A primeira alegoria da Unidos do Porto da Pedra, intitulada “Cais da Labuta Meretrícia”, trouxe à tona uma das páginas mais silenciadas da história brasileira. O carro retrata a chegada das “polacas” ao país, mulheres judias do leste europeu trazidas pela máfia Zwi Migdal com falsas promessas de casamento, que acabaram escravizadas na prostituição da Zona Portuária do Rio de Janeiro.
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FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Cercadas por monstros marinhos que simbolizam o medo da travessia e a violência da exploração, elas são lembradas como vítimas de um sistema cruel, e como símbolo de resistência diante do abandono e do preconceito.Vindo à frente do carro, a musa Andressa Urach retornou ao carnaval após 13 anos e afirmou que o desfile teve um significado pessoal e coletivo.
“Me sinto honrada. Estou há 13 anos longe do Carnaval e, quando recebi o convite da Porto da Pedra, senti que precisava estar aqui para dar voz a essas mulheres. Minha fantasia fala das profundezas do oceano, mas é uma homenagem às polacas, vítimas de tráfico humano, que sofreram abusos e não escolheram essa profissão. Ainda hoje existem mulheres que passam por isso. Quando o país olhar para elas com respeito, como cidadãs que merecem direitos básicos, como moradia e acesso a empregos e a lazer, as coisas podem mudar. A Porto da Pedra está sendo um divisor de águas ao trazer voz para essas mulheres que também merecem direitos e proteção”, enfatiza Urach.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A advogada Priscila Dima defendeu a importância da autonomia feminina ao representar essa memória: “É o marco de uma revolução das mulheres entenderem que podem ser o que quiserem, seja em casa, na cama ou na rua. A mulher não precisa da opinião alheia para definir quem é. Ela pode escolher o próprio caminho. Apesar do machismo ainda existir e mulheres morrerem todos os dias, é fundamental que elas reconheçam o próprio potencial, tenham independência emocional e financeira e não se submetam a abusos”, pontua.
Sobre os “monstros” que ainda cercam as mulheres, ela acrescentou: “O machismo é um deles, mas também existe a dependência emocional e financeira. Mesmo quando conquistam autonomia, muitas ainda se submetem a abusos psicológicos e físicos. Isso vem de uma construção histórica que precisa ser enfrentada”.
Luta diária por inclusão
A advogada Mônica Alexandre dos Santos ressaltou que a história das polacas dialoga com outras experiências femininas mais atuais, que também são marcadas pela exploração.
“Eu já conhecia a história das polacas. Eu e minha amiga Glória Ramos estudamos as trajetórias de mulheres pretas pós 1888 e sabemos como essas histórias de exploração atravessam gerações. Apesar delas serem formadas apenas por mulheres brancas, aqui no carro, somos duas mulheres negras representando essa memória, como forma de mostrar que as mulheres, independentemente da raça, são vulneráveis a exploração”, afirma.
A amiga, a professora Glória Ramos trouxe a identificação com a luta cotidiana das mulheres como uma forma poderosa de passar a mensagem do enredo: “Não é apenas uma representação, somos nós mesmas. Mulheres negras trabalhadoras que matam um leão por dia. Essa é uma homenagem às profissionais do corpo que ainda sofrem preconceito. E todas as mulheres são trabalhadoras, com ou sem carteira assinada. As donas de casa são trabalhadoras. Estão sempre na luta”.
Enredo contra o preconceito

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O dentista Sérgio Adriano, responsável pela organização da alegoria, apontou o caráter inclusivo da proposta do carro, destacando que ele é muito mais abrangente do que apenas representar as polacas.
“A principal mensagem do enredo é que não pode ter preconceito. Embora o carro represente as polacas, ele também dialoga com outras mulheres que vieram ao Brasil e foram exploradas, como as mulheres negras que foram trazidas escravizadas e são marginalizadas até hoje. A mensagem principal é quebrar preconceitos. É um enredo que inclui, não exclui”.
Ao falar sobre os “monstros” atuais, ele não hesitou em trazer o problema para os homens: “O feminicídio acontece a toda hora e não tem classe social. Qualquer homem sem caráter pode cometer esse crime. Não precisa ser um marinheiro, um empresário rico da Faria Lima pode ser um feminicida: O país precisa mudar essa história e criar leis mais rígidas para proteger as mulheres”.









