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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Unidos da Tijuca realizou a semifinal da sua disputa de sambas-enredo na última quinta-feira, com torcidas liberadas para as parcerias pela primeira vez na eliminatória. Com maior público e apresentações mais quentes, os sambas de Ian Ruas e Lico Monteiro tomaram a dianteira, com atuações de alto nível, cada obra com suas valências. A parceria de Arlindinho obteve um desempenho que ficou um pouco atrás, mas, com a qualidade de sua obra, também se coloca firme na disputa para ser o hino da escola no Carnaval 2027. A seguir, a análise do CARNAVALESCO sobre as apresentações semifinalistas.

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Parceria de Arlindinho: Arlindinho comandou o samba de sua autoria e dos compositores Igor Leal, Diego Nicolau, Fred Camacho e Bruno Dallari, ao lado de Rodrigo Tinoco e Milena Wainer. O trio comandou uma obra com ótimas variações melódicas e elementos de arrasta-pé. A primeira parte é um achado em narrativa e, sobretudo, em melodia. O verso “sem sorte, sem eira nem beira, errante, distante do quê?”, apesar de ser mais espremido dentro da melodia, consegue ter ótimo balanço. Uma narrativa divertida aparece nos versos “Nessa peleja aperreado de saudade, dei com os zói em caridade, nos festejos de Antônio, achei um canto bão pra esticar os pé, e acordei com as muié me pedindo matrimônio”. Algo semelhante, em termos melódicos, ao verso citado na primeira parte acontece no refrão central “Joana queria José, mas Zé só pensava em Maria, Maria não sabe o que quer, nem com quem se casaria, foi tanto causo de amor que apareceu, no fim das contas vi que o santo era eu”, que passou muito bem. A segunda parte é um pouco mais convencional em suas soluções, mas também tem momentos inspirados, vide os versos “era o rosário o amor, que vai comigo até onde Deus quiser, e corre chão a romaria, chega um punhado de alegria, e só não chega se acabar a nossa fé”. O refrão principal “êta cadência arretada, escola danada do meu coração, Tijuca, vem e me vira a cabeça, que Santo Antônio abençoe o pavão” teve ótimo rendimento em todas as passadas. A apresentação foi competente, apesar da ausência de Igor Sorriso, mantendo a força da obra durante a maior parte da disputa, com destaque para as soluções melódicas, que foram bem realçadas. O refrão principal teve ótimo desempenho, sendo cantado por alguns segmentos além da torcida. A segunda parte apresentou algumas oscilações de rendimento, afetando um pouco o conjunto, que, nas duas últimas passadas, teve menor vigor.

Parceria de Ian Ruas: Dowglas Diniz e Vitor Cunha conduziram o samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos. Uma narrativa bastante poética e sentimental na primeira parte, onde são relatadas as dores e os medos de Samuel, vide versos como “delírios plantados em terra rachada, florescem num rastro de dor, será que a estrada esconde o segredo do amor, será que a estrada revela o segredo do amor?”. O refrão central “Ê, batuque em terreiro de arraiá, gingado, balão, festim, panela de mungunzá, abre a roda que o cabra incorporou, cabeça do santo herdei, cabeça do santo sou” é poético e tem uma variação melódica muito dolente, sendo outro destaque da obra. A segunda parte segue qualificada, principalmente nos versos finais “Tijuca, ao lume do teu candeeiro, o sonho de um simples vaqueiro, que mãe batizou Samuel, Tijuca, milagre encontrei em Rosário, no Rio, em teu santuário, meu Juazeiro é o chão do Borel”. O bonito refrão principal “em terra de fé, brotou, o fruto da oração, traz viola, meu sinhô, a sanfona anunciou, tem festança no sertão (vem sambar no meu baião)” fecha muito bem a composição. A primeira passada, feita sem a bateria, foi primorosa, com uma roupagem harmônica que explorou toda a beleza e qualidade melódica do samba. Um samba sedutor que se sustentou na quadra pela construção, mesmo com a inconstância do som dos microfones em alguns momentos. A torcida não se fez presente em grande número, mas esteve entusiasmada. Alguns segmentos reagiram bem à apresentação. Foi, principalmente, uma passagem muito linear, com ótima condução dos intérpretes e uma obra bastante envolvente, unindo lirismo e força de comunicação com o público. Sustentou-se com força do início ao fim, mostrando que sambas dessa característica também possuem ótima funcionalidade. Desempenho de samba que almeja a vitória.

Parceria de Leandro Gaúcho: Wantuir liderou o samba de Leandro Gaúcho, Ailson Picanço, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes e Ricardo Construção. A primeira parte tem uma melodia muito bem realizada, empolgante, e uma letra com destaques em sua narrativa, como no trecho “em Caridade tem fuzuê, moganga de boiadeiro, xetruá, o problema foi o santo responder, a promessa pra menina se ajuntá”. O refrão central “Não tenha medo, isso não é feitiço de visagem, catiço, venha ouvir o meu canto, arriado ele atende pedido, mas tudo tem preço, pois eu não sou santo” tem uma letra interessante e jocosa, superior à melodia do trecho, que passou um pouco mais despercebida. Na segunda, o samba perde força e passa de forma mais cansativa, apesar do bonito trecho final “Meu pai, quantas vezes te esperei ao pé da porta, pedi todo dia, roguei sua volta, e veja só, sempre esteve aqui, é hora, pai, de seguir pro meu Juazeiro, levando um rosário batendo no peito, outro milagre ainda está por vir”. O refrão principal “Santo Antônio pequenino, do sertão eu trouxe a luta, venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca, ele é de fé! Amansador de burro brabo, se dúvida é melhor tomar cuidado” é criativo e possui uma linguagem mais coloquial, de assimilação simples. O samba rendeu mais no refrão principal e na primeira parte, quando se mostrou mais convidativo ao canto. Principalmente na segunda, o desempenho caía bastante, com pouca sustentação. A torcida não acompanhou a passagem com o samba na ponta da língua; foram poucos os que cantaram de fato. A obra chegou às últimas passadas de forma morosa, sem o fôlego inicial, apesar da firme condução de Wantuir.

Parceria de Lico Monteiro: Wander Pires cantou o samba de Lico Monteiro, Telmo AG da Estiva, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane e Juca Gomes. Um samba gostoso de ouvir, com a interpretação de Wander valorizando a linha melódica da obra, muito boa desde os primeiros versos da cabeça “Ô de casa, ô de fora, se acomode e venha cá, um cadinho do sertão, tô aqui pra lhe contar, ô de casa, ô de fora, meu cordel já começou, se o mundo estava torto, Santo Antônio endireitou”. O samba possui uma letra que explora bem o sentimento de melancolia e solidão de Samuel nos versos “Sou Samuel, filho do vento e da sorte, sonho menino, relicário feito à mão, prometo mãe, seguir meu caminho, buscar sentido que me falta desde então”. O refrão central “Corre o fuxico no ar, coisa de interior, vai-e-vem do arraiá, meu passo desalinhou” tem ótima pegada e dá um ar leve à narrativa. A segunda parte começa com um dos trechos de maior destaque melódico da obra, “é só rezar pra Santo Antônio ouvir, ô diacho, me esqueça, vou achar um cazuá, atender a simpatia pra Toinho descansar”. Outro momento melódico de destaque surge nos versos finais “chorar, chorei, toca o sino e vem a romaria, guardo no peito o amor de Rosário, meu coração se fez moradia”. A narrativa do enredo é bem-feita e criativa, mas, melodicamente, o samba possui um brilho maior. O refrão principal “Eu digo amém, o milagre vai chegar, e muito além, faço o povo acreditar, sou nordestino que vai à luta, a missão será cumprida, Tijuca” possui uma narrativa que chama o canto do componente e exala raça. A apresentação foi muito sólida, com passadas fortes e sem oscilação de desempenho. Os apoios de Wander Pires tiveram ótimo rendimento, sustentando tons mais altos durante toda a passagem. A torcida apoiou bastante a obra, cantando quase o tempo todo, e foi um molho a mais na ótima atuação da parceria. Os dois refrãos tiveram grande rendimento, potencializando outro desempenho de alto nível na noite.