A Beija-Flor de Nilópolis encerrou seu desfile na Marquês de Sapucaí transformando a avenida em oceano, altar e território de memória. O último carro alegórico não desfilou: navegou. Avançou como um grande balaio que cruza as águas do Recôncavo Baiano para entregar à avenida o presente mais precioso, o sagrado do Bembé do Mercado.

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Nascido há mais de 136 anos em Santo Amaro da Purificação, o Bembé ocupa as ruas como gesto coletivo de fé e liberdade. Criado por João de Obá logo após a abolição formal da escravidão, ressignificou o 13 de maio não como concessão do Estado, mas como rito de louvor às divindades, especialmente a Iemanjá e Oxum. Se a lei foi assinada pela caneta, foi o corpo negro reunido em celebração que construiu caminhos concretos de existência, pertencimento e continuidade.

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Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Bembé é considerado o maior candomblé de rua do mundo. Agora, sua força ancestral ganhou a vitrine internacional do Carnaval carioca.

O carro final materializou essa travessia. Espelhado como água viva, ele era o próprio oceano que abriu o desfile e, ao final, o acolheu de volta. No alto, Iemanjá e Oxum giravam sobre o mar cenográfico, abençoadas pelo beijo simbólico de um beija-flor que costurava rio e mar, Recôncavo e Baixada Fluminense, Bahia e Nilópolis. O carro era espelho, templo e balaio. Nele, o povo depositava vitórias, dores, promessas e gratidão. O desfile se encerrou como começou: em oração.

Para quem desfilava, a responsabilidade ia além do espetáculo.

Luana Maria, 45 anos, stylist figurinista e componente da escola há três anos, destacou a dimensão espiritual da apresentação.

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“A celebração da vida já é uma grande oferenda e uma energia vital. É um grande presente estar vivo e celebrar nossa religiosidade numa escola tão fantástica. Carregamos o nome dos orixás da nossa casa de santo através do nosso corpo, então precisamos estar preparados com postura e imponência”, disse.

A professora Catiuça Ribeiro, 45 anos, definiu o desfile como um marco político e espiritual.

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“Nós fomos inundados por um axé de transformação numa sociedade que nega a nossa presença e a nossa espiritualidade. A Beija-Flor fez um manifesto vivo do nosso axé e da nossa vida. Deixar as águas do Bembé na Sapucaí foi fertilizar um novo horizonte para essa espiritualidade africana, sobretudo de respeito pela nossa fé e pela nossa liberdade de viver o nosso sagrado”, afirmou.

Para a jornalista Flávia Oliveira, 56 anos, que desfila pela escola desde 1999, o momento teve dimensão íntima e ancestral. Filha do Recôncavo Baiano e beija-flor desde a infância, ela viveu na avenida o encontro de suas duas origens.

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“Eu sinto o encontro de Bembé e Nilópolis no meu corpo e na minha alma. É o encontro da escola que eu amo com a região onde eu nasci. É uma responsabilidade, mas também uma escolha política de valorizar a nossa cultura e pedir respeito pela nossa religiosidade”, comentou.

Diretamente de Santo Amaro para a avenida, o artista Roberto Chaves, 57 anos, que mora na França, atravessou o oceano para estar ali.

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“Eu vim desfilar por causa da homenagem ao Bembé do Mercado, a minha terra. Hoje foi uma reparação para todos os negros porque o mundo agora vai ver um Bembé que tem 137 anos e nunca veio para a avenida. A Sapucaí é vitrine do mundo. É o melhor lugar para mostrar a nossa história.”

Ao levar o Bembé do Mercado para a Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor reafirmou o Carnaval como território legítimo da memória negra. Transformou a avenida em extensão do Largo do Mercado de Santo Amaro. Fez da arte um gesto de devoção. Do samba, um herdeiro direto das matrizes africanas que estruturam o Brasil.

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O desfile terminou, mas não se encerrou. Como no Bembé, o ciclo retorna às águas para recomeçar. Porque, se toda terra tem dono, a água pertence a todos. E foi nesse encontro entre povo e mar que a escola ofereceu seu presente: um Carnaval que se fez rito, resistência e fé.