Por Júnior Azevedo e Mariana Santos
O Império Serrano definiu, após às 6h do último domingo, o samba-enredo que levará à Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027. A escola optou pela junção de obras, reunindo 16 compositores no hino oficial. Assinam a composição Aluísio Machado, Arlindinho, Chico Cesar, Carlos Senna, Hamilton Fofão, Tinga, Nilson Rangel, Jorginho da Flor, Lico Monteiro, Thiago Bahiano, PC Feital, Fred Camacho, Tomás Miranda, Fabian Juarez, Lucas Marques e Bruno Rodrigo Jacoppet. Em 2027, o Império Serrano levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “Seja marginal, seja herói: a revolução em sua legítima razão”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A proposta aborda a contracultura como forma de resistência à opressão durante a Ditadura Militar e estabelece diálogos com diferentes manifestações artísticas e culturais daquele período.
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Arlindinho destaca encontro de gerações
Arlindinho comemorou a conquista lembrando que 2027 marcará os 80 anos do Império Serrano e ressaltou a parceria com Fred Camacho e PC Feital, além da presença de compositores que trabalharam ao lado de seu pai, Arlindo Cruz.
“São 80 anos da minha escola. Quando eu comecei, tive a honra de estar com o Fred, com o Juan, com o meu professor Feital. Feital é o nosso pé-quente. Tem dois anos que a gente faz samba junto. Já tínhamos o da Niterói, que desfilou na avenida, tivemos esse agora do Império, tivemos o da Viradouro, que vai desfilar agora, próximo. Feital parece um pé de coelho, além de todo o talento e toda a genialidade. O Fred Camacho, meu parceiro de vida, parceiro do meu pai de vida, de samba-enredo do Império”, afirmou.

Fred Camacho também destacou o caráter simbólico da vitória, especialmente pela ligação com Arlindo Cruz. “Uma honra. Muita honra para mim. Nunca imaginei ganhar um samba junto e ainda nos 80 anos do Império Serrano, junto com parceiros do seu pai, nos 80 anos do Império Serrano, contigo. Eu só lembro do teu pai, a alegria que ele deve estar”, disse ao Arlindinho.
Arlindinho completou destacando a presença de parceiros históricos de seu pai na composição. “E ainda juntou com a parceria do Aluísio e do Carlinhos, que eram os parceiros dele. Eu queria juntar os parceiros dele e a ancestralidade diz muito sobre isso, a história diz muito sobre isso. Tenho certeza que ele vai estar muito feliz onde ele estiver, com os parceiros dele e o filho dele e outros parceiros dele, no mesmo samba, nos 80 anos da escola dele”, completou.
Questionado sobre seu trecho preferido, Arlindinho apontou um dos momentos que considera mais representativos da composição. “‘A luta me fez mais humano e o Império Serrano seguindo a canção’. Foi o refrão baixo, que se tornou o que era pré-refrão: ‘Ontem me pintaram de subversivo, hoje consagrado me mantenho vivo’. Eu acho que fala muito sobre a UNE, sobre os estudantes, sobre toda essa história e também sobre o glorioso Império”, destacou.
Tomás Miranda comemora primeira vitória
Tomás Miranda, que teve sua primeira vitória em uma disputa de samba-enredo do Império Serrano, classificou o resultado como a coroação do trabalho desenvolvido para o enredo.

“A primeira. Eu fiz igual à Mangueira, eu estreei ganhando. A coroação de um trabalho da escola, com esse enredo maravilhoso, um enredo imperiano. O Império tem essa tradição de fazer enredos políticos bem feitos, deixando uma marca no carnaval carioca. Na verdade, é um sentimento de agradecimento ao Império. Felicidade e honra para mim, hoje, ter um samba seu desfilando pelo Império Serrano, que tem uma das maiores alas de compositores da história do Carnaval”, afirmou.
O compositor também escolheu o trecho “Ontem me pintaram de subversivo” como sua parte preferida. “Pintaram a juventude que lutou contra a ditadura de subversiva e desordeira. E agora a gente vai consagrar essa juventude que lutou pela democracia brasileira”, destacou.
PC Feital se emociona com vitória
A conquista também teve forte peso emocional para PC Feital. O compositor lembrou sua relação com o Império Serrano e a vitória anterior com o Mangangá, em 2022.
“Por dois motivos. Um: o Império Serrano tem uma significância muito grande no meu coração. Em 2022, eu ganhei com o Mangangá e o Império subiu. Tenho certeza que o Império vai subir de novo. E eu venho dizendo que o carnaval vem sendo o principal responsável pelo resgate da cultura nacional. Ninguém poderia pensar, há 10, 15 anos atrás, que viria um enredo como veio do Império e como veio da Mocidade. São dois enredos que se aliam”, afirmou.

Feital também revelou a emoção de participar de uma obra que dialoga diretamente com um período que viveu. “E, para mim, foi muito emocional, porque eu vivi isso intensamente. Eu estive no mais fundo disso aí. O que eu posso dizer para você: eu estou feliz. Fiz 76 anos de idade, já chorei. Aqui é a festa. Salve o Império Serrano”, completou.
Ao ser questionado sobre sua parte preferida, Feital não conseguiu escolher um trecho específico. “Ah, todo, todo. Eu quero agradecer muito ao Império por tanta delicadeza sempre, tanta gentileza. E a parceria com a parceria, para mim, é o principal. É de caráter. É uma parceria leal, isso é o que importa”, destacou.
O compositor Jorginho da Flor também comemorou a conquista e ressaltou o envolvimento dos compositores durante todo o processo da disputa.
“É uma emoção tão grande que fica até difícil de colocar em palavras. Quem vive o dia a dia do carnaval sabe o quanto a gente se dedica, o quanto investe o coração e a alma para colocar um samba na disputa. Passamos por uma série de etapas e desafios pelo caminho, mas ver o trabalho reconhecido e dar tudo certo no final não tem preço. Conquistar esse título no Império Serrano me deixa feliz demais e com a sensação de dever cumprido!”, afirmou.

O compositor destacou ainda sua relação recente com a escola. “Essa é a minha segunda vitória recente por aqui. Tive a felicidade de vencer a disputa para o Carnaval de 2023 e agora dei essa sorte abençoada de ganhar de novo para o desfile de 2024. É uma honra enorme assinar o samba da escola mais uma vez”.
Sobre o trecho que mais o emociona, Jorginho apontou a homenagem ao “Reizinho de Madureira”. “O trecho que mais me toca é aquele que homenageia diretamente o nosso Reizinho de Madureira. Para quem é imperiano de verdade, essa parte mexe muito com o sentimento, porque retrata a nossa história e a nossa luta constante por essa escola tão maravilhosa. Quando o samba toca nesse ponto, a emoção toma conta do terreiro; por isso, agora é só comemorar essa felicidade, e vamos que vamos rumo à avenida”.
Como passaram os sambas na final

Parceria de Arlindinho: O samba da parceria foi cantado por Vitor Cunha, Wandinho, Wic Tavares e Rodrigo Tinoco. Apesar das boas referências a canções clássicas da MPB que se tornaram símbolos da luta contra a ditadura, atendendo ao mote da resistência cultural através da arte, os refrões perdem a oportunidade de ter o impacto que condiz com a forte intenção lírica e o necessário para levantar a comunidade. Além disso, a exibição não empolgou os presentes. A torcida pequena e tímida mal cantava o samba ou balançava as bandeiras alviverdes que empunhava e acabou passando sem brilho pela quadra.
Parceria de Aluísio Machado: A missão de esquentar a quadra foi cumprida pelo samba da parceria de Aluísio Machado, interpretado por Tinga. Com interessantes referências a canções de resistência e ao Cinema Novo, frutos artísticos dos movimentos de luta contra a Ditadura Militar, o samba atende ao mote do enredo de apresentar diferentes formas de resistência artística, além de fazê-lo de forma mais fluida e eficaz. Além disso, o samba tem seu auge nos versos “subversiva juventude imperiana”, do refrão principal, que passou muito bem pela quadra e carrega forte DNA imperiano. Além disso, o verso “SONHO NA MADRUGADA / TER MAIS LIVROS QUE FUZIL” traz uma interessante alusão ao enredo de 2026, ‘Ponciá Evaristo’, trazendo uma conexão e coerência nas narrativas que a escola vem trazendo, alinhadas à sua identidade. A torcida numerosa conseguiu contagiar os presentes, bem como os segmentos da escola.
Parceria de Marcio Oliveira: Encerrando a noite, a obra da parceria de Marcio Oliveira foi cantada por Marquinhos Art Samba. Trouxeram uma empolgada torcida animada, com uma coreografia elaborada, no estilo ‘comissão de frente’, com faixas, uniformes de escola pública do Rio de Janeiro e rostos pintados, como diz a canção. Entretanto, não foi o suficiente para espalhar o canto e fazê-lo render até o final da performance. A apresentação teve um rendimento decrescente, chegando ao final com todos os participantes, seja no palco ou no chão, que antes pulavam e dançavam, praticamente parados.









