
O que nasce no barracão agora ocupa as paredes e os salões do museu. Em cartaz no MAM-Rio desde o último dia 19 de setembro, a exposição “Carnaval como Método” propõe olhar para o processo criativo das escolas de samba. Com curadoria de Raquel Barreto, Pablo Lafuente e Phelipe Rezende, a mostra reúne obras inéditas encomendadas de seis carnavalescos em atividade: André Rodrigues, em colaboração com Juliana Joannou, Annik Salmon, Antônio Gonzaga, Gabriel Haddad e Leonardo Bora e Thayssa Menezes. Quem for ao museu encontrará ainda desenhos, croquis, figurinos e fotos de desfiles assinados pelos carnavalescos Joãosinho Trinta (1933-2011), Maria Augusta Rodrigues (1942-2025) e Rosa Magalhães (1947-2024), além de pinturas de nomes fundamentais da cultura carnavalesca, como Heitor dos Prazeres (1898-1966), Antônio Caetano (1900-1982) e Nelson Sargento (1924-2021).
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A exposição parte do reconhecimento dos carnavalescos como artistas visuais e busca inserir no circuito institucional das artes uma produção, embora fundamental para a cultura brasileira, ainda pouco presente nos espaços dos museus. Se um visitante entrar na exposição sem saber o que esperar, uma das primeiras coisas que irá notar é que nenhuma obra ali tem um único nome debaixo do título. É proposital. Para a curadora Raquel Barreto, a coletividade é uma das chaves de leitura de “Carnaval como Método”: uma arte feita por um exército de mãos que raramente aparece nos créditos.

“O método do carnaval está acontecendo aqui, agora, nesse momento”, resumiu. “Nessa exposição de carnaval, primeiro, nenhum trabalho é de uma pessoa só, é de uma grande coletividade que pensa e executa”.
Segundo ela, durante a própria montagem da mostra, a coletividade foi se impondo como modo de trabalho: “Enquanto um cortava madeira, outro pintava a parede, outro montava alguma coisa, tudo acontecendo ao mesmo tempo, num lugar aberto, com as pessoas passando e vendo a montagem da exposição”.
O paralelo com o barracão é direto. Assim como um carro alegórico ou uma fantasia passa por dezenas de mãos antes de entrar na avenida, cada obra exposta no MAM carrega uma ficha técnica extensa, quase sempre ausente das paredes tradicionais dos museus.

“Todas as obras têm um grupo de pessoas que as constrói. Isso fica muito explícito aqui”, explicou Raquel. “Isso contrasta com os processos das artes visuais às vezes: se você vai à exposição da coleção do museu, vê o nome do artista, o título da obra, e pronto. Você não tem informação sobre as pessoas que fizeram parte da construção”.
Além da ficha técnica, o público pode conhecer quem faz o carnaval por meio dos depoimentos reunidos na obra de André Rodrigues, criada em colaboração com Juliana Joannou. O trabalho remonta um ateliê de fantasias com quatro peças em branco que vão ganhar cores e adereços com a participação do público. Na tela ao fundo do ateliê montado no MAM, aderecistas contam, em primeira pessoa, como o trabalho de barracão se transforma em desfile.

“Quando a gente traz um ateliê para cá, a gente não está trazendo a realidade do ateliê; é até romântica a maneira como ele se coloca dentro do museu: uma mesa perfeita, um lugar limpo, climatizado. Isso não é a realidade da imensa maioria dos ateliês que fazem carnaval”, ponderou André Rodrigues. “É importante que, enquanto as pessoas participam, elas ouçam quem realmente faz; ouçam as trajetórias, pensem criticamente sobre o lugar do aderecista, sobre o lugar de quem está fazendo o carnaval acontecer”.
Do barracão para a galeria
Cada um dos seis carnavalescos convidados respondeu à encomenda do museu com o vocabulário que desenvolve na avenida. Annik Salmon, que assina o carnaval da São Clemente em 2027, apresenta a escultura de uma baiana na qual os visitantes poderão entrar debaixo das saias das matriarcas do samba.

Um convite, segundo ela, para “entrar nesse ventre das grandes mulheres, das grandes iabás, das grandes orixás do carnaval”. Já Antônio Gonzaga, carnavalesco da Grande Rio, apresenta a escultura dos Meninos Peixes, resultado de uma pesquisa pessoal do artista que, segundo os curadores, “ganha muito na escala” ao sair da avenida para o museu.

A dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora, à frente da Unidos de Vila Isabel, ocupa a mostra com um conjunto de quatro obras que dialogam diretamente com os nomes históricos da exposição. Em “Devir-Devorar”, os dois revisitam técnicas de empastelamento em desuso nos barracões para homenagear o traço de Rosa Magalhães. Uma escultura de isopor de uma onça alada ganha os desenhos de Rosa Magalhães, referência recorrente ao animal em seus desfiles.
“Orbis” recria em espiral a escada do MAM usando fibra de vidro cristal, material que expande a luz e remete à pesquisa de colorimetria de Maria Augusta Rodrigues.

“Não são obras em homenagem; não se trata de monumentalizar, mas de reinterpretar sistemas simbólicos que, de alguma forma, a gente absorveu e vem trabalhando ao longo da nossa trajetória”, resumiu a dupla.
Thayssa Menezes leva para o museu uma obra dedicada à memória de mestres e mestras que, segundo ela, “pavimentaram o caminho” do carnaval. Entre eles, Manuel Dionísio, tia Surica, tia Glorinha, Cartola, dona Neuma, dona Zica e o próprio tio da carnavalesca, o carnavalesco Shanghai, que assinou desfiles em comissão na Beija-Flor.

“Não dá para a gente construir nada sem lembrar de quem veio antes”, disse Thayssa, para quem a peça funciona como “um dispositivo de não esquecer, um dispositivo reparatório, de memória”.
Para o curador Pablo Lafuente, trazer essas produções para o MAM também obriga o museu a rever a própria forma de trabalhar.
“O ato de comissionar uma obra, de convidar um artista para fazer algo especificamente para um museu, que é o que a gente faz normalmente com outros artistas, eu não acho que tenha sido feito nunca nessa escala”, afirmou. Segundo ele, o convite partiu de uma provocação simples: “A gente pensou: vamos convidar os carnavalescos não para mostrar algo que foi feito para a avenida, mas para fazer algo feito para o museu”.

Phelipe Rezende, o terceiro nome da curadoria, coordenou a pesquisa que uniu os artistas contemporâneos aos nomes históricos e aos pintores populares reunidos na mostra.
“O tratamento que damos à Rosa, ao Joãosinho, à Maria Augusta e aos demais artistas que estão aqui apresentando suas obras, é o status de artista”, explicou. “Estamos mostrando que o carnaval é o tema que atravessa a trajetória de cada um deles, seja nas pinturas, nos documentos, nos desenhos, nos croquis ou nas obras tridimensionais. Eles estão no mesmo patamar, sem subcategorização, sem hierarquia”.

Linhagem na parede
A mostra também traça uma genealogia. Ao lado das obras inéditas, estão desenhos, croquis e figurinos de Joãosinho Trinta, Maria Augusta Rodrigues e Rosa Magalhães, nomes que ajudaram a consolidar a figura do carnavalesco como autor. Peças dos acervos de Valtemir Valle e Claudio Urbano Medeiros completam o núcleo.
O mezanino reúne figuras do samba que também pintavam: Antônio Caetano, Gisa Nogueira, Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Mestre Saul, Miguel Moura, Monsueto Menezes, Nelson Sargento e Raquel Trindade. O conjunto lembra que a relação entre carnaval e artes visuais não começou agora, apenas demorou a ser reconhecida pelas instituições.

“Ajuda a pensar o método do carnaval que envolve multidisciplinaridade”, disse Raquel Barreto sobre a seção. “Há algo no método do carnaval que implica multidisciplinaridade; pessoas que, especialmente antigamente, faziam muitas coisas ao mesmo tempo, estavam envolvidas em muitas frentes”.
Para Raquel Barreto, o que a exposição propõe é menos uma homenagem do que uma mudança de olhar. “Acho que é inclusive problemático, para o campo das artes visuais e para os curadores, não reconhecer internamente a importância histórica dos carnavalescos do passado e a relevância dos carnavalescos como artistas contemporâneos”, disse ela. Uma provocação que, segundo os três curadores, é o que fica depois que as luzes da exposição se apagarem em fevereiro de 2027.









