Última escola a entrar na avenida no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral levou à Marquês de Sapucaí a ala 18, “Brasil Devorador”, tradicional ala de amigos da escola e responsável pelo fechamento conceitual do enredo.
A ala materializou a ideia central de que o olhar colonial transformou o Brasil em “monstro” para justificar invasões e violências, e o país respondeu devorando culturas, misturando referências e criando algo novo. O figurino traz uma bandeira do Brasil estilizada com a frase “O que nos faz Brasil é nossa alma devoradora”. Aqui, o “monstro” deixa de ser ameaça e vira potência criativa.
O carnavalesco Vitor Vasale, do Espírito Santo, acompanhou o amigo Giovanni Lima, professor universitário de Uberlândia, que estava pela primeira vez no Rio. Vitor comentou o que, para ele, diferencia o Brasil quando o assunto é cultura popular.

 

 

Vitor e Geovane Acari
Vitor e Geovane. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Eu acho que o caldeirão cultural que o Brasil é contribui muito para essa característica nossa. Então, assim, essa mistura de povos que se dá por esse processo de colonização e que se reinventa e se ressignifica o tempo todo contribui para a gente ser essa nação tão diferente”.
“E tem uma perspectiva antropofágica. Porque chega o processo de colonização bastante violento com quem está aqui, mas também introduz pessoas a partir de processos de violência pela escravização. E aí essas pessoas, a partir dos seus próprios repertórios e também resgatando aquilo que a própria terra dá, criam uma noção de território que é muito bonito e talvez seja uma das mais bonitas do mundo, sabe? Um povo que acolhe a diferença. A gente vive um monte de tensões e de polarizações, mas acho que, em suma, a gente acolhe. Acolhe a diferença”, completou Geovane.
Vitor ainda ressaltou o papel do carnaval nesse processo.
“Eu acho que o Rio de Janeiro e a própria escola de samba e o desfile de escola de samba são uma aula sobre isso, do quanto que a negritude conseguiu fazer, através da resistência, essas marcas de um povo. O carnaval hoje é a vitrine cultural do Brasil, e nada mais nada menos é a marca de um povo”.
Geovane ampliou a leitura para além da negritude: “E a Vigário Geral não está falando nem só da negritude. Ela fala dos indígenas, dos povos originários, e pensar como isso se construiu. E é uma revisão, não é nem uma visão. E estamos felizes que é revisão. Eu acho que a gente está contando a história, porque no processo de colonização a gente importou muitas histórias que não eram nossas, e o carnaval conta o que é nosso. Tem uma noção de revisão histórica muito interessante”.
Sobre a frase “O que nos faz Brasil é a nossa alma devoradora”, ambos concordaram que ela faz senrtido: “Com certeza. Totalmente”.
“Eu acho esse ‘devorador’ uma proposição metodológica, porque o processo dos 1500 imputa pra gente tudo que não é nosso e a gente mastiga isso e, a partir dessa mastigação, devolve e cria esse caldeirão de culturas que o Vitor disse. Então a gente primeiro come, e o que come vira o que a gente está mostrando, o que faz todo sentido o Brasil devorador. Os povos afro que chegaram ao Brasil já tinham isso na cultura deles, na África. Quando você conquistava por meio da guerra ou pelo que fosse, tinha essa característica de você se apropriar também daquilo que você não eliminava, você agregava à sua cultura. E foi muito isso que aconteceu no Brasil. Agregou e fez disso outra coisa gigantesca, brilhante e maior. E o carnaval, como arte contemporânea mesmo, no sentido do pensamento elaborado, é pegar esse processo de violência e dizer: ‘toma aqui, lidem com isso’, aprofundou Geovane.
A nutricionista Gabriela Flauzido, 32 anos, também se reconheceu na proposta do enredo.
Gabriela
Gabriela Flauzido. Foto: CARNAVALESCO
“É sobre como o de fora vê a gente realmente como monstros ou coisas muito diferentes. Assim, o que é diferente é tratado como ruim. Precisamos reinventar essa ideia pra poder mostrar que, às vezes, o que é visto como ruim, na verdade, é o que faz a gente ser o que a gente é”.
Para ela, o carnaval é o maior retrato dessa transformação: “O carnaval representa muita coisa sobre o retrato do Brasil. Não é só a dor, mas tudo. O espelho do Brasil é o que a gente representa nessa festa. A forma como conseguimos fazer com que toda a dor, a desigualdade, as coisas que podem parecer ruins, realmente reinventamos e colocamos isso na festa. É tanta coisa, por exemplo, as escolas que falam sobre os indígenas, sobre toda a nossa história, que é um passado triste, que a gente reinventa numa festa que é alegria”.
A designer de moda e moradora do Maracanã, Hannah Vaz, 35 anos, enxergou essa “alma devoradora” em diversos aspectos da nossa cultura.
Hannah Vaz
Hannah Vaz. Fotos: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Tudo que cai na mão do brasileiro a gente reinventa. Eu trabalho com gastronomia, a gente vê isso, por exemplo, com comida. A gente frita sushi. No Brasil, para tudo a gente dá o nosso jeitinho, dá a nossa cara e fica ainda melhor”.
Sobre o que diferencia o Brasil no campo popular, ela analisou: “Eu acho que a gente conseguiu fazer uma união, apesar de colônia. Viemos puxando um pouquinho de lá, um pouquinho de cá, e a gente conseguiu transformar em algo realmente nosso, não uma cópia de outras coisas. Conseguimos ressignificar todas as culturas que vieram pra gente. E agora a gente tem algo que é genuinamente brasileiro. No momento atual é mais do que essencial a gente mostrar o quanto que a gente tem orgulho de ser brasileiro, né? Porque tantas coisas a gente tem visto aí que têm acontecido e têm dado uma manchada no nosso nome, mas a gente não pode deixar a peteca cair, não. Aqui é Brasil, como diz muito por aí, aqui é Brasil”.
O professor e parceiro criativo do carnavalesco Caio Cidrini, Guilherme Chalo, de 33 anos, participou da escrita da sinopse do enredo e se sente diretamente representado por ele.
“Foi bem interessante esse processo de repensar o país através dessa ideia do monstro, essa ideia de alguma coisa que a gente não conhece, mas é fundamental para a nossa formação e para a nossa história. Acho que o enredo e o desfile vão representar bastante essa ideia de repensar através dessas estranhezas, dessas coisas que alguns não conseguem entender, compreender, se conectar. O enredo ai trazer essa geografia de forma bem interessante. A cultura popular tem essa dimensão de mistura, mas tem essa dimensão também de reinvenção do nosso povo através disso que o enredo fala, disso que o enredo se propõe a refletir e pensar através da mistura. O samba fala de uma espécie de miscigenação com a coroa, o cocar e a pele preta. Acho que a cultura popular tem um pouco disso. Ela é uma espécie de síntese violenta, difusa, estranha, mas super fundamental pra gente pensar esse Brasil popular, com gente que se critica, que se pensa, que se faz pensar. A escola de samba tem esse papel também, isso é importante”, ele analisou de forma minuciosa.
Guilherme Chal
Guilherme Chalo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Na Sapucaí, a Ala 18 encerra o desfile com a bandeira erguida no peito e uma afirmação: o Brasil que foi chamado de “monstro” é, na verdade, criador.