
A Unidos de Santa Bárbara promoveu no último sábado uma noite cheia de novidades para sua comunidade. A festa de reinauguração da quadra, que passou por uma reforma, teve a participação da Dragões da Real, e foi o momento perfeito para a escola da Zona Leste colocar em sintonia com sua gente, os ineditismos do Carnaval 2027. O enredo e o samba já eram de conhecimento público há pelo menos três meses. “Laroyê Pombogira. Salve a Força da Mulher!” virou samba-enredo nas mãos dos compositores Jorginho Soares, Edivaldo Gonçalves e André Ricardo; e embora o samba já existisse, apenas neste dia ele ganhou vida, ao ser apresentado pelo primeira vez diante da comunidade.
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Presentes na festa, Jorginho Soares e Edivaldo Gonçalves contaram ao CARNAVALESCO sobre a construção e a responsabilidade de escreverem um samba impactante, religioso, feminino, atual e poderoso, ou melhor, poderosa como ‘a força da mulher’. Sobre a importância da centralidade feminina na escola e na escolha do enredo para 2027, Edivaldo Gonçalves comentou o sentido político da obra, que a partir da Pombogira, abrange a defesa de todas as mulheres.
“Nós vivemos um tempo obscuro. As mulheres sofrendo com uma onda de feminicídios, e vários outros preconceitos. Isso não é de hoje. Isso já acontece há muitos anos. E a importância de escrever isso, como homens, é abraçar essa causa, e fazer parte dessa união com as mulheres, porque o que está acontecendo não pode continuar”, posicionou.

Para Jorginho Soares, a ligação feminina que envolve a escola da Zona Leste paulistana é umbilical, transcendental, política e histórica: “A origem de Santa Bárbara, que foi fundada no terreiro de candomblé de mãe Helena; Mãe Helena foi fundadora da escola. Ou seja, a escola foi fundada por uma mulher, a escola leva o nome de uma mulher; de uma santa. E a entidade que rege a escola também é mulher. Olha a força da mulher enraizada. A gente fala que ‘nem mesmo o fogo da Inquisição queimou o encanto e a feitiçaria’. Eles tentaram, mas não conseguiram. Falamos do seu ‘Tranca’, que é o guardião de todas elas, sem citar o nome dele. A gente fala do ventre sagrado, portal sagrado, o ventre da vida, a luz da jornada. E na segunda do samba, falamos de Margarida, ‘O sangue na terra brotou Margarida’, uma mulher chamada Margarida que morreu lutando pela causa. Maria da Penha cuidou da ferida. Quando falamos ‘Não é não. Vê se aprende a me respeitar. Quem manda em mim sou eu’, é uma defesa das mulheres que lutam. Um bloco de mulheres que lutam contra tudo isso que está acontecendo. E temos uma ala que também luta contra o feminicídio, chamada ‘Laço Branco’. O enredo é todo bem amarrado”, explicou.
O que se viu na quadra da agremiação, quando o samba foi entoado, mostrou uma assertividade incrível por parte dos compositores, porque o samba foi de fato, muito bem recebido pelo povo do Itaim Paulista. Jorginho Soares revelou uma confidência do dia em que samba foi criado: “Foi tudo aqui antes da reforma da quadra. E um ritual que deu certo o ano passado no samba do seu Zé. Na hora que o presidente perguntou se estávamos prestes a começar a escrever o samba, ele acendeu uma vela, colocou uma cachacinha, nós fizemos o samba no tempo de uma vela pequena. Fizemos no tempo de uma vela no pé da entidade, que é a dama da noite; quem rege a escola. Colocaram um champanhe para ela e acendemos uma vela um pouquinho maior. E no tempo da vela, nós fizemos o samba juntamente com o André Ricardo. Depois, alteramos uma única palavra”, revelou.
Quadra reformada e tradição mantida: liderança feminina
A presidente da escola, Cássia Lima, esteve presente para reinaugurar a quadra. Com vitalidade, energia e acolhimento ímpares, ela mapeou a luta que levou a concretização, literalmente, da reforma do espaço. Além disso, a ‘Tia Cássia’, como é chamada pelos componentes, fez questão de afirmar a simbiose do Carnaval 2027, com a tradição feminina e ancestral que a Unidos de Santa Bárbara sustenta.

“Foi um processo que começou em 2007, quando queríamos muito esse espaço. Em 2018, nós fomos agraciados pela lei. Agora, em 2026, conseguimos a reforma com o apoio de muitas pessoas; é o sonho da casa própria. Estamos desde novembro do ano passado nessa luta. A gente é de um terreiro. Nós, gestores de agremiações e gestores culturais, temos a obrigação de fomentar o empoderamento feminino. Não apenas na questão da oratória, mas na questão de realmente fazer isso acontecer. Nós estamos com um enredo que fala das nossas ancestrais, das Pombogiras, e dos direitos de as mulheres decidirem o que querem. Todos nós temos essa essência feminina de trabalhar e batalhar. Esse enredo é focado nisso. Você falar da sua ancestralidade e do seu DNA, é uma responsabilidade muito grande. A Santa Bárbara sempre foi uma escola na qual a mulher é muito protagonista. Aqui no fundão da zona leste, o último bairro e uma escola periférica. Com todas as diferenças sociais, culturais e econômicas que a gente tem aqui, a escola vira um gueto e um quilombo dessas mulheres. Através da escola, elas têm voz”, reforçou.
Agora é no Anhembi!
Após o vice-campeonato em 2026 no Grupo Especial de Bairros da UESP, a Unidos de Santa Bárbara garantiu seu retorno ao Grupo de Acesso 2 para o Carnaval 2027, o que significa retornar ao Sambódromo do Anhembi. O desafio e o sarrafo aumentam, inclusive, porque a responsabilidade regulamentar do Grupo de Acesso 2 é da LIGA-SP. Assim sendo, as balizas para a escola do extremo leste paulistano serão outras. Responsável direto por um dos quesitos de avaliação, o diretor de harmonia, Ronnie Ribeiro, fez sua projeção sobre o que muda com a novidade Anhembi a vista.

“Um desafio grande. Mas graças a Deus, temos uma equipe que vem trabalhando bastante. Desde o resultado, a gente já vem estudando o regulamento, porque mesmo ele sendo renovado todo ano, já estamos estudando o do ano passado como base, e assistindo os desfiles do Acesso 2. Estivemos lá no Anhembi para fazer esse laboratório. É um trabalho diferente. O Anhembi é um pouco mais aberto, e o público fica um pouco mais distante. Assim, a escola vai trabalhar bastante o canto porque será um desafio enorme; tanto na questão Evolução, como Harmonia. Nossa equipe vem se renovando, uma galera jovem chegando, e estudando bastante para colocar esse carnaval na pista”, projetou.
Para Marcos Paulo, integrante da direção de carnaval, a iluminação do Sambódromo do Anhembi eleva a exigência aos detalhes, acabamentos e coreografias, porque tudo está na luz e na lupa: “Tínhamos uma pequena experiência de Anhembi. Descemos (para o Grupo Especial de Bairros) alguns anos atrás e tivemos muita dificuldade para nos adaptarmos a rua. É um Carnaval totalmente diferente. No Anhembi é muito lindo e maravilhoso. Como lá há muita claridade e visibilidade, o trabalho de corpo é muito grande. Estamos pegando pesado em canto, desenvoltura, ensaios específicos de alguns setores. Graças a Deus estamos com alas já fechadas, onde fazemos alguns ensaios por semana para poder fazer o geral no sábado. Sábado é nosso show; para todo mundo chegar lá e brilhar. É pegar no canto até o fim. Essa é a nossa estratégia”, elaborou.

Do enredo para o samba
A festa de reinauguração da quadra invadiu a madrugada. Discreto e atento, o carnavalesco responsável pelo Carnaval 2027, Jair Souza, dividiu em detalhes sua visão artística, e sobretudo cultural, para arquitetar o enredo. Segundo ele, trazer a religiosidade afro-centrada nas pautas sociais femininas era indissociável.

“O enredo surgiu com uma vontade que eu tinha de falar e homenagear a mulher, mas de uma forma diferente. Eu li um livro que falava de damas, e eu queria fazer algo assim. Com a ligação espiritual que a escola tem com Exu, Pombogiras e Orixás, e por ser uma escola que nasceu dentro de um terreiro de Candomblé, e cultuar sua ancestralidade até hoje, nós resolvemos homenagear a mulher de uma forma em que, a Pombogira traz a sua força, seus conselhos e sua sabedoria para uma melhor vivência no mundo. Esse é o texto do enredo. Além disso, dentro do enredo do Zé Pilintra, quando a escola foi vice-campeã, e subiu para o grupo de acesso; dentro desse enredo, o guia espiritual da escola falou que tinham mais dois; para eu me inspirar nesse que eu fiz do Zé Pilintra, e fazer o da mulher. Dali, eu consegui absorver a informação sobre o que a escola precisava para o próximo desfile. Seguindo o conselho espiritual da entidade que conduz a escola, e seguindo uma vontade que eu já tinha, a presidenta já queria abordar essa resistência feminina. São muitos casos de feminicídio; muita notícia negativa, aqui e no mundo, de violência praticada contra as mulheres. Nós resolvemos fazer um enredo em que a mulher grita ‘Quem manda em mim sou eu’. Um enredo em que a mulher grita querer socorro, mas ela também grita que é poderosa e conquistadora. Um enredo que vai homenagear o ventre feminino, as profissões e as orixás femininas. A partir do momento que uma escola aqui já cultua a sua ancestralidade com Pombogiras e Exus, fica mais forte, fica mais bonito, mais fácil e mais gostoso de desenvolver. E falar ‘Não é não’ é mais do que necessário. A escola vai procurar trazer essa energia forte da mulher em forma de poesia, e homenageá-la da forma que ela merece”, elucidou.
Sobre correlacionar o samba-enredo com a estrutura técnica do desfile, Jair disse que o trabalho dos compositores foi exemplar, e que os ajustes que o samba provoca no desfile estão dentro da normalidade: “Sempre tem uma adaptação; uma ala que estava ‘aqui’, mudou para ‘ali’, ou uma adaptação de um casal que era ‘isso’, virou ‘aquilo’. Toda escola passa por isso e pela adaptação da sinopse junto ao samba. Tudo para que seja melhor compreendido na avenida”, amenizou.
Na Unidos de Santa Bárbara, é mestra!
O empoderamento feminino mencionado pela presidente ‘Tia Cássia’, é uma realidade no Itaim Paulista. O coração da escola, a “Ritmo Tempestade” é comandada por uma mulher, a mestra Bia. O preparo da batucada para 2027 está a todo vapor, e a Mestra comentou o que têm planejado.

“A bateria do Santa Bárbara vai levar a 155 BPM (batidas por minuto). Estamos trabalhando nas bossas em cima do enredo, que pede bastante macumba. Mas infelizmente, a gente não tem atabaque, e improvisaremos com nossa bateria. Vamos deixar a bateria um pouco mais grave e vamos jogar os repiques para fazerem o balanço. As caixas também terão suas frases. A expectativa está bem legal. A bateria já está ensaiada. Quero trabalhar em cima do regulamento, sem ultrapassar para não perder lá na frente. Eu quero ser bem centrada e trabalhar com o que a gente tem. E vai dar certo”, garantiu.
A respeito da importância do samba-enredo, e da legitimidade que a escola lhe concede, a mestra também avaliou os dilemas de desigualdade de gênero na função, o machismo, e a simbologia que seu trabalho representa: “É difícil o pessoal aceitar. Mas só a gente, com a nossa garra, independência, a gente vai e corre atrás. É isso que eu faço aqui na bateria de Santa Bárbara. E aqui, graças a Deus, eu consigo impor o respeito e consigo trazer o pessoal para o meu lado. Graças a Deus, todo mundo me respeita. É óbvio que no começo foi muito, muito difícil; mas hoje em dia, é tranquilo, ainda tem um outro que não aceita, mas aí não tem o que ele fazer”, estabeleceu.
As mulheres vão soltar a voz!
A recepção da escola com o samba-enredo foi bastante calorosa. Além do enredo em sintonia com a proposta cultural, os intérpretes Jorginho Soares e Elci Souza trazem uma energia muito genuína a escola; um sentimento de verdade. Após a festa, a intérprete Elci Souza, dona de um grave potente, disse o quanto cantar esse samba significa para ela: “Isso mexe bastante comigo, porque eu sou da religião desde os meus 7 anos de idade. Cantar minhas referências, o que eu acredito e a energia. O samba é um chão de terreiro. Não tem como a gente não fazer essa homenagem maravilhosa”, destacou.

De volta como intérprete ao berço que conhece desde 2007, Jorginho Soares, fez questão de enaltecer o olhar, o protagonismo e o talento de Elci Souza. O cantor e compositor fez uma análise técnica sobre o encaixe do canto, timbre e características das vozes, e garantiu que o Carnaval 2027 da Unidos de Santa Bárbara será das mulheres: “A gente fez um estudo antes. Só que a Elci, ela é contralto, e já canta um pouco mais grave. Eu, por ter um timbre numa extensão de tenor, canto um pouco mais agudo. O tom tem uma notinha ou outra que fica um pouquinho mais espetada para mim, como tem uma notinha ou outra que para ela vai ficar mais grave, mas nada que a gente não alcança. E esse ano, principalmente por conta do enredo, nossa ideia é trazer uma ala com mais mulheres. A minha intenção era ter uma ala inteira de mulheres, mas como nosso presidente, e até por toda a questão espiritual, disse que eu precisava estar, aí talvez a gente traga um homem ou no máximo dois, mas a maioria será feminina. Até esse tom, que é um pouquinho mais agudo, também vai fortalecer para elas”, defendeu.
Mestre-Sala também é novo!
Samba-enredo novo, uma Liga nova, local de desfile novo, pavilhão novo e quadra reformada. O que mais faltava? Um dos momentos mais marcantes da noite foi a revelação do novo mestre-sala da agremiação, Hugo Oliveira, que comporá o primeiro casal ao lado de Walesca Alves. Segundo Hugo, os trabalhos inciados recentemente entre eles, nasceram com uma boa sintonia: “a gente iniciou os trabalhos agora e criamos um bom envolvimento, e criando bastante expectativa. A dança casou bastante entre eu e a Walesca”, afirmou.

Em um enredo tão fundamental para aquilo que a escola foi, é e defende, a porta-bandeira falou sobre a preparação da coreografia na escola e sua visão sobre essa ‘macumba feminina’ que a Santa Bárbara propõe: “A gente tem uma preparadora, a Dani. Ela está trabalhando comigo já tem um tempinho. Estamos trabalhando desde maio. Como a gente teve a troca de mestre-sala, e o Hugo chegou agora, estamos organizando a coreografia, mas é ela quem está montando a maioria da coreografia desse enredo sobre a Pombogira. É um enredo para fortalecer e empoderar as mulheres”, concluiu.









