
Após um ano no Grupo de Acesso I, a Acadêmicos do Tucuruvi retorna ao Especial em 2027 com um enredo e um samba marcantes: “Ogbódirin, Ògbóni”, assinado pelo carnavalesco Nicolas Gonçalves. A faixa, gravada no dia 26 de setembro, na Fábrica do Samba, teve presença marcante do coral da agremiação e arranjo que privilegiou o tom misterioso que a obra possui. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO conversou com nomes importantes ligados à faixa da escola da Zona Norte de São Paulo sobre a gravação do audiovisual da Liga-SP.
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Arranjo enigmático
Na visão de Ricardo Rigolon, popularmente conhecido como Chanel, arranjador da obra da Acadêmicos do Tucuruvi em 2027, a faixa teve um desafio extra na produção: uma caractrística pouco comum da obra. “Esse samba tem uma ideia de mistério: não é uma coisa nem alegre nem triste, é uma coisa meio diferente. Até para fazer o arranjo a gente trocou ideias com o Hudson e com o Serginho a respeito, todos estavam sugerindo algumas coisas de entrada, de abertura. Dá para você fazer um Ijexá para deixar a entrada do samba mais valente e mais alegre, embora não seja isso. No refrão do meio mesmo dá para fazer a mesma coisa em relação ao Ijexá para brincar mais, com a escola balançando, mas não é isso. A gente veio com um arranjo mais misterioso, mas não triste. Você pode ver que o começo já é um negócio com uma magia diferente. A comunidade gostou, a rapaziada gostou, e é isso que vale”, comentou.

O diálogo com outros nomes importantes da agremiação também foi citado na fala do arranjador: “Eu tentei usar alguns acordes para trazer algumas coisas de tensão para o arranjo, também. Até isso influenciou na parte harmônica. Eu faço a harmonização, vou lá e mostro para o Hudson, vou ver se está legal e confortável para todos. Harmonia é gosto, tem várias possibilidades. Eu fui jogando algumas coisas, mudei alguns caminhos, reharmonizei o samba do Daniel Tubino, meu parceiro, bom para caramba. Vai ser um samba que vai render bastante na avenida. Eu estava falando hoje com a rapaziada: ele tem muita coisa de elemento para você trabalhar, de resposta, de contraponto, de pensar na orquestração. Dá para distribuir bastante. A gente já tentou fazer hoje perguntas de cavaco e resposta de violão junto com a bateria. Eu venho escrevendo tudo, até a bossa. Já toco olhando o que está acontecendo e fazendo divisões, assim como acontece na bateria: ora surdo, ora caixa, ora violão, ora cavaco, algumas vezes alguns juntos”, pontuou, destacando um dos compositores da canção, juntamente com Thiago Meiners, Thiago Morganti, Cláudio Mattos, Sukata, Wilson Mineiro, André Valencio, André Aranha, Serjão Português, Thiago Piccirillo, Ítalo Pires e Rafael Tubino.
O profissional também pontuou alguns instrumentos que tiveram forte presença na gravação: “De introdução, acabou sobrando mais para o cavaquinho aparecer. Normalmente eu faço solos com bandolim; mas, como a gente não tinha esse instrumento nesse ano, eu mesmo que fui para o solo. Eu gosto de solar, também. Eu que fiz a introdução e algumas coisinhas mais rápidas. No final da introdução e nos contrapontos de resposta da bateria, vem o violão solando junto comigo”, afirmou.
Coletivo em cena
Presidente da escola, Rodrigo Delduque destacou o espírito de união da escola comandada por ele na gravação: “O que me chama muita atenção no Tucuruvi nesses últimos tempos e carnavais é a construção em grupo, da escola como um todo. Estamos todos, incansavelmente, trabalhando juntos, independentemente do setor, para que a escola tenha essa força. Tem dado muito certo tudo isso que estamos pregando na quadra, eles retribuíram com muita força na gravação. Somos de luta, samba e carnaval!”, disse.
O clima de união gerou uma faixa com coral muito forte, algo que foi destacado pelo mandatário: “A energia da gravação do Tucuruvi é a mesma energia com que estamos ensaiando e se dedicando. Confesso que fiquei surpreso com esse desempenho, não nego. Foi uma ótima pitada do que vem por parte do Tucuruvi para 2026”, comentou.
Trabalhando e caminhando
Ao ser perguntado se a escola já estava pronta, Ricardo Fervorini, diretor de Harmonia da Acadêmicos do Tucuruvi, destacou que a agremiação está focada: “Nós estamos trabalhando. Já começamos os ensaios e, para isso, primeiro fizemos uma leitura do samba-enredo para a comunidade, explicamos as palavras em iorubá e como cantamos em português, fazemos um trabalho toda terça-feira só com as alas… estamos bem, estamos caminhando. Prontos nós só estamos no dia do desfile, é a nossa segurança”, comentou.

Como parte do trabalho, Fervorini destacou a assimilação da comunidade da escola em relação às palavras em outro idioma, nativamente africano, presentes no samba-enredo do Tucuruvi para 2027: “Eu chego depois do desfile de ‘Ifá’, mas, acompanhando depois a escola e vendo todo o processo de ‘Assojaba’ e de ‘Anti-Herói Brasil’, no qual tínhamos algumas palavras em iorubá, a escola gosta do desafio de chegar e entregar. Hoje eu fico até arrepiado de ver que a comunidade gosta do desafio: quando recebemos os sambas, fizemos reuniões com as lideranças e com a comunidade, mostramos passo a passo com todo mundo acompanhando a explanação do enredo. Depois, a maioria apontou o samba que queria – que foi o vencedor. O trabalho acaba ficando mais fácil para nós por conta de toda essa dinâmica. Você vai para o estúdio, muda a melodia e mais alguns detalhes, mas o pessoal entregou tudo muito bem, de novo. Parabéns à comunidade”, comemorou.
Por conta da distância considerável entre o bairro da Zona Norte e a Barra Funda, local em que fica a Fábrica do Samba, a escola apostou em uma logística individual para a chegada dos componentes para a gravação: “Hoje nós fizemos um pouco diferente: nós pedimos para que a comunidade viesse para a Fábrica do Samba e eles vieram. Marcamos no barracão, o pessoal veio com calma, já que no ano passado nós não estávamos aqui e tivemos que concentrar na quadra para vir para cá. Hoje, fizemos nossa concentração aqui, iniciada uma hora e meia antes do começo da gravação, cada um veio do seu jeitinho, a maioria vinda de carro ou por aplicativo. O Tucuruvi não é próximo da Barra Funda, mas a nossa comunidade gosta de sair: quando falamos que vamos em algum evento ou em alguma coirmã, disponibilizamos alguns ônibus e eles costumam ir por conta própria. E vai todo mundo!”, exclamou.
Para mexer com o público
Sérgio Cândido, popularmente conhecido como Serginho, mestre da “Bateria do Zaca”, contou como foi o trabalho dos ritmistas na gravação da faixa e o que virá para frente: “Hoje a gente fez só a introdução e fez uma bossa só, a questão é que a bossa é grande, mesmo. Em relação aos batimentos por motivo, estava bom hoje: o samba pediu para dar uma esquentadinha e a gente vai dar uma esquentadinha. Foi entre 142 e 143, não passou disso. Cada samba é um samba, cada ano é um ano, cada história é uma história, não tem como. A gente estava conversando isso na quadra, quando a gente está ensaiando, mesmo sem o canto e o caramba, a gente já vê que a bateria responde diferente. Logo vamos entrar com um arranjo novo, no refrão do meio; depois tem mais um, o paradão para encerrar. Nesse ano, a gente vai vir com três arranjos diferentes”, afirmou.

Preparação cotidiana
Intérprete do Tucuruvi, Hudson Luiz comentou com a reportagem que o trabalho de voz feito por ele é realizado de qualquer maneira: “Eu tenho um ritual que é diário. Independentemente de gravação ou não, eu faço os meus exercícios, tento ter uma alimentação mais saudável. Nem sempre a gente consegue, ainda mais eu que moro no Rio de Janeiro, às vezes se pega a estrada, precisa comer um lanche ou uma coisa na rua. Nas minhas últimas 24 horas eu trabalhei, acabei dormindo um pouco mais tarde por estar em casa com a família e tal. Vim no ônibus, tentei descansar um pouquinho e fiz exercício vocal. Cheguei aqui, fiz um pouco mais de exercício vocal para aquecer a voz e fazer com que essa gravação fosse a melhor possível para que a escola pudesse ter, de fato, a melhor gravação possível. Esse samba é maravilhoso, já ajudou muito. Para mim, as últimas 24 horas foram de estudo e ansiedade para que esse momento chegasse”, finalizou.











