macaco branco mestre
Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Em viagens longas, quando passa horas dentro de um avião, Anderson Andrade do Nascimento costuma rolar a galeria de fotos do celular. Aparecem as avós Esmeralda e Célia, já falecidas, e vídeos dos filhos ainda pequenos. Aparece também um menino de 13 anos, recém-chegado à quadra da Vila Isabel, ao lado do mestre Mug. Foi a partir dessas imagens que o hoje mestre Macaco Branco abriu o bloco de notas do celular e começou a escrever “O compasso de uma História: a trajetória do Mestre Macaco Branco”, que chega ao público neste domingo, pela Rubi Editorial.

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“A memória afetiva faz um carinho na nossa alma”, disse ao falar sobre a escrita do livro.

A obra percorre o caminho do autor desde a chegada à escola, aos 13 anos, até a formação como mestre de bateria. Mas não se limita ao relato pessoal: Macaco Branco escreveu pensando em quem ainda está no começo da vida.

Para quem não sabe o que quer ser

A ideia ganhou forma nas palestras que ele passou a dar em escolas municipais. Quando perguntava aos adolescentes o que queriam ser, muitos não sabiam responder. Outros diziam ter um sonho, mas achavam impossível alcançá-lo. Por isso, cada capítulo termina com um ensinamento tirado daquela fase da vida do autor.

“Quero mostrar para eles que são pilotos do destino da vida deles. A oportunidade às vezes bate na nossa porta uma vez, e, quando bate, a gente tem que abraçar com unhas e dentes, sem passar por cima de ninguém”, afirmou.

O livro também é uma forma de agradecer a quem lhe abriu portas, a começar pelo mestre Mug, que ele chama de mentor.

“É o cara que me ensinou tudo o que eu sei”.

Do tamborim ao apito

O primeiro instrumento foi o tamborim. Com a confiança de Mug, o menino passou de ritmista a responsável pela ala de tamborins. Foi tocando na quadra da Vila que chamou a atenção da cantora Mart’nália, com quem toca há 22 anos. Em 2019, assumiu o comando da “Swingueira de Noel”, bateria da escola.

O apelido também está no livro. Numa bateria com mais de 300 ritmistas, os nomes se repetiam, e todo mundo ganhava um apelido. Aos 13 anos, Anderson tocava com pegada de adulto e dava conta sozinho do tamborim nos shows em que Mug levava 30 ritmistas. Cassiano, filho do mestre, resolveu batizá-lo.

“Ele falou: ‘A pegada dele não é de gorila, é de macaco. E ele é muito branco. Vamos botar Macaco Branco’. A galera começou a chamar e ficou”, contou.

Boletim na bateria

O discurso das palestras tem aplicação prática na quadra. Macaco Branco cobra dos jovens ritmistas o boletim escolar e acompanha a frequência deles nas aulas.

“Num mundo em que qualquer coisinha faz a molecada se desvirtuar, eu acabo sendo um pouco educador. Peço o boletim para ver se eles estão bem na escola, se estão andando com documento, no caminho certo. O nosso trabalho na Vila Isabel é um complemento da educação que eles recebem em casa”.

A família também ocupa espaço nas páginas. A companheira, Dandara Oliveira, é musa da comunidade há 30 anos. O filho Enzo Andrade é multi-instrumentista, ator e dançarino e já participa de espetáculos musicais. Gaelzinho da Vila, filho mais novo, é intérprete da escola mirim da Vila e mascote da escola-mãe.

“Quando você se torna pai, você se torna uma pessoa diferente. A gente aprende muito com os filhos”.

Próximas páginas

Para o mestre, liderar uma comunidade significa ser referência e aprender até com quem erra.

“Tem gente que te ensina o caminho certo, e tem gente que, errando, te ensina a não fazer aquilo. Tudo na vida é exemplo”.

Além da Vila Isabel, Macaco Branco atua como produtor, à frente do álbum da Série Ouro da Liga RJ. Hoje também faz shows com Martinho da Vila e Mart’nália e já tocou com Dudu Nobre, Pedro Luís, Monobloco e Hamilton de Holanda. Ele diz que ainda há muito a conquistar.

“Sou muito feliz com tudo o que tenho. Os próximos trabalhos vêm para complementar esse repertório e deixar um legado bom para a nossa comunidade”.