Por Júnior Azevedo, Lucas Santos, Luiz Gustavo, Matheus Morais e Marcos Marinho

A Portela fechou a segunda noite do último fim de semana de ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí de maneira grandiosa, reafirmando sua condição de maior campeã do carnaval carioca. Volumosa, leve e segura, a escola apresentou um excelente ensaio neste sábado. O canto foi o grande protagonista da noite, impulsionado por um samba que cresce a cada apresentação e sustentado com precisão pelo carro de som e pela bateria “Tabajara do Samba”. Com uma comunidade entregue, evolução fluida e quesitos centrais bem resolvidos, a Águia Altaneira mostrou que chega renovada e competitiva para o desfile de domingo, quando será a penúltima escola a entrar na Avenida com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, assinado pelo carnavalesco André Rodrigues.

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COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Portela se apresentou com forte impacto simbólico e corporal. Composta integralmente por corpos negros, a coreografia aposta na potência da dança como eixo narrativo, estabelecendo um diálogo direto com o universo afro-religioso proposto pelo enredo. Os movimentos são amplos, ritmados e bem desenhados, com execução segura e sincronizada, revelando domínio técnico e entendimento coletivo da proposta.

A escolha por uma coreografia intensamente dançada reforça a leitura ritualística do samba, criando uma atmosfera de invocação e reverência. Não há excesso de efeitos ou truques cênicos: a força da apresentação reside justamente na presença dos corpos em movimento, na cadência e na entrega física dos intérpretes. A comissão ocupa a pista com autoridade, sustentando energia do início ao fim da apresentação.

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Fotos: Divulgação/Rio Carnaval

O conjunto transmite potência e coerência, alinhando forma e conteúdo. A leitura do enredo é clara e direta, sem ruídos, e cumpre o papel de abrir o desfile com densidade simbólica, conectando o público ao universo espiritual e histórico que a Portela propõe para 2026.

“Organização, dedicação, empenho e muita emoção. Não vai dar errado, já deu certo. A gente sente coisas que eu, pelo menos, com 21 anos de carnaval, nunca senti; estou sentindo pela primeira vez. É indescritível estar na Portela. A ficha vai caindo aos poucos. O próximo passo é ensaiar até o desfile. Não tem resultado sem ensaio, sem trabalho. Acredito muito na disciplina dos ensaios, de você ficar catando cabelinho em ovo mesmo. A gente está pronto, mas precisa, até lá, ver cada detalhe: revendo cada roupa, cada coisa do carro, cada coisa do elenco, até o comportamento deles. A gente precisa se preservar agora, ensaiar com cuidado para, no dia, estar tudo direito”, comentou Cláudia Motta.

“A Portela, que é mãe, traz o batuque. É a primeira vez que o batuque vai desfilar na Avenida, é histórico. Isso é uma maneira de tirar a nuvem que cobre a cultura do batuque, da religião afro-gaúcha, e a Portela, muito generosa, está trazendo essa negritude e mostrando que o lugar do batuque é no Brasil inteiro. O Brasil precisa conhecer o batuque e vai se apaixonar por ele. São muitos ensaios; temos um elenco incrível trabalhando arduamente e tendo a oportunidade de se apresentar para o público. Os ensaios técnicos são duas grandes apresentações e a chance de experimentar a Avenida com público, com o público apreciando e aplaudindo o trabalho”, revelou Edfranc.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Em seu terceiro ano defendendo o pavilhão da Portela, Marlon Lamar e Squel Jorgea demonstram um grau de maturidade evidente. O casal apresenta um bailado seguro, confiante e cada vez mais entrosado, fruto de um trabalho de continuidade que se reflete na fluidez dos movimentos e na leitura precisa do quesito.

Squel mostrou que estava em uma noite inspirada. Na parte do refrão do meio, ela executou uma sequência de giros impressionante, de se perder as contas, mantendo ritmo, potência e controle absoluto da bandeira. Sua dança é expansiva, elegante e carregada de presença cênica, conduzindo a apresentação com naturalidade. Marlon responde à altura, com um bailado firme, jogo de pernas bem marcado, cortes elegantes e postura clássica, sustentando a tradição do quesito sem perder vigor.

A sintonia entre os dois é perceptível no olhar, no tempo dos movimentos e na forma como ocupam a pista. O casal explora bem os espaços ao longo do percurso e constrói uma apresentação envolvente. Apenas no último módulo, um ponto negativo: componentes que acompanhavam a comissão de frente e que, provavelmente, irão se apresentar na equipe de Cláudia Mota e Edifranc Alves se posicionaram de forma que reduziu o espaço de dança do casal. Ainda assim, a situação não comprometeu o desempenho da dupla, que manteve o controle e concluiu a apresentação com alto nível técnico.

“A emoção está transbordando. Estou desde quinta-feira sem ver meu filho; hoje, já recebi cinco vídeos dele desejando boa sorte. Graças a Deus, nós chegamos aqui, reta final, último grande passo para o grande dia, com a sensação de dever cumprido, com o coração transbordando de alegria e de orgulho. Só tenho a agradecer ao meu mestre-sala incrível, à nossa equipe, aos nossos apoios, que nos dão todo o suporte, e às nossas famílias, que não conseguem estar todas aqui, mas estão torcendo para que a gente possa passar de forma digna, para que nosso trabalho seja honrado e reconhecido”, disse a porta-bandeira.

“O casal de mestre-sala e porta-bandeira é formado por duas pessoas, e este ano não serão 40 pontos em jogo, serão 60 pontos, em uma cabine espelhada. Nós, de fato, somos atletas de alto nível e viemos nos adaptando a essa forma de julgar, até porque hoje não é apenas o jurado quem avalia: temos as pessoas dos sites, das arquibancadas, e sabemos que, a cada dia, esse público espera mais. Atualmente, existe uma cobrança física enorme, e sabemos que, quando a cabeça não aguenta, você pode dormir, acordar, dormir, acordar, e parece que não flui. Mas estamos fechados em um só propósito: honrar não apenas o nome da Portela, mas também a credibilidade, a confiança e o apoio que a escola deposita na gente. O ensaio de hoje teve um significado arrebatador, triunfante. É uma família carregada no dendê; vamos em busca da vigésima terceira estrela”, completou o mestre-sala.

SAMBA E HARMONIA

O samba-enredo da Portela se consolida como uma engrenagem fundamental do desfile. Funcional, crescente e com forte apelo coletivo, a obra empurra a escola para frente e estimula uma resposta espontânea da comunidade. O efeito é imediato: bastam alguns versos para que o corpo reaja, como no trecho “a Portela reunida carrega no dendê”, em que o balanço de ombro toma conta de quem está por perto quase involuntariamente.

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O canto foi o grande ponto alto do ensaio. Forte, contínuo e distribuído por toda a extensão da escola, sustentou a apresentação do início ao fim, sem oscilações perceptíveis. O carro de som teve papel decisivo nesse desempenho, segurando o andamento, valorizando os momentos-chave do samba e mantendo a escola conectada à melodia.

A harmonia se mostrou madura e bem trabalhada. O entrosamento entre intérprete, carro de som e bateria cria uma base sólida que permite ao componente cantar com confiança. O samba não apenas funciona: ele cresce a cada ensaio, ganhando corpo e sinalizando um grande rendimento no desfile oficial.

EVOLUÇÃO

A evolução da Portela foi marcada por leveza, alegria e fluidez. As alas desfilaram soltas, brincando com a lateralidade da pista, mantendo um bom ritmo de deslocamento e ocupação dos espaços. O clima era de prazer em desfilar, com componentes sorridentes, conectados entre si e com o samba.

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“Muito feliz. O propósito e a proposta da bateria da Portela são sempre melhorar a cada dia, e eu fui surpreendido com o que aconteceu aqui hoje. Arranjos muito firmes, bateria cantando, dançando, feliz. O andamento, do início ao fim, foi o mesmo, muito seguro nas execuções, tanto das nuances quanto das bossas, dos arranjos e das paradinhas, como preferirem, pulsando pela nossa escola. A minha avaliação é difícil: dou nota 10 para a bateria por toda a dedicação até aqui. Agora é pensar no desfile e, se Deus quiser, partir para o abraço pelo trabalho que vai ser executado no domingo que vem. Sobre o retorno de som, hoje tivemos alguns problemas técnicos durante outros ensaios, mas, para mim, não houve problema. Em alguns momentos, sinalizei que, no setor 4, próximo ao setor 6, o volume estava muito alto ali na pista, algo que rapidamente foi ajustado, com atenção e suporte. O volume abaixou e, para mim, não houve delay nem nenhum problema dentro da bateria, como infelizmente aconteceu com outras coirmãs. Graças a Deus, para mim deu certo. Agora é melhorar cada vez mais. Sei que a galera está trabalhando e se dedicando muito e acredito que, no desfile, vai estar perfeito. Para terminar, a expectativa para o desfile oficial é das melhores possíveis. É a realização de um sonho, não só meu, como da minha direção de bateria e também de toda a bateria da Portela, porque é sempre bom fazer pela nossa escola. A vibração e a energia estão 100%. Vai ser um dia histórico para todos nós”, disse mestre Vitinho.

O desenho da escola favoreceu uma progressão constante e sem buracos. A movimentação foi organizada, mas sem rigidez, permitindo que a espontaneidade do samba se manifestasse. O conjunto transmitiu a sensação de uma escola confortável na Avenida, consciente de seu tamanho e de sua força.

Pequenos ajustes ainda podem ser feitos, especialmente em momentos de maior concentração de alas, mas o saldo é positivo. A Portela mostrou uma evolução segura, solta e brincante, alinhada ao espírito do samba e ao momento vivido pela escola.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Tabajara do Samba”, sob o comando de mestre Vitinho, mais uma vez se impôs como um dos pilares do ensaio da Portela. Com andamento preciso, leitura segura do samba e impacto sonoro consistente, a bateria foi decisiva para sustentar o canto forte da escola ao longo de toda a pista, criando uma base rítmica que impulsionou a comunidade e reforçou a harmonia do conjunto.

Também merece menção a postura da diretoria durante o ensaio. A alegria e a empolgação do presidente Júnior Escafura foram visíveis do início ao fim da apresentação, acompanhando a escola com entusiasmo e envolvimento direto. A mesma entrega pôde ser observada na vice-presidente Nilce Fran, presença ativa e vibrante, enquanto a presidente de honra, Vilma Nascimento, se destacou pela elegância, vitalidade e simbologia que carrega, reafirmando sua importância histórica e afetiva para a Portela.

Outro momento de forte carga simbólica foi a presença de Tia Surica, que veio na alegoria que trazia a águia, símbolo maior da escola. A imagem da matriarca portelense associada ao principal emblema da agremiação reforçou o elo entre tradição, memória e identidade, criando uma cena de grande impacto emocional e reafirmando a conexão da Portela com suas raízes e seus pilares históricos.