O agreste pernambucano, cenário da infância de Luiz Inácio Lula da Silva, abriu o desfile da Acadêmicos de Niterói como território simultâneo de aridez e resistência. Primeira escola de domingo no Grupo Especial, a agremiação apresentou a trajetória do presidente desde a infância marcada pela seca até a chegada à Presidência da República.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

aa niteroi na avenida
Abre-alas da Acadêmicos de Niterói. Foto: Mariana Santos

Entre pássaros ressequidos e tons terrosos, uma árvore de mulungu irrompe vibrante. Sobre ela, o menino Lula sorri. A alegoria explicita a tensão que atravessa seus primeiros anos: da escassez brota a esperança. No sertão, o que ameaça também fascina e sustenta o imaginário infantil.

arvore de mulungu abre alas niteroi
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Representando retirantes aos pés da árvore no terceiro módulo do carro, Leaci Oliveira destacou a força simbólica do elemento central, que transforma a morte em possibilidade de renascimento.

“Ao mesmo tempo em que existia a seca, ele via a vida com certa inocência. A árvore traz essa sensação de brotar, de renascimento, de expectativa de um futuro melhor”, afirmou.

Leaci abre alas niteroi
Leaci Oliveira. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Paralelos estéticos reforçam a ambiguidade: carcaças ressecadas, materiais opacos e natureza morta contrastam com iguanas e cobras coloridas que acompanham o caminho do menino até a esperança. A dualidade que marca a origem do presidente estrutura a narrativa visual do abre-alas.

Joao Abre Alas niteroi
João Hildenberg. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Na alegoria, João Hildenberg personifica um ser místico do agreste que povoava as lendas da infância em Garanhuns. Para ele, a tensão estética evidencia o cenário desafiador enfrentado por Lula e sua família.

“Ele veio de um lugar com muita pobreza e fome e se tornou quem se tornou. Homenageá-lo representando essas lendas da natureza é muito importante”, disse.

O carro também evidencia a crueldade da seca que forçou Lula e tantos outros retirantes a buscar uma vida digna em outros territórios, como ressalta o samba-enredo.

arlen abre alas niteroi
Arlen Guerra. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Não tem como contar a história do Lula sem falar do sertão e da seca cruel daquele tempo. Foi onde tudo começou”, afirmou Arlen Guerra, integrante da composição alegórica.

Acima da árvore de mulungu, o menino sustenta uma estrela azul, imagem de futuro possível em meio à aridez. A alegoria transforma a trajetória individual de Lula em espelho de muitas outras caminhadas marcadas por luta, deslocamento e resistência.

“Nem todos que se esforçam conseguem chegar tão longe, mas, com luta e oportunidades aproveitadas, isso pode acontecer. A história dele mostra exatamente isso”, concluiu Leaci.