
Tia Surica, uma das figuras mais importantes da história da Portela e do samba carioca, recebeu a Medalha de Reconhecimento Chiquinha Gonzaga, concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro a mulheres que se destacam em causas democráticas, humanitárias, artísticas e culturais. Aos 85 anos, a cantora e matriarca da azul e branca teve sua trajetória reconhecida por mais de oito décadas de ligação com a escola de Madureira e pela atuação na preservação da memória e da tradição do samba.
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A cerimônia foi realizada na própria casa da sambista, o tradicional Cafofo da Tia Surica, espaço que há décadas integra a história cultural de Madureira e do samba carioca. O encontro teve roda de samba e apresentação da bateria da Portela, reunindo música, memória e celebração em torno da trajetória da homenageada.
“Receber essa medalha é uma alegria muito grande. A Portela e o samba fazem parte da minha vida desde menina. Divido essa homenagem com as mulheres que vieram antes de mim, que cantaram, cuidaram das nossas escolas e abriram caminho para tanta gente. É uma história que a gente precisa continuar contando”, declarou Tia Surica.
Vida inteira dedicada à Portela
Nascida em Madureira, em 17 de novembro de 1940, Iranette Ferreira Barcellos começou a desfilar pela Portela aos quatro anos, acompanhada pela família. Desde a infância, construiu uma relação profunda com a escola e com a comunidade que ajudou a formar sua identidade artística e cultural.
Em 1966, Tia Surica foi uma das vozes que conduziram o samba-enredo “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Paulinho da Viola, apresentado pela Portela no desfile que terminou com o título da escola.
A partir de 1980, passou a integrar a Velha Guarda da Portela, grupo com o qual participou de shows e gravações e que se tornou uma das principais referências de preservação da memória musical da agremiação.
Ao longo das décadas, Tia Surica consolidou-se não apenas como intérprete, mas também como uma das grandes guardiãs da história do samba e da Portela.
Para o presidente da Portela, Júnior Escafura, a homenagem representa o reconhecimento de uma trajetória que se confunde com a própria história cultural do Rio de Janeiro.
“Tia Surica ajudou a construir a Portela que o mundo conhece. Ver essa trajetória reconhecida é motivo de orgulho para cada portelense e reforça a importância de valorizar as mulheres que sustentam a história do samba”, afirmou.
Cafofo da Tia Surica também é parte da história
A escolha do Cafofo da Tia Surica para a entrega da medalha deu um significado especial à homenagem. O espaço, conhecido pelos mais íntimos como Cafofo da Tia Surica, tornou-se ao longo dos anos um importante ponto de encontro da música e da cultura popular em Madureira.
A casa já recebeu grandes nomes da música brasileira e foi palco de encontros que ajudaram a manter viva a tradição do samba. Entre os artistas que passaram pelo local estão Teresa Cristina, Marisa Monte, Zeca Pagodinho e Clara Nunes, amiga íntima de Tia Surica.
Mais do que receber artistas consagrados, o Cafofo tornou-se um espaço de convivência, música e celebração do samba. Rodas e encontros realizados no local ajudaram a revelar e fortalecer talentos, transformando a casa em uma espécie de extensão da própria história de Tia Surica.
Por isso, receber a Medalha Chiquinha Gonzaga no Cafofo significou mais do que uma cerimônia. O reconhecimento aconteceu justamente no espaço que testemunhou parte da trajetória da artista e que também se tornou um dos lugares de preservação da memória do samba carioca.
Medalha valoriza protagonismo feminino
Criada em 1999, a Medalha de Reconhecimento Chiquinha Gonzaga leva o nome da compositora e maestrina brasileira, considerada uma referência do pioneirismo feminino na música brasileira.
A distinção concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro busca reconhecer mulheres que contribuem para a sociedade em diferentes áreas, incluindo as artes, a cultura, as causas humanitárias e a defesa de valores democráticos.
Ao receber a homenagem, Tia Surica passa a integrar uma lista de mulheres reconhecidas por suas contribuições à sociedade e à cultura carioca.
No caso da matriarca da Portela, a medalha também simboliza o reconhecimento de uma história construída dentro do samba, desde a infância em Madureira até a consolidação como uma das principais referências da Velha Guarda e da memória da Portela.
Aos 85 anos, Tia Surica segue como uma personagem fundamental para compreender a história do samba no Rio de Janeiro. Sua trajetória atravessa gerações, sambas, desfiles, rodas e encontros, mantendo viva uma memória que também pertence à Portela e a Madureira.









