Durante a concentração da Paraíso do Tuiuti para o ensaio técnico realizado neste sábado, a identidade da escola como “O Quilombo do Samba” ganhou contornos ainda mais nítidos a partir do olhar e da vivência de quem constrói o desfile na prática. Componentes da agremiação, todos desfilantes anônimos, foram ouvidos pela reportagem e reafirmaram a força do slogan da escola, além da importância de a Tuiuti seguir apostando em temas que exaltam a negritude, a ancestralidade e a diáspora africana.

tuiuti rua2601 10
Fotos: Marielli Patrocínio e Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para o Carnaval 2026, a escola levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, que promete mais do que um desfile: uma verdadeira experiência imersiva na cultura do Ifá cubano, abordando seus aspectos históricos, espirituais e a forte noção de comunidade que atravessa o povo preto em diferentes partes do mundo. Um tema que, segundo os entrevistados, dialoga diretamente com a identidade que a Tuiuti vem construindo ao longo dos anos.

Músico percussionista e educador musical, Douglas Jorge, de 37 anos, faz seu primeiro desfile pela Paraíso do Tuiuti. Apesar de estreante na escola, ele carrega uma trajetória sólida no carnaval, tendo sido criado na Portela, onde chegou a ocupar o cargo de diretor de bateria. Para Douglas, o conceito de quilombo ultrapassa limites geográficos e se manifesta onde quer que a cultura preta esteja viva.

image1

“Com certeza a Tuiuti é o quilombo do samba. Tem muita coisa que as pessoas ainda não entendem sobre esse enredo e sobre essa proposta. No Brasil, os negros se juntaram e formaram o candomblé, misturando Angola, Benin, Sabá. Em Cuba foi a mesma coisa: os negros chegaram e se cultuou a Lukumi, que é o Ifá, que vem da África e permaneceu lá. Em Cuba também é quilombo. Em todo o mundo existe o quilombo. Nos Estados Unidos, em vários lugares, você vê espaços onde a cultura preta se mantém viva. Às vezes muda o nome, muda a forma de falar, mas é quilombo. A cultura preta nunca vai sumir, ela está no mundo inteiro”, afirmou.

Ao comentar a tradição da Tuiuti em levar para a avenida enredos que falam de negritude, o percussionista destacou a importância pedagógica e emocional dessas narrativas.

“É muito bom a gente poder falar de nós, trazer conhecimento, porque muita gente não tem. A Tuiuti faz isso muito bem. Quando o samba desse ano saiu, muita gente criticou, mas quando traduziram o que ele dizia, as pessoas choraram, se emocionaram e entenderam a mensagem”, comentou.

Ligado diretamente à ancestralidade por meio dos tambores, Douglas explicou que desfilar em um enredo afro provoca uma sensação única.

“Não é à toa que eu estou aqui com os tambores. Eles carregam a minha descendência, a minha cor. Quando o enredo fala de negritude, é totalmente diferente. Eu sei que estou no lugar certo”, concluiu.

Pela primeira vez vestindo as cores da escola, a estrategista de marketing Luciana Dias Domingues, de 41 anos, ressaltou que a Tuiuti se diferencia por manter a negritude não apenas como discurso, mas como prática cotidiana dentro da agremiação.

image2

“É uma escola onde a gente observa um número muito grande de componentes pretos. Isso aparece na bateria, nos tambores, na forma como a escola se organiza. Existe respeito e cultivo à cultura e aos nossos ancestrais. Outro ponto importante é a representatividade preta em destaque na escola. A Mayara é um grande exemplo desse processo. Uma menina preta, da comunidade, que está ali se destacando de forma brilhante. Isso diz muito sobre a escola e sobre o que ela defende”, afirmou.

Para ela, a insistência da Tuiuti em exaltar a negritude nos enredos é fundamental para a preservação da cultura preta dentro do carnaval.

“O carnaval é uma cultura preta. Não que pessoas brancas não possam estar nele, mas ele nasce da nossa cultura. Então nada mais justo que pessoas pretas ocupem esses lugares de poder. Isso serve de referência para as novas gerações e mantém essa cultura viva”, comentou.

Ao falar sobre a experiência de desfilar em um enredo afro, Luciana foi direta ao descrever o impacto emocional.

“É tudo. É o que dá axé, dá molho, dá swing. A batida da bateria dentro de um enredo preto faz o coração vibrar. Como mulher preta retinta e mãe de um menino preto, isso é preservação da nossa cultura”, concluiu.

Professor e desfilante pelo segundo ano consecutivo, Jorge Cardoso Paulino, de 36 anos, acompanha a Tuiuti como torcedor desde 2018 e associa o slogan da escola às escolhas artísticas e políticas feitas nos últimos carnavais.

image3

“Eu reafirmo esse slogan principalmente pelos enredos que a escola vem trazendo. Pela presença do Pixulé, um cara preto, com uma voz gigante puxando o samba, e pela nossa rainha de bateria, que é uma menina preta da comunidade. Eu só queria ver mais gente preta nas harmonias, botando ordem. Muitas vezes são pessoas brancas gritando com a gente para organizar, e isso não é muito legal. Ainda assim, eu confirmo: a Tuiuti é o quilombo do samba”, comentou.

Para ele, o carnaval cumpre um papel educativo essencial.

“O carnaval é pedagógico. Ele ensina a comunidade e a sociedade por meio dos sambas e dos enredos. A Tuiuti dá visibilidade a personagens negros que muitas vezes não são lembrados e não fica só na narrativa da escravidão, mas também fala de resistência e de glória”, destacou.

Ao comentar a sensação de desfilar em um enredo preto, Jorge reforçou a identificação com a escola.

“Quando o samba fala de resistência, o canto sai com muito mais força. A gente sente o que está cantando. A parte do ‘Canta Tuiuti’ vem da alma. Arrepia de verdade”, concluiu.

Também professor e estreante na Paraíso do Tuiuti, Leonardo Avelar, de 37 anos, afirmou que o slogan “O Quilombo do Samba” traduz com precisão a identidade que a escola vem construindo.

image4

“A Tuiuti é uma escola que acolhe e defende temas ligados à identidade preta e à ancestralidade. Esse slogan conversa diretamente com o que ela vem construindo como identidade para o seu carnaval. A gente precisa reafirmar a potência do povo preto. Não é só uma história marcada por dor e tristeza, mas também por luta, resistência e muita glória que precisa ser contada”, comentou.

Ao comparar a experiência de desfilar em enredos distintos, ele destacou o sentimento de pertencimento proporcionado por temas afrocentrados.

“Quando o enredo é preto, a identificação é outra. A gente se sente pertencente à história que está sendo contada e cantada na avenida”, concluiu.