A Ala 4 do Paraíso do Tuiuti trouxe uma aula de ancestralidade Lukumi para a Avenida. Intitulada “O Ifá em Kush”, ela apresentou ao público a trajetória do oráculo de Orunmilá a partir das rotas transaarianas, conectando a cidade sagrada de Ifé ao Reino de Kush e, séculos depois, à cultura Lukumi, fruto da fusão afro-cubana. Componentes ouvidos pelo CARNAVALESCO explicaram como o conhecimento atravessou desertos, oceanos e gerações até chegar à Marquês de Sapucaí.

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As antigas rotas caravaneiras que cortavam o Saara não transportavam apenas ouro, sal ou tecidos. Eram caminhos de troca de saberes. De Ifé, berço do sistema divinatório do Ifá, comerciantes e viajantes levaram fundamentos religiosos que encontraram eco em outras civilizações africanas. No Reino de Kush, na antiga Núbia, território que hoje corresponde ao Sudão, sacerdotes conheceram o oráculo de Orunmilá e absorveram ensinamentos transmitidos por babalawos vindos da cidade iorubá.

Matheus Pereira 25 cuidador de animais
Matheus Pereira, 25, cuidador de animais
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A fantasia da ala materializou esse encontro. Referências às pirâmides kushitas, aos recursos minerais e à imponência dos faraós negros dialogavam com elementos simbólicos do Ifá, traduzindo visualmente a ideia de intercâmbio cultural. Matheus Pereira, 25 anos, cuidador de animais, ressaltou como o Carnaval, hoje, cumpre seu papel social ao perpetuar cultura e conhecimento através da arte.

“Eu sou de Santa Catarina e posso dizer que é um estado que desconhece essa cultura, eles apenas conhecem o Carnaval através do que veem na televisão, mas desconhecem toda a cultura por trás”, contou. Para ele, o desfile tem também um papel educativo. “Quem estuda um pouco da história do nosso país sabe que a história contada é a europeia e não a ancestral, dos negros. O carnaval, esse palco gigantesco, é uma das principais formas de mostrar essa história para a população”.

Maria da Graca 59 dentista
Maria da Graça, de 59 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para Maria da Graça, de 59 anos, dentista, que desfilava pela primeira vez, a transmissão desse saber passa necessariamente pela explicação e pelo diálogo com as novas gerações.

“Acredito que passando para novas gerações e explicando a cultura e a história do Ifá, porque muitas pessoas nunca nem ouviram falar dessa cultura cubana, que fala sobre o destino de cada pessoa, é muito importante cada um saber do seu destino”, afirmou. Ela destacou ainda o alcance da festa: “O carnaval é uma cultura de todos os povos, raças, culturas. O carnaval é uma cultura”.

Milena Blanc 32 medica
Milena Blanc, 32, médica
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Iniciada na tradição, a médica Milena Blanc, de 32 anos, desfila pela escola há três anos e vê na apresentação um movimento de afirmação: “Acho que o que o Tuiuti está fazendo hoje é uma excelente forma de levar o conhecimento para o povo. Eu sou iniciada em Ifá, foi uma herança de família, minha mãe iniciou, depois eu iniciei, meu filho também”, relatou. Para ela, a oralidade é ferramenta essencial: “O carnaval é literalmente uma escola”. Milena acredita que propor enredos que contem a história preta já se tornou uma identidade da agremiação e torce para que o desfile amplie a visibilidade da cultura negra.