O Império Serrano levou para a Marquês de Sapucaí uma forte mensagem no Carnaval de 2026. O desfile que homenageou a escritora Conceição Evaristo, símbolo da resistência negra, que por muitas vezes usou suas obras como forma de protesto, trouxe a ala “Protesto na Avenida – O Alvo no Peito” como forma de denunciar a brutalidade policial contra o povo periférico do Rio de Janeiro.

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Detalhes do guarda chuva
Detalhes do guarda-chuva
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Os componentes cruzaram a avenida vestidos de Erês e carregavam alvos estampados no peito, além de guarda-chuvas pingando sangue, erguidos como símbolo de denúncia. Inspirada na estética urbana de Jean-Michel Basquiat. Segundo a escola, a fantasia fez referência aos absurdos cometidos pela violência da cidade, onde objetos cotidianos como uma simples sombrinha já foram confundidos com armas, e a cor da pele que, muitas vezes, determina quem é visto como suspeito. A mensagem que a agremiação quis passar foi clara: “A bala não erra o alvo”.

Andre Pree de 31 anos
André Pree, de 31 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Morador de Oswaldo Cruz, o vendedor André Pree, de 31 anos, explicou o simbolismo do guarda-chuva. O adreço trazia a frase “isso aqui não é um fuzil”.

“Estamos trazendo a realidade do dia a dia do Rio de Janeiro. O que se passa na comunidade e, literalmente, com o trabalhador, que sai de casa sem saber se volta. O guarda-chuva que levamos em um dia chuvoso, por exemplo, pode ser um alvo, simplesmente por estarmos o segurando e acharem que é um fuzil. A galera da periferia está sempre mais vulnerável a ser o alvo por qualquer coisa mínima, inclusive a cor da pele. Estamos mostrando justamente como é que funciona no dia a dia da comunidade, da galera que o pessoal de cima não vê”, desabafa o componente.

Questionado se o sentimento de indignação fortalece a evolução na Avenida, ele afirmou sem hesitar: “Garra nesse ponto a gente sempre tem. O Império é uma comunidade que tem chão. Mas, obviamente, isso nos faz vir para mostrar como é que funciona. Como Conceição Evaristo diz, ‘a gente combinou de não morrer’”.

Micael Nascimendo de 32 anos
Micael Nascimendo, de 32 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Professor de desenho, Micael Nascimendo, de 32 anos, morador da Penha, falou sobre o impacto de vestir uma fantasia tão simbólica: “É bem sentimental, ainda mais porque, recentemente, teve uma operação, e centenas de pessoas morreram. Ação que, ao meu ver, é mais uma manobra política do que uma tentativa de resolver alguma coisa. Por isso, eu acredito que a escola trazer esse tema é sempre muito importante. E quanto mais as pessoas verem e comentarem sobre isso, melhor”, refletiu.

A referência artística de Basquiat também foi destacada pelo professor: “A arte tem todo um ambiente político também. Quando avaliamos uma arte, também é importante saber o contexto por trás dela”.

Já a professora Rosane Borges, de 41 anos, reforçou o caráter de denúncia do desfile: “O carnaval, além de ser festa, também é uma manifestação de denúncia. Estamos aqui para denunciar essa violência que o povo preto de comunidade sofre. E esse enredo, além de falar das mulheres, fala sobre a violência que o povo preto sofre e que a literatura está aí para denunciar”.

A nutricionista Luziane Ferreira, 39 anos, destacou o papel pedagógico da festa: “O carnaval é cultura, e uma forma de educar a população sobre temas importantes”.