O Camisa Verde e Branco encerrou, no último sábado, as apresentações do Grupo Especial no Carnaval de 2026. Sétima escola a cruzar o Anhembi, sua passagem foi marcada pela impecável atuação da bateria e pela irreverência do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira no cortejo. Mas infelizmente o Trevo teve problemas graves de evolução, que causaram o estouro do tempo regulamentar de desfile, encerrado após 1 hora, 6 minutos e 19 segundos. A agremiação da Barra Funda levou para o Sambódromo o enredo “Abre Caminhos”, assinado pelo carnavalesco Guilherme Estevão.

A última vez que uma escola de samba ultrapassou o limite de tempo no Grupo Especial de São Paulo foi em 2020. Em meio a um Carnaval tão disputado onde rebaixamentos já ocorreram com menos de um ponto de diferença em relação à campeã, começar a apuração já com três décimos a menos, conforme previsto no regulamento de 2026, é um golpe duríssimo. Os vários problemas observados em Evolução e Alegoria só tornam o desafio do Camisa ainda mais hercúleo, restando para a escola confiar em uma boa avaliação dos demais quesitos para se salvar do rebaixamento.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Luiz Romero, a Comissão de Frente do Camisa representou na Avenida “O primeiro caminho”, simbolizando a vinda do culto de Exu ao Brasil. A apresentação contou com um protagonista atuando como a entidade e coadjuvantes, parte com uma roupa mais leve trabalhada em palha, outra parte em tons vermelhos, que podem ter referenciado a simbologia de um ‘mar de dendê’. Além disso, a comissão atuou com cinco elementos cenográficos com movimentação mais flexível, que se juntavam para formar um grande tablado, com imagens esculpidas nas laterais. Exu sobe nessa estrutura, e em seguida um efeito de fogo surge da palma de sua mão.

Dentro da proposta do enredo, a comissão cumpriu bem o seu papel. Mas a cenografia, durante a passagem pelo primeiro módulo, andou parcialmente na hora da formação do tablado mencionado. É uma falha que pode resultar em uma das notas descartadas do quesito.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Reeditando uma parceria de sucesso, o primeiro casal do Camisa foi formado por Marquinhos e Lyssandra Grooters. A dupla se apresentou com fantasias representando “A terceira cabaça de Exu”. Um dos principais destaques do desfile da escola, a atuação da veterana dupla foi envolvente e energética. O mestre-sala esbanjou sorrisos, e a porta-bandeira defendeu seu pavilhão com determinação. A avaliação do quesito tem boas chances de ser satisfatória aos olhos dos jurados.

ENREDO
“Abre Caminhos” é um enredo em homenagem à força e à energia do orixá Exu. O desfile retratou, através de seus quesitos, vários elementos que remetem ao guardião dos caminhos entre o plano terreno e o espiritual. Como a fé em Exu chegou ao Brasil, as entidades com as quais se relaciona e as diferentes maneiras como os caminhos são abertos pela entidade.

É um enredo de leitura simples para quem tem conhecimento das religiões de matriz africana, expondo de maneira clara e sem pudor as diferentes referências a Exu, e ficou claro na Avenida através das representações do conjunto visual.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias do Camisa teve no desfile papel de ilustrar os diferentes setores apresentados pelo enredo. As vestimentas introduziram gradualmente a temática das alegorias, contribuindo positivamente para a narrativa do enredo. No geral, apesar da simplicidade dos materiais, as fantasias cumpriram seu papel, mas foram percebidos alguns problemas, como a queda de partes do adereço de cabeça da Ala 1 em demasia, deixando grande quantidade de resíduos ao longo da Avenida.

ALEGORIAS
O Camisa Verde e Branco desfilou com quatro carros alegóricos. São eles: o Abre-alas, “O assentamento da energia de Exu”, o Carro 2, “Energias e oferendas nas matas”, o Carro 3, “A noite do povo de rua”, e por fim o Carro 4, “Abre caminhos para a resistência do Camisa Verde e Branco”. Cada alegoria trouxe uma conclusão do conjunto visual apresentado anteriormente, fazendo um papel narrativo correto.

Mas na Avenida os problemas apresentados pelos carros foram muito sérios. A começar pelo acabamento do conjunto, em especial do Abre-alas, onde foram observadas várias falhas como materiais soltos, pinturas descascando, manchas explícitas em tecidos, dentre outros elementos. O mais grave deles, porém, foi na parte estrutural do Carro 4, que parou por duas vezes na Avenida e teve muitas dificuldades para voltar a andar, sendo pivô do estouro do tempo limite previsto no regulamento.

HARMONIA
Inicialmente, a comunidade entrou motivada para mostrar o seu valor, em especial por conta do aclamado samba do Camisa, vencedor de várias enquetes de melhor do ano. Mas conforme os problemas de evolução foram acontecendo, o clima do desfile foi esfriando, e o canto foi se perdendo gradativamente, com o agravante do forte calor do amanhecer de céu aberto.
EVOLUÇÃO
A evolução do Camisa tinha tudo para ser um trunfo novamente para a escola obter um bom resultado no Carnaval, mas em 2026 o grave problema com o último carro da escola inverteu essa expectativa. A escola evoluiu de forma mais lenta que o esperado, mesmo para um desfile com um contingente não tão grande. A irregularidade com a quarta alegoria do Trevo foi observada a partir do módulo três, então não é possível à reportagem concluir se o carro apresentou o mesmo problema diante de mais jurados. Mas tanto diante do terceiro quanto do quarto jurado, o espaço aberto diante de ambas as cabines superou dez grades de separação, causando assim a chamada ‘divisão de escola’. Buracos entre alas e diante do Carro 3 também foram observados conforme surgiu a necessidade de acelerar o andamento, gerando um final de desfile caótico para o quesito.
SAMBA-ENREDO
O samba do Camisa para o Carnaval de 2026 foi assinado por Silas Augusto, Cláudio Russo, Rafa do Cavaco, Turko, Zé Paulo Sierra, Fábio Souza, Luis Jorge, Dr. Elio, Charles Silva e Bruno Giannelli. Na Avenida, a obra foi defendida pelo carro de som comandado pelo intérprete Charles Silva, que fez sua estreia no Carnaval de São Paulo.

O Trevo foi feliz na opção por encomendar o samba da parceria que venceu o concurso organizado pela escola no ano anterior, resultando em uma das obras mais aclamadas pela crítica e o público para o Carnaval de 2026. A letra aposta em várias referências a cânticos de terreiros para Exu, e possui uma construção melódica e de versos com muita inteligência, como a menção ao nome completo “Camisa Verde e Branco” no refrão principal sem transparecer algum tipo de peso ao cantar.
Na Avenida, o samba funcionou bem na voz do público, graças à letra de fácil assimilação e o clamor em torno da obra. Mas o intérprete aparentou não estar em sintonia constante com o restante do carro de som durante o cortejo, reduzindo a eficácia do andamento musical da escola.
OUTROS DESTAQUES

A bateria “Furiosa da Barra” teve papel fundamental para que o samba desempenhasse de forma satisfatória na Avenida. Bem ensaiados, os ritmistas comandados pelos mestres Jeyson Ferro e Jefferson da Conceição fizeram sua parte para manter o astral do Camisa Verde e Branco mais animado, mesmo em meio às dificuldades enfrentadas durante o desfile.










