pinna salgueiro
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Quase não há registros em vídeo do desfile de 1963, em que o Salgueiro conquistou seu segundo título com Xica da Silva. Para fazer a releitura daquele carnaval em 2027, o coreógrafo Paulo Pinna, responsável pela comissão de frente da escola, aposta na memória de quem viveu a “Revolução Salgueirense” e ainda circula pela quadra da Silva Teles: baluartes, velha-guarda e diretoria.

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“A gente não tem muitas imagens para se inspirar. Mas sempre vale pesquisar não só as imagens, que são poucas, mas histórias, relatos de quem viveu aquela época e está aqui na escola”, disse.

O método não é novo para ele. Na preparação para o desfile de 2026, dedicado a Rosa Magalhães, Pinna conta ter buscado contato com profissionais que trabalharam com a carnavalesca e que, depois, passaram a trabalhar também com a escola.

“A energia conta muito, e ajudou muito no carnaval da Rosa. É tentar buscar essa energia do carnaval de 1963, que é o carnaval campeão, histórico, e trazer para o nosso de 2027”, afirmou.

Legitimidade em disputa

O resultado de 2026, com a nota máxima no quesito, marcou uma virada para o coreógrafo, que chega ao terceiro ano no Salgueiro. Pinna não esconde que o caminho até ali foi de desconfiança. Segundo ele, coreógrafos com trajetória recente no Grupo Especial ainda enfrentam uma cobrança extra por validação em um segmento dominado por nomes com décadas de carreira e coleções de prêmios.

“É muito trabalho, muita correria, muita luta. E muita negação, muita dúvida sobre o nosso trabalho. Não só o meu, mas o de outros coreógrafos que ainda têm uma trajetória recente no Especial”, disse.

Pinna se inclui numa geração de profissionais que, embora tenham anos de trabalho no carnaval, estão sendo vistos mais recentemente. Cita, entre outros, coreógrafos como Lucas Maciel, da Mangueira, e Marlon Cruz, do Tuiuti, e defende que a renovação não se limita às comissões de frente, alcançando também os casais de mestre-sala e porta-bandeira.

“O carnaval é movimento. A gente precisa oxigenar todos os segmentos. Os renomados aprendem com a gente, a gente aprende com eles, e quem ganha é o espetáculo”.

Questionado se a repercussão de 2026, elogiada por jurados, público e crítica, reduziu a resistência ao seu trabalho, o coreógrafo é cauteloso. Diz não saber se ela diminuiu, já que a expectativa sobre todas as comissões cresce a cada ano. Mas reconhece uma mudança na relação com a torcida.

“O trabalho de 2026 trouxe tranquilidade até para torcedores que pudessem ter dúvida da nossa trajetória. Acho que as pessoas estão mais conectadas comigo agora. É isso que importa”.

Sarrafo alto

A cobrança, ele admite, também vem de dentro. Pinna diz manter o próprio nível de exigência “sempre lá em cima”, o que às vezes o coloca numa “sinuca de bico” diante de um carnaval em que tudo parece já ter sido feito. Para 2027, porém, ele resume em três palavras o que não pode faltar na pré-temporada.

“Respeito ao carnaval de 1963, que é histórico. A gente tem a responsabilidade de reconstruir essa história. E não pode faltar emoção e identificação”.