
O show que fechou a apresentação da Imperatriz na quadra abriu no ritmo certo: a bateria “Swing da Leopoldina”, sob o comando de mestre Lolo, entrou com suas já conhecidas paradinhas e reservou um momento especial para uma paradinha de baque dedicada ao maracatu de baque virado, com direito a passistas em cena. Um início que já anunciava o tom de diálogo entre tradições que marcaria toda a apresentação.
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Na sequência, o casal de mestre-sala e porta-bandeira Bruna Santos e Matheus Miranda esbanjou uma dança vigorosa. Bruna, em especial, confirmou por que sua chegada é considerada uma das grandes contratações da Imperatriz para este ciclo: a porta-bandeira dançou com uma presença que já parece pertencer à história recente da escola.
O bloco seguinte resgatou a Velha Guarda com “Liberdade, Liberdade”, um dos grandes clássicos da discografia leopoldinense, seguido pelos sambas “Brasil de Todos os Deuses” e “Só Dá Lalá”. A quadra respondeu com o fervor de quem canta de cor.
Outro momento aclamado foi a entrada da musa Carmen Mondengo, muito ovacionada, que sinalizou a virada do show. Ao som do samba de 2022, último desfile de Rosa Magalhães como carnavalesca da Imperatriz, antes do retorno de Leandro Vieira em 2023, Mondengo mostrou domínio total do samba no pé, encerrando simbolicamente uma era. A das sagas rocambolescas de Rosa.

A partir dali, o show passou a percorrer a trajetória das sagas contadas por Leandro Vieira à frente da escola: Lampião (2023), Cigana (2024), Oxalá (2025). Uma forma, segundo o próprio carnavalesco já afirmou em coletiva, de reconectar a Imperatriz às narrativas rocambolescas que caracterizaram a era Rosa, só que à sua maneira. O efeito é o de um show que se amarra internamente, costurando fases distintas da escola num mesmo fio narrativo.
Segundo o diretor artístico Felipe Nascimento, a construção do espetáculo parte justamente dessa narrativa pensada por Leandro Vieira. “O show sempre é montado com uma história que o Leandro sempre conta e pede pra fazer. Então a história que a gente veio trazendo foi a antiga Imperatriz, a nova Imperatriz, o macumbão e todo o ritual com o maracatu. Enfim, a passagem da bandeira pra Dona Júlia, e vamos começar o novo carnaval de 2027”, explicou.
De Oxalá, a apresentação seguiu para uma sequência de samba de roda com saudação a Zé Pilintra, reforçando a trajetória do malandro que migra de Alagoas para o Rio de Janeiro e se torna uma das figuras mais populares da cidade.

O momento-chave do show, porém, veio em seguida: a retomada dos elementos apresentados na noite dos enredos, com a caixa escrita “frágil” e a boneca em seu interior. Ao som das cantigas de Exu, Xangô, Iansã e Nanã, os orixás dançaram em torno da boneca, promovendo seu reencantamento. Reencantada, ela seguiu em cortejo com a nação Leopoldinense.
Felipe Nascimento explicou que parte dos artistas que participaram desse momento foi contratada especialmente para o espetáculo, enquanto outros integrantes vieram diretamente da comunidade e do elenco da escola. “O pessoal dos orixás, que fizeram a noite do enredo e fizeram essa final, são bailarinos contratados. Mas o pessoal que fez o maracatu, toda a corte, todo mundo é da escola. O show que veio antes, são todos da escola”, afirmou.
Para o diretor artístico, a participação dos integrantes da própria Imperatriz também reforça a força artística existente na comunidade. “Como eu costumo dizer, desde quando eu cheguei aqui, o chão de Ramos é rico de talento. Tem muito talento, e eu só extraí, eu só moldei ali pra gente fazer esse grande show”, destacou.
O fechamento trouxe a imagem mais forte da noite: a entrega do pavilhão de 2027 de Ney Matogrosso, enredo de 2026, para a boneca Dona Júlia, num rito de passagem simbólico entre o carnaval de 2026 e o de 2027. O samba de Ney, muito celebrado pela quadra, encerrou a apresentação em clima de expectativa.
A construção do espetáculo também evidencia a importância das finais de samba como espaço de apresentação dos talentos da própria escola. Para Felipe, esses momentos permitem que profissionais e integrantes da comunidade tenham visibilidade antes mesmo da chegada do desfile.
“Essas finais dão oportunidade pras pessoas que são do chão da escola aparecerem, terem visibilidade. Ela dá oportunidade pra nós que estamos chegando agora mostrarmos nosso trabalho. E é cansativo demais pra gente, mas é prazeroso, é gostoso — porque depois é uma correria”, contou.
O diretor artístico ressalta ainda que a rotina das finais permite uma experiência que o próprio desfile, pela velocidade e pela dimensão da apresentação, nem sempre proporciona. “O carnaval, no desfile, passa em uma hora, uma hora e dez, e a gente não consegue curtir tanto quanto curtiu esses momentos. As finais são muito importantes pra mostrar os talentos, pra mostrar as pessoas que não têm visibilidade”, afirmou.
Felipe encerrou destacando o papel desse processo na revelação de novos talentos dentro da escola. “Eu costumo dizer que ela puxa muito antes, a gente começa muito cedo, mas é uma coisa que tá sendo primordial pra mostrar talentos”, concluiu.
O show da Imperatriz parece encenar a própria lógica de continuidade da escola: a construção de uma saga a partir de suas próprias sagas, a era Rosa dialogando com a era Leandro Vieira, o velho enredo entregando o pavilhão ao novo, a boneca que se reencanta como síntese de um processo que a escola vive, literalmente, em cena.









