Com emoção à flor da pele e discursos que atravessam gerações, a ala cênica que fechou o minidesfile da Unidos da Tijuca transformou “Quarto de Despejo” em gesto coletivo. Em entrevista ao CARNAVALESCO, a diretora artística da escola do Borel e três componentes que fizeram parte da ala “Canindé” falaram de Carolina Maria de Jesus, homenageada no enredo assinado pelo carnavalesco Edson Pereira, como espelho e reafirmação. Para elas, há algo em comum: “cada uma tem uma Carolina dentro de si”.

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Fotos: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Emoção e protesto no centro da encenação

Responsável pelo grupo cênico, a diretora artística Flávia Leal resumiu a noite como uma experiência difícil de colocar em palavras. “Eu não consigo nem falar de tão emocionada que estou. Acho que a Carolina é um pouquinho de todas as mulheres. A gente está trazendo muita verdade, muita emoção”, afirmou. Para ela, a homenagem é também um grito político: “A gente vem em forma de um protesto também. Aguardem o desfile que está chegando. É sobre isso”.

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Fechando o cortejo, a ala é apresentada como uma síntese do enredo e uma forma de colocar Carolina “lá em cima”, como disse Flávia, com entrega e intensidade.

Vânia Pinheiro: reviver no desfile a Carolina que estudou no teatro

A fisioterapeuta, professora de dança e atriz Vânia Pinheiro, de 60 anos, vive uma relação direta com a autora homenageada pela escola do Borel. Em outubro, ela interpretou Carolina Maria de Jesus no espetáculo “A Invasão”, apresentado na Expo Favela 2025. No mini-desfile, reencontra essa preparação de forma ampliada.

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“Ela me representa. Representa a mãe solo, a mulher que corre atrás e não tem medo de barreiras. É uma mulher atual, mesmo tendo nascido lá em 1914”, afirmou. Para Vânia, desfilar homenageando Carolina Maria de Jesus é também devolver à avenida o estudo que fez da autora: “É reviver tudo isso. Estou muito feliz por estar aqui”.

A expectativa, segundo ela, é mostrar a dignidade das mulheres brasileiras e a dor coletiva que atravessa mães e cuidadoras. “Mostrar ao povo a súplica das mães que perderam seus filhos, das mães solo que lutam pelo pão de cada dia. Cada dia nós, mulheres, matamos um leão”.

Maria Leotério: ‘cada uma de nós carrega uma Carolina’

Produtora de eventos, Maria Leotério de Souza, 61 anos, reforça que a homenagem nasce de um reconhecimento profundo. “A Carolina passou o que nós, mulheres pretas, também passamos. A arte que estamos fazendo é dedicada a isso”, contou.

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Para ela, a força da ala está no encontro entre mulheres que reconhecem sua própria história na da escritora. “Cada uma tem uma Carolina na vida, trazemos no coração. É importante mostrar quantas Carolinas deveriam estar na avenida também”.

A intérprete destaca que a escolha da direção por três mulheres pretas na linha de frente dialoga diretamente com o sentido do enredo. “Cada Carolina está dentro de nós, cada uma do seu jeitinho, com o seu pensamento”.

Camila Moreira: da Baixada ao Teatro Municipal, uma Carolina de 20 anos

A bailarina Camila Moreira, 20 anos, do corpo técnico do Teatro Municipal, chegou à ala “de paraquedas”, após convite de Flávia Leal. Não pretendia desfilar em 2026 por conta dos compromissos com o balé clássico, mas não conseguiu recusar o chamado.

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“Eu sempre me senti representada pela Carolina. Estar aqui descreve a minha história, da minha mãe, da minha avó e de tantas mulheres da comunidade”, disse. Camila vê sua presença como um gesto de representatividade para meninas da Baixada Fluminense. “Eu vim da Baixada. estou mostrando para as meninas mais novas que todo mundo tem uma Carolina dentro de si”.

Sobre a encenação preparada para o mini-desfile, a bailarina adianta que o grupo retrata a favela do Canindé. “É tudo muito sofrido, mas vocês vão se surpreender. A mensagem é que cada um descubra a Carolina que existe dentro de si”.

Força final do cortejo

Ao encerrar o minidesfile, a ala cênica da Tijuca transformou a dor e a potência de Carolina Maria de Jesus em presença coletiva. Gerações e trajetórias distintas representaram a escritora que denunciou a fome e registrou a vida na favela do Canindé, em São Paulo, com precisão e coragem.

Como resumiu Maria Leotério, “Carolina está dentro de nós”. No minidesfile do “Pavão”, cada uma delas decidiu trazê-la de um modo específico para a avenida.