
Rendas trabalhadas, camisas de linho e uma variação de tons de azul, passando do royal ao lilás-claro e aos cinzas azulados, em um gradiente que remete às cores-símbolo do chão que o consagrou, ajudam a contar visualmente a história de Neguinho da Beija-Flor no musical dirigido por Luiz Antônio Pilar. Já em cena, os riscados, as tranças e a sincronia bem alinhada entre o grupo de atores também não são estranhos aos sambistas. A peça, que leva ao palco a trajetória de um dos maiores nomes do carnaval, é construída também por quem conhece a folia em essência, assim como Neguinho: Rute Alves, primeira porta-bandeira da União de Maricá, assina o figurino da peça, enquanto as coreografias e a direção de movimento são de Patrick Carvalho, coreógrafo da comissão de frente da caçula do Grupo Especial.
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Além dos figurinos detalhados, marcados por tecidos orgânicos, rendas variadas e texturas que ajudam a narrar visualmente a brasilidade da história do menino de Nova Iguaçu que ultrapassou as barreiras da Sapucaí, Rute também recorre às próprias imagens que marcaram a trajetória de Neguinho. A figurinista pesquisou fotografias, registros do acervo pessoal e imagens de diferentes momentos de sua carreira para recriar no palco roupas que fazem referência a passagens marcantes de sua trajetória. Entre elas estão a bata branca com aplicações brilhantes para o casamento realizado na Sapucaí, em 2009; o terno azul da participação no Roberto Carlos Especial, em 2008; e a bata branca que destaca o colar de búzios em cascata usado por Neguinho no desfile campeão de 2025, também recriada no espetáculo.
A pesquisa chega ainda à discografia. Em determinado momento do espetáculo, os atores aparecem com camisas inspiradas nas capas dos discos de Neguinho. A imagem amplia a narrativa para além da Beija-Flor e recupera o artista de carreira solo, cuja produção fonográfica ocupa uma parte importante de sua trajetória.
“Ele recolhe tudo, a vida pessoal dele, os desfiles dele, a discografia dele. No final do primeiro ato, os atores saem com a camisa, cada um de um disco dele. O Neguinho teve muitos, muitos discos. A gente não tem noção da história do Neguinho. Nem eu, que vivo o carnaval, 30 anos de avenida, não sabia tanto sobre a história dele. Quem vem ou quem pensa que vai vir só para ver os sambas e tal vai se surpreender muito, porque, que vida, que história que esse cara tem!”, destacou Rute.

A própria quantidade de trocas de roupa também exigiu soluções vindas da experiência teatral, mas adaptadas à movimentação do ator. Os figurinos receberam velcros, botões de pressão e outros mecanismos para agilizar as mudanças e evitar que a caracterização pesasse sobre Izak Da Hora, que interpreta Neguinho.
“Como você pode ver, são muitos figurinos, e muitos figurinos significam muitas trocas. Normalmente, os figurinos de teatro já têm muitos truques, de velcro, botões de pressão, entra aqui, sai ali. Esses tiveram que ter mais ainda para poder não sobrecarregar tanto Izak da Hora, que é o ator que faz o nosso Neguinho. Foi tudo pensado. Eu fui com muito estudo na vida dele, sobre ele, porque, quando eu faço figurinos de peças biográficas e que o personagem é encarnado, é vivo, eu gosto que ele se veja ali, eu gosto que ele se sinta. Foi assim no ‘Leci Brandão’: eu queria que ela se visse ali, que ela se enxergasse. Eu queria fazer uma coisa: ‘Nossa, mas eu nunca usaria isso’. E foi assim também com o Neguinho. Claro que tem a teatralidade, mas, acima de tudo, tem a personalidade do Neguinho em cada construção do figurino. E aí, o teatral, eu abusei mais em outras cenas. Eu abusei no ‘Menino do Pé do Chão’, em outros personagens…”, explicou.

A construção visual acompanha ainda o momento em que Neguinho alcança um dos maiores sucessos de sua carreira solo, “Domingo Vou ao Maracanã”. A paixão do intérprete pelo futebol também entra no figurino: a banda aparece vestida com referências aos principais clubes do Rio de Janeiro, entre eles Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, São Cristóvão e América.
Para Rute, a possibilidade de construir todas essas referências também carrega um significado pessoal. A porta-bandeira é formada em Moda e pós-graduada em História da Arte e já assinou o figurino de outros musicais, como “Pérola Negra do Samba” e “Leci Brandão – Na Palma da Mão”. Ela encontra no trabalho uma forma de aproximar sua experiência no carnaval da linguagem teatral.

“Ser figurinista também é um sonho realizado, assim como ser porta-bandeira. E eu posso agora contribuir para contar a história e ajudar a dar vida a um personagem que é nosso, do nosso carnaval. Primeiro, um homem preto, um irmão preto. Isso já tem um simbolismo, uma significância muito grande. Um rei do carnaval, um rei da nossa avenida. Eu criei umas faixas que vocês vão ver, que é ‘Neguinho, rei da avenida’. E é isso que ele realmente é. Uma pessoa cheia de vida, jovem, com um talento incontestável e que passou tantos anos, 50 carnavais, gente. Esse homem merece seriedade, esse homem merece esse enredo e ele merece esse musical. Ser escolhida para poder contribuir é de uma emoção, de uma honra e de uma gratidão muito grande”, afirmou.
Um bom alinhamento entre a montagem coreográfica e um tom teatral em suas comissões de frente já era marca do coreógrafo Patrick Carvalho. Com trajetória também na televisão, ele foi coreógrafo do quadro Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão, na TV Globo, e já coreografou outros musicais, além de seu espetáculo Som do Morro. Agora, em sua primeira experiência em um musical, traz seu bailado para os palcos e garante que é uma emoção diferente, especialmente por se tratar de Neguinho da Beija-Flor.

“É uma emoção diferente da Sapucaí. É palco, é luz ali. Na Sapucaí, você não tem certo onde vai ser. A gente tem que se virar ali. Mas é a mesma emoção. Eu estou muito feliz porque, na Sapucaí, a gente recebe muitos enredos, assim… E o meu enredo aqui era falar do meu herói em cena”, compartilhou.
O desafio de Patrick era levar para o palco a linguagem que conhece da Avenida sem perder a dimensão teatral do espetáculo. O pedido de Luiz Antônio Pilar foi claro: queria o carnaval dentro da montagem e uma comissão de frente capaz de carregar essa força para o teatro. Patrick mergulhou na pesquisa e trouxe Laila Diamante, sua assistente no carnaval, para a preparação. Ao ver o resultado, compara o trabalho ao que está acostumado a entregar na Avenida, com a mesma régua de excelência.

“Primeiro, é falar do Neguinho. Eu acho que é falar do que abriu as portas para a gente no carnaval. Eu sou um garoto que veio de projeto social de carnaval. Então, na verdade, o nosso sonho, quando a gente vem de um projeto social de carnaval, é ser o que esses super-heróis são para a gente. Ali, trabalhei com o Laíla. Fui chegando perto desses profissionais. Quando o Pilar, que eu me inspiro muito também, me ligou e falou: ‘Eu quero que a coreografia, que a direção de movimento desse espetáculo seja sua. Eu quero ver o carnaval lá dentro. Eu quero ver a comissão de frente lá dentro’, foi uma emoção muito grande. Eu estudei muito, trouxe a Laila Diamante para ser minha assistente, que é uma pessoa que é minha assistente já no carnaval. Eu estou muito feliz com o resultado. Parece que eu coloquei uma comissão de frente dentro da avenida, nota 10, gabaritada”, afirmou.









