A orla de Copacabana voltou a ser tomada pelo azul e branco de Nilópolis em um ensaio-desfile que reuniu memória, emoção e projeção de futuro. Mesmo após um tempo sem acontecer, o último ensaio no bairro havia sido realizado em 2018, ano em que a escola conquistou o título do carnaval com o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar”, a presença da Beija-Flor na Zona Sul reafirma uma tradição que atravessa décadas e conecta a Baixada Fluminense a diferentes territórios da cidade por meio do samba.
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A passagem da Beija-Flor pela orla da praia de Copacabana carrega um forte simbolismo, por ser fora de sua quadra, longe da Mirandela, local onde a escola testa sua força, mede a potência do samba-enredo e estabelece um diálogo direto com um público diversificado, formado por moradores, turistas, sambistas e apaixonados pelo carnaval carioca.

Para o presidente da escola, Almir Reis, o retorno após sete anos tem um peso emocional e histórico. “Para a gente, é uma emoção muito grande, depois de sete anos, estar aqui novamente. Isso aqui sempre foi um desfile tradicional da Beija-Flor. Em 2018, nós saímos daqui e fomos campeões. Quem sabe isso não acontece novamente?”, afirmou. Em 2025, o ensaio precisou ser cancelado por conta do calor excessivo, o que aumentou ainda mais a expectativa para este reencontro com Copacabana.

Apesar do clima festivo, o presidente reforça que a escola mantém os pés no chão na preparação para o desfile oficial na segunda-feira de carnaval.
“Independentemente de vir de um campeonato, a gente está fazendo o nosso trabalho. Evolução, harmonia, o barracão praticamente pronto, fantasias encaminhadas. Agora é fazer o correto na avenida, porque carnaval é na avenida”, pontuou, confiante na disputa pelo título.

O ensaio também evidenciou a força do samba-enredo, uma junção escolhida pela escola para contar, na Marquês de Sapucaí, a história do Bembé do Mercado, que acontece em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, sendo uma das mais antigas e simbólicas manifestações públicas do candomblé no Brasil. O tema conecta fé, ancestralidade e resistência negra, transformando o Carnaval carioca em espaço de celebração e memória afro-brasileira.

Essa narrativa ganha ainda mais potência com a bateria Soberana, que apresentou uma nova bossa justamente em um dos trechos mais simbólicos do samba, “Yemanjá, alodê no mar, no mar”, com uma variação rítmica marcada por sutileza e impacto, dialogando diretamente com o enredo e criando um momento de forte conexão entre samba e espiritualidade.
Para o diretor de carnaval, Marquinho Marino, a proposta do ensaio foi menos técnica e mais afetiva, sem abrir mão da comunicação com o público.

“Foi muito produtivo pela alegria, pelo divertimento, por ver o público abraçando a escola. A gente fez um ensaio mais livre, mais espontâneo, sem preocupação técnica, deixando o povo vir atrás da gente”, ressaltou.

Mesmo com o samba sendo um dos mais ouvidos da temporada nas plataformas digitais, Marino reforça que o verdadeiro teste acontece na avenida.
“O samba tomou corpo, ganhou força e está impulsionando a escola. Mas o samba tem que acontecer na avenida. Aqui fora ele cumpriu o papel dele, agora precisa cumprir lá dentro”, avaliou.
À frente da bateria, o mestre Rodney celebrou o desempenho da escola e o simbolismo de levar a cultura da Baixada Fluminense para a Zona Sul.

“Toda vez que a gente vem para Copacabana dá coisa boa. O trabalho está fluindo, é gradativo, a escola está criando unidade. Mesmo com chuva, todo mundo se comportou muito bem”, disse.
Para ele, o ensaio também cumpre um papel social importante. “É trazer a nossa cultura da Baixada para o pessoal da Zona Sul ver o que a gente faz. O samba, o carnaval, isso é cultura. Não tem discriminação, somos todos iguais. O samba mostra isso”, afirmou, e destacou ainda a chuva no fim do desfile como uma forma de bênção.

Ao ocupar novamente Copacabana, a Beija-Flor reafirmou sua identidade como uma escola que entende o carnaval como espetáculo, manifestação cultural e encontro popular. E fez um ensaio que não apenas aquece para a Sapucaí, mas também aponta para um desfile ancorado na força do samba, na precisão musical e na profundidade simbólica de um enredo que conecta fé, história e território.
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