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Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A 20ª edição do Desenrolando a Serpentina começou com a mesa “Carnaval de Rua no Brasil: os desafios durante novas realidades”, mediada por Rita Fernandes, presidente da Sebastiana. O debate reuniu Leandro Oliveira, subsecretário de Difusão e Diversidade Cultural do Distrito Federal; Danielle Rossi, diretora de eventos da BeloTur; Flavio Teixeira, da Riotur; Danielle Barros, secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro; e o apresentador Milton Cunha. Entre os temas discutidos, a organização dos desfiles, a infraestrutura urbana e o uso da tecnologia apareceram como caminhos para acompanhar o crescimento da festa sem comprometer o funcionamento das cidades.

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“Seis milhões de foliões preferem sair de suas casas e ir à manifestação do Carnaval. Em uma cidade de 12 milhões de pessoas, metade da população quer botar o bloco na rua. Outros seis milhões não querem, mas isso não pode impedir a vida da cidade”, declarou Milton Cunha.

A fala colocou em evidência um dos principais desafios da gestão do carnaval de rua: conciliar o direito à folia com a rotina de quem não participa dela. Flavio Teixeira destacou que o planejamento precisa atender aos dois públicos.

“Trabalhamos para os seis milhões que querem e para os seis milhões que não querem ir para o Carnaval, para garantir o funcionamento da cidade”, afirmou.

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Em 2026, o carnaval carioca movimentou R$ 5,9 bilhões na economia, gerou R$ 240 milhões em ISS e R$ 47 milhões em outros impostos, segundo os números apresentados na mesa. Ao todo, oito milhões de pessoas passaram pelos 458 blocos espalhados pela cidade, além dos desfiles na Sapucaí e na Intendente Magalhães.

Para acompanhar a dimensão da festa, a organização dos blocos exige articulação entre os responsáveis pelos desfiles e os serviços públicos. A estrutura discutida para o Rio de Janeiro inclui uma liga exclusiva para o carnaval de rua, com dois despachantes, um assistente administrativo e um arquiteto para facilitar a comunicação com os organizadores. Também estão previstas mais ambulâncias, a utilização de drones para o registro e o controle do público e o reforço da infraestrutura de limpeza e segurança.

As medidas são resultado de debates públicos, simpósios e discussões na Câmara de Vereadores. Entre os objetivos está o chamado Caderno de Ganhos, voltado à legalização de mais blocos sem engessar a festa, além da ampliação dos serviços necessários à realização dos eventos.

Teixeira também anunciou ações de fomento à cultura dos bate-bolas, manifestação tradicional do subúrbio carioca. A iniciativa inclui investimentos, exposição, livro e um evento próprio de desfile, além do incentivo a 86 blocos independentes de bairros.

A secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, destacou a importância de ampliar as formas de financiamento e circulação da produção carnavalesca. O investimento estadual no carnaval passou de R$ 38 milhões, em 2021, para R$ 79,9 milhões, em 2026, considerando o conjunto de ações voltadas à festa no estado.

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Para 2027, estão previstos R$ 19,5 milhões em editais, com a expectativa de contemplar 500 projetos. A estratégia também busca levar a produção cultural do carnaval a outras áreas, para que o acesso aos recursos não fique restrito a iniciativas diretamente ligadas à Sapucaí ou aos blocos de rua.

Um dos exemplos apresentados por Barros foi o de um projeto contemplado por um edital de gastronomia que levará comidas típicas do carnaval a um festival. Outro é um livro sobre mulheres da Mangueira, viabilizado por meio de um edital de literatura. A proposta é ampliar a presença da cultura carnavalesca em diferentes espaços e alcançar públicos para além dos eventos tradicionais.

Na área de incentivo, a secretaria também atua com a Lei de Incentivo à Cultura, em parceria com a Prefeitura do Rio. Em 2026, foram destinados R$ 8,8 milhões a nove projetos. A política inclui ainda ações de mobilidade internacional, por meio de um edital que financia passagens para escolas de samba levarem o carnaval a outros países. O mecanismo permanece aberto durante o ano, permitindo que as agremiações solicitem apoio sem restrição de data. O Salgueiro, por exemplo, já esteve em Nova York e na Argentina por meio dessas iniciativas.

Carnaval pelo Brasil

Segundo Danielle Barros, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, os carnavais pelo Brasil seguem o vanguardismo do carnaval carioca, a exemplo das festas de Belo Horizonte, em Minas Gerais, e do Distrito Federal. Na mesa, essas experiências foram representadas por Danielle Rossi, diretora de eventos da BeloTur, e por Leandro Oliveira, subsecretário de Difusão e Diversidade Cultural do Distrito Federal. Ambos apresentaram o crescimento da festa em seus territórios.

No Distrito Federal, segundo Leandro, o fomento partiu do entendimento de que “o evento e profissionalizar a festa faziam bem para a cidade”, além da constatação de que Brasília, uma cidade jovem, é formada, em sua maioria, por uma população natural de outros estados, cujos habitantes costumam voltar para seus locais de origem durante o feriado de carnaval. Para isso, o fomento aumentou de R$ 6 milhões, em 2024, para R$ 10 milhões, em 2026, destinados a editais, segurança e medidas como o “Vai de Graça”, que garante transporte público gratuito durante a folia e recebeu dois milhões de usuários em 2026. Neste ano, 110 blocos tomaram as ruas, sendo 73 deles incentivados por recursos públicos por meio de editais que contemplam blocos de território e blocos em trio elétrico.

Em Minas Gerais, a festa conta com uma estrutura especializada para acompanhar seu crescimento ano após ano. Danielle contou que a BeloTur recebeu o cadastro de 620 blocos, dos quais 457 desfilaram. Desses, 120 receberam incentivos por meio de edital público, com R$ 3 milhões aplicados à festa. O edital contempla blocos divididos em três categorias, classificadas de acordo com o tempo de existência, a sustentabilidade, a relação com o território e a história, com comprovação de atividade ao longo do ano.

Em 2026, mais de seis milhões de foliões optaram por viver a folia nas ruas históricas de Belo Horizonte, entre eles cerca de 349 mil turistas. A festa movimentou R$ 1,4 bilhão na capital. Os números são resultado da organização: a prefeitura consolidou, junto à liga de blocos, um formato de subvenção por meio de reuniões individuais com cada bloco, em parceria com a BHTrans, responsável pelo transporte da cidade, e o Corpo de Bombeiros. O planejamento envolve público, itinerários, desfiles georreferenciados e uso de trios elétricos conforme a necessidade dos blocos. Além disso, Danielle anunciou que a Prefeitura de Belo Horizonte se tornou a primeira instituição municipal a ser beneficiada pela Lei Rouanet para o financiamento do carnaval.

Esperança para momentos desafiadores

A discussão sobre a organização do carnaval também foi atravessada pelas incertezas políticas e sociais. Durante a mesa, Milton Cunha relacionou os números econômicos da festa à capacidade de mobilização e resistência do setor. “Doze milhões de famílias se beneficiam dessas vendas. Esses números ajudam numa guerra – porque vem aí uma guerra – e esses números nos ajudam a enfrentar”, declarou.

Ao refletir sobre os desafios contemporâneos, o apresentador questionou como a cultura carnavalesca pode resistir ao avanço de forças conservadoras e religiosas sobre a vida pública, sobretudo quando tentam impor uma visão única de mundo.

Danielle Barros respondeu à reflexão a partir de sua fé e da defesa da diversidade. “Um texto da Bíblia diz que a boca fala do que o coração está cheio. A minha fé projeta para a inclusão. Toda fé que não inclui tem de ser questionada. Minha fé me projeta diversidade, pluralidade e inclusão”, afirmou.

A secretária também destacou a incerteza sobre o futuro e a necessidade de preservar referências que orientem a atuação cultural: “Nós vivemos em um tempo em que não sabemos o que vai ser. Existe incerteza, mas existem certezas que precisam ser norteadas pela nossa esperança”.