
A Mocidade Unida do Santa Marta, que desfila na Série Prata, revelou os primeiros detalhes de seu enredo de 2026, “Samba é Minha Cachaça”, na entrevista que os carnavalescos Carila Matzenbacher e Patrick Felipe cederam ao CARNAVALESCO. A dupla explicou que o tema foi encomendado pela diretoria e encerra uma trilogia criada nos últimos anos.
“Começamos no Sextou, onde nosso Malandro vai curtir a sexta-feira, depois chegamos no AG1, que era a hora de comer. Agora é hora de celebrar bebendo”, resumiu Carila.
Patrick destacou que a pesquisa precisou trilhar caminhos diferentes dos já explorados, lembrando o desfile histórico da Imperatriz em 2001: “A Rosa já contou a história da cachaça. Agora tivemos que invocar a nossa próproa Santa Cachaça.”
O enredo começa pela parte histórica, mas sem se prender totalmente a ela. “Não tem como fugir da história, até para contextualizar que a bebida nasceu no Brasil. Nós brincamos com os alemães que tentam roubar a cachaça e patentear o nome”, diz Carila.

Patrick completa: “A partir disso ela passa a ser protegida pelo nosso próprio governo e vira identidade brasileira, patrimônio nosso. Só é cachaça se for produzida no Brasil”.
Os parceiros também conectam o enredo à construção simbólica do país. “Cachaça, samba e futebol são ícones da nossa identidade, nascidos na cultura preta e que sofrem preconceito até hoje. Ser cachaceiro é pejorativo, enquanto quem bebe vinho e Uísque é desgustador”, afirmam. Essa compreensão levou à criação da Santa Cachaça, figura central do desfile.
“Percebemos que não existia um deus da cachaça, como Dionísio é do vinho, quem as pessoas invocam e se conectam quando bebem, por isso criamos a Santa Cachaça, e o enredo virou uma oração a ela”, explica Carila. Ambos acreditam que, dentro da simplicidade e brasilidade do tema, o público vai se identificar. “Quem é que não tem uma história com cachaça, né?”, completa a carnavalesca.
Destaque do enredo
Os carnavalescos esperam que o grande destaque seja o samba-enredo. “Somos a primeira escola a pisar na Intendente no dia do desfile. Precisamos de um samba alegre, para cima, que contagie o público desde o início”, diz Carila. Patrick reforça a importância de uma boa comunicação musical: “Uma melodia agradável, um refrão fácil. Mesmo que a pessoa chegue para assistir no meio do desfile, ela tem que conseguir cantar.”
Eles apontam que o samba deve refletir a ligação afetiva e cotidiana com a cachaça, não apenas seu aspecto histórico. “Não nos prendemos só à história da bebida, porque a Rosa já fez isso. Nós permeamos pelo cotidiano, por como os compositores entendem a cachaça no dia a dia”, explica Patrick. A identificação, para eles, é fundamental, de modo a fazer com que o público lembre de suas próprias histórias de celebração, de alegria, de vida.
Artes plásticas e estética do desfile
Na parte estética, a agremiação promete um carnaval leve, de fácil leitura e pensado para a dança dos componentes.
“Desde que entramos na escola, fazemos fantasias leves. Nada que bloqueie a movimentação. A ideia é que o componente chegue arrasando em harmonia, cantando e orgulhoso do manto”, destaca Carila. Patrick ressalta que os signos serão claros: “A gente quer que o público entenda o que está vendo. Carnaval é para o público, não só para o jurado.”

Carila define o conceito como uma simplicidade inteligente, que privilegia a compreensão sem ser didática: “É objetivo, sem rodeios. A identificação cria empatia e movimento de chão, que é a grande potência do carnaval.” Ela reforça que essa escolha estética ajuda a construir um desfile memorável, que conversa com a massa e fica guardado na memória coletiva.
Dificuldades da Intendente Magalhães
Produzir um carnaval na Intendente Magalhães exige criatividade, reaproveitamento e trabalho manual intenso.
“É feito com muita reciclagem. Eu tenho uma peça que reciclo há cinco anos. Eu não jogo nada fora, pois serve para várias fantasias”, conta Carila. Ela transforma indumentárias antigas em novas possibilidades: “Às vezes eu faço uma ala inteira com as pedrinhas que tiro de uma fantasia do Especial. É criar a partir do que se tem.” Patrick reforça: “Esse trabalho é dificultoso. Você não pode imaginar nada muito grande. É criar a partir do que existe.”
Carila explica que desenha sempre pensando na execução real: “O papel aceita tudo, mas a execução tem que ser melhor que o desenho. Criar já pensando em como executar.”
A artista faz questão de ressaltar o trabalho da comunidade, que também participa ativamente desse processo, especialmente nos mutirões de confecção. “Os colares das baianas viraram símbolo da reciclagem. Já fizemos com caixinha de ovo, tampinha de garrafa, e agora vamos usar bagaço de cana. E a comunidade vem, coloca a mão, chega na avenida com orgulho”, diz.
Patrick resume: “Carnaval é sobre isso: a comunidade. Ainda mais para uma escola da Intendente. Mesmo com as limitações, os profissionais mantém o foco: “Queremos ganhar. Fazemos carnaval para isso. Mas, principalmente, para a escola e para os componentes. Não tem preço ver a comunidade defendendo o próprio carnaval”, afirma Carila.
De uma coisa não resta dúvida: a Santa Marta fará um desfile cheio de criatividade, identidade, irreverência e brasilidade, para todo mundo curtir com sua cachaça na mão!









