A alma de uma escola de samba é a sua comunidade. Muitos relatam que essa relação funciona como uma espécie de acordo de casamento: na alegria ou na tristeza, ambas estarão ali, uma pela outra. Os desfiles oficiais do Carnaval 2026 podem não ter começado ainda, mas os sentimentos de orgulho e amor pelo samba já enchem os corações dos portelenses que pisaram na Avenida no sábado, no último ensaio técnico da escola.
Com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”, a Portela vai homenagear o Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, símbolo da religiosidade negra no Rio Grande do Sul.
Quando o samba cai no gosto dos componentes, as expectativas para o grande dia ficam nas alturas. Além de contar pontos para a harmonia da escola, é essa energia que levanta o público nas arquibancadas e frisas.
Representando a Portela ao longo de uma década, Teresinha Maria da Conceição, de 62 anos, mantém sua rotina trabalhando no Hospital Central da Aeronáutica e frequentando os ensaios da agremiação. Ela contou ao CARNAVALESCO como o samba deste ano se conecta com a sua espiritualidade.

“Me emociona em muita coisa. Ele fala da minha ancestralidade, sou candomblecista. Estou amando muito esse samba-enredo, o refrão me pega do fundo do coração”, afirmou.
Já Bárbara Trindade, de 27 anos, se divide entre a administração da quadra da Portela e, agora, a Passarela do Samba. Com as emoções a mil para o desfile oficial, a jovem também ficou encantada pelo refrão:

“A palavra carregada no dendê deixa a gente pegando fogo. Na semana passada, durante o primeiro ensaio técnico, eu me arrepiei, senti cãibra. Eu estava realizando um sonho. Foi maravilhoso.”
Muitos portelenses ficaram positivamente surpresos com a escolha do enredo. O cabeleireiro Josivan Campelo, de 57 anos, é um deles.

“A gente não imagina que o Sul tem essa grandeza de cultura revelada através do Batuque, o Candomblé do Rio Grande do Sul. Para mim, foi uma grande surpresa saber que o Rio Grande do Sul é um grande polo de cultura afro-brasileira, com terreiros de Candomblé”, comentou.
O ator Cadu Chagas, de 32 anos, saiu da Zona Oeste para comparecer ao Sambódromo no último sábado. Para ele, “o carnaval tem o poder de trazer algo que a gente não vê nos livros de história.

Principalmente sobre o apagamento do povo preto. A Portela, com a sua tradição, a maior ganhadora de títulos do carnaval, vem renovada. Acho que ela já vem com esse processo desde o ano passado, agora com a nova direção, a nova presidência”, completou.
O pré-carnaval está sendo um momento de reconstrução para a Azul e Branco de Oswaldo Cruz e Madureira. Após a perda de Gilsinho, em setembro do ano passado, a escola agora conta com a condução do intérprete Zé Paulo Sierra no carro de som.
O engenheiro e portelense Renato Caldas, de 42 anos, estava acompanhado de sua família no último ensaio técnico da escola. Ele relembrou a memória do prestigiado sambista com carinho e compartilhou suas expectativas para o espetáculo na Marquês.

“Temos a expectativa de muita coisa diferente, e isso vai impactar diretamente no carnaval e na qualidade que vai entrar na Avenida. Foi um ano também de perda, porque a gente tinha o Gilsinho, que era uma figura central no ritmo e no som da escola todo ano. Era uma pessoa que trazia muita familiaridade com o portelense. É um ano de muita emoção, de renovação, de reconstrução e de campeonato”, disse.
No domingo, 15 de fevereiro, a Portela percorrerá a Avenida em busca do tão sonhado vigésimo terceiro título do carnaval. Mas, enquanto o dia do desfile não chega, a águia e a comunidade portelense preparavam seus pulmões para deixar o samba na ponta da língua do povo no último sábado de ensaios do Grupo Especial.









