e da arte — porque o carnaval é arte — a gente resiste, pode ser vista e pode melhorar de vida. A Carolina, para mim, é uma inspiração, como se fosse uma ancestral minha”, compartilhou.

Para Luciene, a ala marca a representatividade não só pelo enredo, mas também como valorização da arte e da comunidade tijucana.

“Eu gostaria muito de ter um pouco mais de valorização por ser da comunidade. Gostaria de ter uma oportunidade de carta de musa para poder inspirar as minhas meninas, as minhas amigas, as crianças lá do Borel, as meninas pretas do Borel. Poder participar deste ano, que é tão importante, em que a Tijuca vem se reencontrando com a comunidade, vem chamando mais a comunidade, ainda mais falando de um jeito preto, de mulher preta… Para mim é uma honra, como mulher preta periférica, poder vir mais um ano para a minha escola e mostrar que estou aqui por ela, principalmente pela minha comunidade, que é o Borel”, disse.

Para todas, o sentimento se resumiu em uma palavra: honra. E Luciene destaca não só receber, mas também dar honra à comunidade que ama.

“É a primeira escola a criar essa ala. É uma forma de a gente homenagear a escola e a escola também valorizar a gente, que se doou ao longo de tantos anos junto com a comunidade tijucana”, declarou.