Por Rhyan de Meira e Juliana Henrik
Os desfiles das escolas mirins tiveram início no sábado, na Marquês de Sapucaí, inaugurando um novo formato para o Carnaval das crianças e adolescentes ligados às agremiações do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, as apresentações foram divididas em quatro datas e passaram a ocupar o mesmo dia do ensaio técnico das escolas do Grupo Especial, ampliando a circulação de público e a visibilidade das agremiações mirins.
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Na abertura da programação, Miúda da Cabuçu, Inocentes da Caprichosos e Império do Futuro levaram para a avenida não apenas seus enredos e sambas, mas também a experiência de desfilar em um ambiente tradicionalmente reservado às grandes escolas.
A mudança impactou diretamente a rotina de preparação dos componentes, que passaram a vivenciar a Sapucaí em um contexto diferente daquele que historicamente marcava os desfiles mirins.
Para mestres, cantores e integrantes dos casais, a oportunidade representou reconhecimento, aprendizado e, sobretudo, a sensação de que o carnaval mirim passou a ocupar um espaço mais central na festa. Na Império do Futuro, o desfile também foi marcado por uma homenagem carregada de significado para quem cresceu dentro da escola e carrega a tradição da bateria como identidade.
Responsável pela condução rítmica da agremiação, o mestre de bateria Luiz Gustavo destacou o simbolismo daquele momento, vivido diante de um público maior e em um dia de grande circulação na Sapucaí. A presença no ensaio técnico do Grupo Especial deu ainda mais peso à homenagem levada para a avenida e reforçou o vínculo entre o carnaval mirim e a história das escolas-mães.

“Uma sensação muito boa. Vamos ter um homenageado aí que faz parte da nossa sala, que é o Edgar. Então é um privilégio muito grande estar homenageando um homem que criou o brilho da bateria do Império Serrano. E é isso, muito feliz, muito feliz de estar participando dessa homenagem. Estou preparado? Com certeza, sempre”.
Entre os integrantes dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, a mudança no calendário também trouxe novas expectativas.
Visibilidade maior para os mirins
Acostumados a desfilar em datas mais reservadas aos mirins, os jovens passaram a dividir o espaço com ensaios técnicos que tradicionalmente atraem grande público, alterando completamente a dinâmica do dia e a percepção sobre o desfile.
Porta-bandeira da escola, Isabela, de 20 anos, avaliou a experiência como um marco diferente na trajetória das escolas mirins. Para ela, a antecipação do desfile e a possibilidade de uma Sapucaí mais cheia deram um novo significado à apresentação, reforçando o sentimento de valorização das crianças e adolescentes que constroem o carnaval desde cedo.

“Está sendo bem diferente. É um dia bem fora do comum do que nós, crianças, estamos habituados a fazer o nosso desfile. Então a expectativa é um pouco diferente também. Acredito que a pista vai estar um pouco mais cheia. Tomara que esteja cheia, assim como no dia dos mirins antecedendo ao desfile das campeãs, porque as crianças merecem de fato que essa pista esteja cheia. Mas acho que hoje vai estar diferente por serem os ensaios técnicos”.
“Por um lado, eu achei interessante, traz mais visibilidade de fato para o carnaval mirim. Então, como ela disse, é uma experiência nova. Pra gente é uma nova rotina”.
Já para o mestre-sala Paulo, de 17 anos, da Império do Futuro, o desfile no dia de ensaio técnico foi resultado de um longo processo de preparação que envolveu treinos intensos, dedicação e o compromisso de representar não apenas a escola mirim, mas também a tradição herdada da escola-mãe. O momento, segundo ele, foi vivido como um estímulo a mais para quem sonha em seguir no carnaval.
“A gente se treinou muito, a gente saiu muito, foi bastante esforço pra dar um resultado bom, porque a gente tem que levar o nosso nome com todo amor na Escola do Império do Futuro, assim como na Escola Mãe, que nós somos terceiros do Império Serrano, graças ao Império do Futuro”.
“É uma visibilidade muito grande e muito boa pras crianças, que muitas vezes têm poucos dias com público pra assistir. Colocar os desfiles das mirins antes do ensaio técnico é um gás, é um incentivo a mais. Você vê todo mundo ali, fica mais feliz, todo mundo te vendo, todo mundo te aplaudindo”.
“É um sentimento inexplicável você ser aplaudido. É o sonho de todo mundo. Então é isso, é felicidade, depositar toda a sua força enquanto você mostra que está feliz, porque isso é o carnaval: carnaval é felicidade”.
A participação dos intérpretes da Miúda da Cabuçu no mesmo dia do ensaio técnico do Grupo Especial também foi marcada por emoção e significado. Para Rafael Ídalo Correia dos Santos, estar na Sapucaí em um contexto diferente do habitual trouxe a sensação de pertencimento a um espetáculo maior, onde o samba mirim ocupou o mesmo espaço das grandes escolas. “A hora que eles vendem a palma… por favor!”, comentou, em tom empolgado, ao falar da resposta do público e da energia sentida na avenida.

Já para Bruno Rezende, de 21 anos, a experiência teve um peso ainda mais profundo. Além de viver a emoção de cantar no mesmo dia das escolas do Especial, ele destacou a importância de dividir esse momento com Rafael, reforçando o caráter inclusivo do samba.
“A minha emoção de hoje é de poder ajudar ele a estar aqui e fazer ele se sentir feliz, se sentir incluído, porque o samba é isso, é inclusão”, afirmou. “O sentimento pra mim é o mesmo de passar com a Escola Mãe. É gratificante demais, ver o público interagindo, é uma coisa que eu guardo no fundo do meu coração”.
Outro intérprete da Miúda da Cabuçu também ressaltou o impacto de desfilar com a arquibancada cheia e no clima de ensaio técnico. Para ele, a sensação foi resumida em afeto e ligação eterna com a escola. “É amor, é carinho. Acho que minha escola é linda e acho que vou desfilar com ela até eu morrer”, disse. Ao falar sobre inspiração, destacou a base do samba no ritmo e na sintonia com a bateria: “Tem que seguir sempre o intérprete e seguir sempre a bateria, marcar na ponta do pé”.
Ao falar sobre referências, Paulo reforçou o caráter formador do carnaval mirim e como os exemplos vistos nas grandes escolas servem de base para a construção artística e técnica dos jovens sambistas. Para ele, a convivência com esses nomes alimenta sonhos e aponta caminhos para o futuro.
“Eu tenho ótimas referências dentro de casa. No Império Serrano teve um casal maravilhoso. Toda vez que eu falo dela quase choro, é a Raffaella Caboclo. Também tem Andrea Machado, Rita, Nara Matias. Cada vez mais as porta-bandeiras vêm inspirando a nova geração”.
“Hoje em dia a régua tá muito alta. Me inspiro no Rafael, da Vila; Felipe Lemos, da Imperatriz; e Matheus Oliveira, da Mangueira. Esses três pra mim são referência total. Minha dança é muito baseada neles”.
Na ala musical, o clima também foi de expectativa e emoção. Intérprete da Miúda da Cabuçu, Lucas Macumbinho destacou a ansiedade de desfilar em um contexto diferente do habitual, com a responsabilidade de conduzir o samba diante de um público maior.
“Cara, é meio estranho. Eu tô com um sentimento muito ansioso, sentimento de alegria. Acho que a galera pode pegar o samba. A gente tá com um ótimo samba e vamos fazer um ótimo desfile, graças a Deus”.
Na Inocentes da Caprichosos, o ensaio técnico teve um significado ainda mais especial para o intérprete Davi Fernandes. Em seu segundo ano na escola, ele assumiu o microfone principal, vivendo um momento de afirmação e responsabilidade dentro da agremiação mirim.
“Pra mim é um sentimento muito especial. É meu segundo ano desfilando aqui na Inocentes. E é mais especial ainda porque hoje eu sou o microfone número um. Então pra mim é carregar essa responsabilidade. É um sentimento muito grande, muito especial, só tenho a agradecer a todo mundo”.
Com entrada franca, os desfiles mirins seguiram ao longo do mês de fevereiro, reafirmando o papel dessas escolas como espaço de formação, pertencimento e continuidade do carnaval carioca. A experiência de dividir a Sapucaí com o ensaio técnico do Grupo Especial marcou um novo capítulo para o carnaval das crianças, aproximando ainda mais o futuro do presente da maior festa popular do país.







