Por Carolina Freitas e Gabriel Radicetti
A quadra da Portela foi palco de um encontro histórico, promovido pelo programa Apoteose do Samba, da Rede Globo, que vai ao ar no próximo fim de semana. A gravação contou com uma grande roda de samba, que reuniu os intérpretes e mestres de bateria das escolas do Grupo Especial do Rio para cantar clássicos do gênero e sambas-enredo marcantes. Apresentado por Lilian Ribeiro, Chico Regueira, Francini Augusto e Alexandre Henderson, o especial se propõe a dar visibilidade a quem constrói o carnaval diariamente.
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“A proposta desse programa é contar a história do samba pela perspectiva de quem o faz. O samba, além de ser uma cultura completa, com gastronomia, moda, costumes, jeito de falar, um estilo próprio de composição e organização das escolas de samba, também gera emprego, renda e começa dia primeiro de janeiro, acabando em 31 de dezembro. Nesse programa, a gente homenageia quem faz a festa e as pessoas não veem. Contamos os bastidores pelo ponto de vista do trabalho”, explicou Chico Regueira.
Francini Augusto reforçou que o programa nasceu com a missão de ser mais do que uma disputa de agremiações. “A mensagem do Apoteose do Samba é mostrar as pessoas que vibram o carnaval e os profissionais que fazem tudo isso acontecer. Estamos reunindo, pela primeira vez, as 12 escolas do Grupo Especial, mostrando que, apesar de ser uma competição, em que todo mundo quer a nota 10 e o campeonato, o carnaval vai muito além disso. Ele gera economia, renda, emprego e sustenta muitas famílias. É um universo que existe para além da Marquês de Sapucaí, e o programa vai mostrar os bastidores, os motoristas, as fábricas de instrumentos, quem trabalha nos barracões, nas feijoadas, com um olhar jornalístico atento, revelando tudo o que acontece além do dia do desfile, tanto na Sapucaí quanto na Apoteose do Samba”.
O conceito da edição de 2026 é sintetizado no subtítulo “Apoteose do Samba: gente que faz”. Para Alexandre Henderson, essa ideia está presente em todo o conteúdo apresentado.
“A proposta do programa este ano é mostrar que o mundo do carnaval vai além do desfile. As escolas funcionam durante os 12 meses do ano e os profissionais estão envolvidos full time. A gente homenageia os ferreiros, os aderecistas, os mestres-sala e porta-bandeiras, os ritmistas, os intérpretes… Toda essa gente que faz o carnaval acontecer, o maior espetáculo da Terra, ganhar vida”.
Lilian Ribeiro destaca que a roda de samba é apenas o ponto de partida. “No Apoteose, a gente reúne representantes das 12 escolas, mas não fica só na roda de samba. A proposta é trazer muito conteúdo, com reportagens sobre os profissionais que constroem o Carnaval nas mais diversas áreas. Vamos mostrar, por exemplo, o processo de reciclagem de fantasias, o dia a dia do Emerson Dias, que é intérprete da Niterói, mas também técnico em telecomunicações, o trabalho do motorista da escola de samba, que tem um papel fundamental nesse universo. É um mergulho completo nesse mundo que vai muito além do desfile”.
Emoção que transborda
O fato de a gravação ter sido na quadra da Portela teve um peso emocional especial para os apresentadores. Revelando algumas torcidas, eles dividiram com o CARNAVALESCO a felicidade de terem sido selecionados para comandar a edição deste ano do programa, que já teve apresentação de Milton Cunha e Mariana Gross no passado.

“Representa uma honra enorme. A primeira vez que eu entrei na quadra da Portela, fiquei emocionadíssimo, porque sempre gostei muito de música popular brasileira, samba sobretudo, e sempre escutei compositores aqui da Portela: Paulinho da Viola, Casquinha, Seu Jair do Cavaquinho, Candeia. Estar hoje apresentando um programa aqui, falando da Portela, é uma alegria. Nem nos meus melhores sonhos eu pensei ou sonhei com isso”, revelou Chico Regueira, com felicidade.
Francini definiu o convite como um marco profissional e pessoal. “Ser escolhida para integrar a equipe do programa representa uma responsabilidade absurda. Agradeço muito a confiança da equipe e a oportunidade de participar desse projeto. O samba é potência. Eu gosto de carnaval, vibro o carnaval, mas trabalhar é diferente: tem a folia, mas também tem responsabilidade. Hoje tive a chance de viver um programa só com notícia boa. O choro foi só de emoção. Já fui batizada, o salto já quebrou, já aconteceu de tudo; por isso, pode me chamar sempre. Eu adorei o convite”.
“Para mim, é uma honra estar na Portela, que é a anfitriã e maior detentora de títulos do Campeonato Carioca, recebendo com tanto carinho as 12 coirmãs do Grupo Especial. Tem o simbolismo do samba, da feijoada, desse movimento que agrega, alegra e fortalece os laços de amizade. Temos aqui brancos, negros, mestiços, gente rica, gente pobre, e é um lugar de respeito. A sociedade deveria olhar a escola de samba como um espelho de como conviver com o outro”, contou Alexandre, muito emocionado por estar na escola pela qual torce.

Lilian também destacou o sentimento de pertencimento trazido pela experiência. “Sou uma apaixonada por carnaval. Sou carioca, do subúrbio do Rio de Janeiro, e poder falar desse lugar e da cultura que se produz aqui foi muito especial. Hoje me senti falando da minha própria gente”.
Os apresentadores também aproveitaram para falar sobre a própria trajetória na cobertura carnavalesca.
Chico relembrou sua chegada ao universo do samba a partir do jornalismo: “Eu era repórter investigativo do Fantástico. Tenho uns dez carnavais, ao menos”.
Já Alexandre comentou sobre o impacto de ter começado justamente no ano de retomada do evento após a pandemia.
“Comecei em 2022, logo com o retorno do pós-pandemia. E imagina: eu, que sou apaixonado pelo universo carnavalesco, começar lá na Sapucaí cobrindo o desfile da Série Ouro e, no ano seguinte, do Grupo Especial. Cada ano é uma emoção forte e diferente”.
Roda de alegria
Com o clima de união e alegria, o dia foi repleto de vários momentos memoráveis. Entre os mais marcantes, Regueira destacou o que considerou o ponto mais alto.
“A participação de Fernando Procópio e Gabrielzinho do Irajá. Eu adoro partido alto. Na hora em que rolou aquele partido alto, foi um momento maravilhoso do programa”.
Francini lembrou do frisson do encerramento: “No final da gravação, quando todo mundo cantou junto e se abraçou, não foi um abraço cenográfico. Foi de verdade. A gente sentiu a energia, viu que deu certo, que entregou mais um programa com qualidade, amor e paixão. Sou canceriana e chorei muito”.
Alexandre também apontou o “gran finale” como ápice emotivo: “Foi a sensação de dever cumprido. Eu me emocionei muito quando entrevistei os casais de mestre-sala e porta-bandeira. Ver o amor à bandeira, o amor ao carnaval, e perceber que é um trabalho feito com muito afinco e profissionalismo foi muito tocante”.
Para Lilian, o que mais simbolizou o espírito do programa foi a celebração feita ao mestre Ciça. Enredo da Viradouro, ele teve os demais mestres e intérpretes presentes o abraçando e exaltando enquanto cantavam o samba da escola que o homenageia.
“Foi algo muito espontâneo, todo mundo celebrando um nome tão importante do carnaval. Ele é um cara muito simples, muito humilde, de uma bondade enorme e, ao mesmo tempo, um artista tecnicamente e musicalmente incrível. Merece muito respeito e reconhecimento”.
Relação afetiva com as escolas de samba
Nem tudo fica no campo profissional quando falamos de cobertura carnavalesca. Por mais que sejam imparciais enquanto profissionais, cada apresentador carrega uma paixão no coração, torcidas e vínculos pessoais com o mundo das escolas de samba.
“Eu sou Portela. Minha relação com ocarnaval e a escola de samba é profunda. Frequento a quadra da Portela, adoro a Portela, mas adoro também Mangueira, Imperatriz, Mocidade, Império, Salgueiro. O samba tem uma missão de paz, um ideário de paz a ensinar para a sociedade de maneira geral. De conviver e abraçar o diferente. O samba faz isso”, revelou, com empolgação, Chico Regueira.
Francini, em contrapartida, contou que está se inserindo cada vez mais no mundo do samba e absorvendo de tudo um pouco.
“Minha relação com as escolas de samba ainda está em construção. Sempre me perguntam isso, e é parecido com o esporte: o repórter evita dizer o time para não parecer tendencioso. Agora que estou mais inserida nesse universo, vou um pouquinho na Portela, passo pelo Tuiuti, dou um pulinho na Mangueira e amo cada experiência. Eu desfilei no Paraíso do Tuiuti no ano em que o Caetano Veloso foi homenageado, e foi muito especial. Foi a primeira vez que pisei na Marquês de Sapucaí sem estar trabalhando”.
Alexandre trouxe uma memória de família que explica sua ligação profunda com a Portela. “Tive um tio-avô que foi promotor de justiça, um negão lá na década de 1960. Ele foi um dos fundadores do Renascença e era um portelense apaixonado. Levou essa paixão para a minha família. Desde pequeno, lá em casa, sempre tivemos o costume de comprar discos de samba-enredo e assistir aos desfiles. Sou Portela e frequento os eventos da escola desde a década de 1990”.
Lilian contou que sua aproximação com o carnaval se deu pelo trabalho. O fascínio, segundo ela, sempre foi pelos bastidores do espetáculo.

“Minha relação com as escolas de samba não vem de família. Não cresci frequentando quadras, mas sempre me encantei com o samba e com os desfiles, que eu acompanhava pela televisão. Foi através do jornalismo que me aproximei de verdade desse universo. Entender a cabeça do carnavalesco, como ele costura uma ideia com o apoio de tantos outros artistas, da bateria aos intérpretes, diretores de ala, sempre me fascinou”.
Carnaval na memória e no coração
Quando o assunto são lembranças inesquecíveis vividas na Sapucaí, as respostas dos quatro apresentadores demonstraram o quanto o carnaval marca quem vive a festa de perto.
Francini destacou um ritual que se repete a cada desfile: “No Sambódromo, o momento que mais me marca é o clássico: a entrada no Setor 1, o aquecimento. Qualquer escola. Aquele comecinho, o grito de guerra, todo mundo vibrando.” Para ela, o fechamento do portão é sempre decisivo. “Depois, quando o portão vai fechando e a escola começa a desfilar, são dois momentos muito fortes”.
Alexandre citou um desfile que, apesar de recente, já o marcou profundamente. “O desfile de 2025 da Beija-Flor, falando de Laíla, principalmente na passagem do carro que tinha Laíla na frente e Joãosinho Trinta.” Ele definiu a cena como uma catarse. “Celebrar um homem negro como Laíla, que fez tanto não só pela Beija-Flor, mas para o mundo do samba, foi muito emocionante”.
Lilian mencionou uma imagem que ficou gravada na memória popular do brasileiro. “Um desfile da Portela, quando a águia desceu para passar por baixo da plataforma, que hoje nem existe mais. Ver aquilo ao vivo foi inacreditável. Parecia que todo mundo estava respirando junto, torcendo para dar certo. Poderia ser qualquer escola, mas naquele instante todo o Sambódromo estava unido.”
Destoando de seus colegas, Chico surpreendeu ao apontar um momento fora do Sambódromo: “Foi hoje. Foi aqui na Portela”.
Ao reunir essas histórias e tantas outras que irão ao ar nos dias 31 de janeiro e 07 de fevereiro, o Apoteose do Samba se firma como mais do que um programa musical. A atração assume o papel de celebrar a cultura brasileira, levando para dentro das casas brasileiras mais uma parte do espetáculo que é o carnaval carioca, mostrado como ele é vivenciado o ano inteiro, além da Sapucaí.









