A ala “Homem com H?” chamou atenção no desfile da Imperatriz. Vestidos de rosa, com muito “fru fru” e partes do corpo à mostra, os componentes levaram para a avenida todo o deboche que Ney Matogrosso, homenageado pelo enredo da escola, usou durante sua carreira para questionar os padrões de masculinidade.

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Jociel Santos de 43 anos
Jociel Santos, de 43 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O técnico de enfermagem Jociel Santos, de 43 anos, conseguiu enxergar exatamente esse deboche na proposta da fantasia e alfinetou quem ainda se prende a padrões opressores.

“É deboche, quebra de paradigmas. O Ney fez isso a vida toda, com as canções, com a postura, com a vestimenta e com as atitudes dele. A fantasia vem toda de rosa, com o corpo de fora, ou seja, provocativa. É isso que ela representa. Carnaval é para isso, se libertar e não se levar a sério. A gente não precisa se levar a sério o ano todos A função do carnaval também é educar a sociedade, quebrar paradigmas, mostrar o verdadeiro lado da história. Tem muita seriedade e muita hipocrisia sem necessidade”, analisou.

O ator Rafael Braga de 39 anos
O ator Rafael Braga, de 39 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O ator Rafael Braga, de 39 anos, fez uma reflexão sobre o conceito de masculinidade ao longo da história da humanidade, e destacou Ney como a escolha perfeita da escola para apresentar essa ideia a um grande público.

“A masculinidade é uma construção, assim como a feminilidade. Nos ensinaram a ser de um jeito. Existe um lado ruim dessa masculinidade instituída, quando se usa a força ou a raiva para fazer mal ao outro. O que importa é construir uma masculinidade saudável. Se a gente olha para a história, os homens já usaram saias, perucas, maquiagem e eram considerados másculos e grandes líderes. Hoje, para ser um grande líder e levado a sério, um homem dificilmente poderia usar uma maquiagem por mais simples que fosse. Isso mostra que tudo é construção. O Ney ajuda a desconstruir essa ideia até hoje. A escola escolheu um ícone da nossa cultura que foi transgressor à sua época, um cara que pensava à frente, desmistificado de preconceitos. É importante estar aqui, não só como gay ou hétero, mas como pessoas unidas numa mesma causa, representando todas essas ideias juntas”, desabafou ele, emocionado.

Matheus Andrade e Eduardo Teixeira
Matheus Andrade e Eduardo Teixeira
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Aos 20 anos, Matheus Andrade vê na ala uma herança direta da postura provocadora do artista durante a ditadura.

“O Ney fazia muito isso do deboche. Em uma época em que os artistas eram censurados, ele se posicionava. A nossa roupa rosa, com elementos tidos como femininos pela sociedade, é mais que um deboche. É um posicionamento, como ele fazia. Acho que essa ala diz muito”, acredita.

O amigo dele, Eduardo Teixeira, de 22 anos, reforçou que a mensagem ultrapassa os rótulos socialmente pré-estabelecidos.

“É uma ala para a desconstruir essa ideia de que homem não pode usar rosa, que tem que ser machão. Nem todos aqui são LGBTs, e isso mostra que não existe um ideal único de homem. A gente tem que se jogar, se divertir. Está todo mundo confortável, e isso casa muito com a ideia do Ney. 2026, né, gente? Tem que desconstruir”.