O segundo ensaio técnico da Beija-Flor de Nilópolis, realizado na noite do último domingo (8), na Marquês de Sapucaí, foi muito mais do que um simples teste de som, evolução e harmonia. Foi um verdadeiro ritual coletivo de emoção, memória e pertencimento. Embalada pelo samba-enredo para o Carnaval 2026, que homenageia o Bembé do Mercado, a comunidade nilopolitana transformou a avenida em um espaço de celebração da ancestralidade, fazendo cada componente cantar do fundo da alma, em um coro que arrepiou quem acompanhava de perto. Em meio a esse clima intenso, o CARNAVALESCO ouviu vozes que traduzem o impacto profundo que o samba vem provocando dentro e fora da escola.
Carlos Alexandre, personal trainer de 38 anos, destacou a força simbólica do enredo e a importância histórica do Bembé como expressão de liberdade e identidade.


“Primeiramente, a ancestralidade. Desde a libertação dos escravos, começou com a ideia de uma festa, mas, na verdade, foi um grito dos escravos em relação à libertação, e até hoje o Bembé existe por conta disso. Antigamente, os escravos faziam essa festa escondidos, mas, com a libertação, conseguiram dar o seu grito. É uma forma de expressão do povo negro: ‘nós estamos libertos, agora a gente pode fazer isso’. Para mim, é um orgulho. Não é só uma festa, é a origem da festa, falar da nossa ancestralidade. Não é só o Bembé, é algo maior, algo que nos move”, afirmou.
A mesma vibração foi sentida por Sol Mota, servidora pública de 40 anos, que definiu o samba como um retrato sensível da cultura afro-brasileira e da própria essência da Beija-Flor.

“Esse samba mexe comigo porque fala principalmente da sensibilidade da cultura afro-brasileira, vindo da Bahia. Então, o Bembé é a Beija-Flor na Avenida. A rua ocupamos por direito”, declarou, reforçando o sentimento de pertencimento e de afirmação cultural que ecoa a cada verso entoado na Passarela do Samba.
Para Ellen Oliveira, jornalista de 31 anos e praticante de religião de matriz africana, o impacto do samba vai além da emoção pessoal e alcança uma dimensão histórica e social.
“Para mim, que sou praticante de religião afro, acho importante que seja mostrado na maior festa cultural do planeta. Uma manifestação que não só resgata, mas também cultiva a raiz dessa cultura afro e da ancestralidade, que é o que move a escola de samba. Nós somos movidos pela ancestralidade. O Bembé é como festejar essa ancestralidade, porque, se nós estamos aqui, é em função desses muitos pretos que lutaram, que resistiram, e acho que, principalmente, é a memória”, afirmou.
Ellen também ressaltou o papel do carnaval como instrumento de preservação histórica em um país marcado pelo apagamento cultural.
“O Brasil, infelizmente, tem um processo de cultivo da memória muito complicado, então deixar isso registrado aqui na Avenida é também uma forma de cultivar uma memória que, às vezes, é perdida, que não se vê nas escolas. Tem essa importância de a gente levar do nosso carnaval para o mundo”, completou, evidenciando o alcance simbólico e educativo do desfile da Beija-Flor.
Ao longo do ensaio, ficou evidente que o samba de 2026 já cumpriu uma de suas missões mais nobres: tocar profundamente cada componente e transformar a Sapucaí em um espaço de pertencimento, orgulho e celebração coletiva. A Beija-Flor mostrou que não canta apenas para disputar um título, mas para manter viva a memória, honrar seus ancestrais e reafirmar, em cada passo, a potência da cultura afro-brasileira.










