Sob o som dos atabaques e envolta por serpentes e símbolos das águas sagradas, a Unidos do Viradouro fez da fé um espetáculo na Marquês de Sapucaí. Terceira escola a desfilar na segunda-feira, a vermelho e branco de Niterói levou para a Avenida o enredo “Para cima, Ciça!”, homenagem ao mestre de bateria que marcou gerações.
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No quarto carro, “Atabaque Mandou Te Chamar”, a agremiação mergulhou no misticismo afro-brasileiro para celebrar a proteção espiritual dos tambores e reafirmar a força do axé na busca por mais um título. O desfile teve assinatura do carnavalesco Tarcísio Zanon, com texto do enredista Gustavo Melo.

Entre os desfilantes da alegoria estavam Egili Oliveira, de 45 anos, atriz, professora de afro-samba, empreendedora e produtora cultural, que desfila na escola desde 2018; Luciana Santos, de 23 anos, educadora infantil e estreante na agremiação; e Ruth Silva, de 26 anos, quiropraxista e massoterapeuta, também em seu primeiro desfile pela Viradouro.
Energia dos atabaques e conexão espiritual
A presença dos atabaques como fundamento religioso marcou o setor dedicado ao axé da bateria, reunindo serpentes e seres híbridos que dialogam com o vodun Dangbé, campeão em 2024, e com as águas de Oxum.
“Com certeza, eu tenho uma conexão muito grande com os atabaques. Eu já fui rainha de bateria e teve um ano que eu tinha uma coreografia dentro da bateria e quando o atabaque toca, o meu corpo se arrepia todo, parece que eu entro em transe. E acredito que quando eu subir nesse carro não vai ser diferente”, afirmou Egili Oliveira.
Já Luciana Santos foi direta: “Eu sou uma pessoa que também sou do candomblé e acho que sem o atabaque não tem axé”.

“Realmente remete à ancestralidade, eu sinto que é algo mais forte, mais quente. Eu gosto bastante. Eu acho que é outra sensação estar dentro desse carro. Passa várias coisas na nossa cabeça. Tem o dragão ali meio que soltando fogo, tem vários elementos, eu acho que transmite algo muito forte. Acho que passa uma mensagem bastante forte”, concluiu Ruth Silva.
Serpentes e o símbolo da vitória
As serpentes presentes na alegoria fazem referência direta ao desfile campeão de 2024, reforçando a ideia de continuidade e proteção espiritual na busca por mais um título.
Egili aposta na superstição. “É muito bom vir em um carro que traz um amuleto como esse. Me deixa muito esperançosa. É a sensação de que a gente vai voltar campeã”, afirmou.

“Para mim é uma honra. É muito bom representar, ainda mais o ano em que ela foi campeã. É sempre maravilhoso ressaltar”, disse Luciana.
“Eu acho que nada é em vão. Eu acho que estava escrito, eu acho que tem algum propósito. É meu primeiro ano na escola de samba, eu já estou sentindo que vai dar bom, estou sentindo. Vindo nesse carro então, quando eu vi o carro eu já me arrepiei, eu falei: ‘Gostei desse carro’. Já tinha olhado antes de saber que era meu, já gostei”, afirmou Ruth.
Rituais de fé e proteção antes do desfile
O discurso sobre “macumba na Avenida” ganhou contornos pessoais nos relatos sobre os rituais de fé realizados antes de entrar na Sapucaí.
“Com certeza, eu fiz minhas firmezas. Eu sou macumbeira mesmo, não nego. Eu sou bisneta de feiticeiro, sou neta de mãe de santo e eu faço minhas proteções, com certeza, porque eu acho que é muito importante a gente estar lidando com energias. A gente está falando de ancestralidade também e, com certeza, a gente precisa conversar com o sagrado antes de pisar numa avenida ou subir num carro onde tem tambores”, afirmou Egili.
Luciana também não abre mão de seu ritual de fé.“Eu tenho a minha proteção de carnaval, que eu faço no meu terreiro junto com a minha mãe de santo. Porém, quando eu venho, eu venho pedindo Oxum, que é minha mãe, e Oxóssi, sempre proteção para guardar e que a gente vença esse ano”, explicou.
Ruth, por sua vez, tem sua mania, mas de forma menos espiritualizada. “Meu ritual antes de desfilar é começar a sambar e cantar o hino. Esse é o meu ritual”, concluiu.










