antan morada
Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

O trabalho do enredista ganhou cada vez mais espaço nos projetos de desfile das escolas de samba. Responsável por pesquisar e desenvolver o tema, o profissional atua diretamente ao lado do carnavalesco na construção da narrativa que será levada à avenida. Léo Antan, que trabalha na Mocidade Alegre e no Salgueiro, é um dos nomes que vêm se destacando na função. Em São Paulo, já soma três títulos e, no Rio de Janeiro, esteve no Desfile das Campeãs no último carnaval, tendo a missão de escrever a vida de Rosa Magalhães. Em entrevista ao CARNAVALESCO, Léo Antan falou sobre a rotina de trabalho, as diferenças entre os carnavais de São Paulo e do Rio de Janeiro e a relação com os carnavalescos Caio Araújo e Jorge Silveira.

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Cada escola tem suas peculiaridades

Com trabalhos em quatro carnavais simultaneamente, Léo explica que a principal diferença entre São Paulo e Rio de Janeiro não está necessariamente na praça, mas na personalidade de cada agremiação. “Eu faço, na verdade, quatro carnavais. Estou aqui na Mocidade, no Salgueiro, em Vitória e, há dois anos, também faço carnaval no Amapá, no Império do Povo. É uma loucura, porque tudo acontece praticamente no mesmo período do ano. Se uma escola escolhesse o enredo em abril e outra em junho, ajudaria bastante. Mas estamos nesse processo de pesquisa e amadurecimento das ideias. Costumo dizer que sou sempre a primeira pessoa a trabalhar no processo. Acabou o carnaval, eu já começo a trabalhar. Então, vamos nos dividindo da melhor maneira possível. O processo de escolha aqui na Mocidade às vezes é longo. Venho para São Paulo, participo de reuniões com a direção de carnaval e desenvolvemos o trabalho em conjunto. No Salgueiro, o processo depende muito de cada ano. Converso com o presidente André Vaz e com o Jorge Silveira, mas cada escola tem sua especificidade. Mais do que comparar Rio e São Paulo, é importante entender que cada escola funciona de uma maneira. Se eu fizesse Gaviões, Mancha ou qualquer outra escola de São Paulo, certamente seria tão diferente quanto trabalhar na Mocidade. É preciso entender a personalidade de cada agremiação e seguir da melhor maneira”.

Diferenças entre Caio Araújo e Jorge Silveira? ‘Meu trabalho é o mesmo’

Léo trabalha com Jorge Silveira há cinco carnavais e fará, em 2027, o terceiro desfile ao lado de Caio Araújo na Mocidade Alegre. Apesar dos estilos diferentes dos dois carnavalescos, o enredista destaca que sua função permanece a mesma. “Estou indo para o terceiro carnaval com o Caio. Com o Jorge, vamos para o nosso quinto projeto juntos. São dois artistas com estilos muito diferentes. Meu trabalho é sempre o mesmo: pesquisar e fornecer o melhor conteúdo para que eles possam criar as imagens. Eles têm maneiras distintas de chegar a esse resultado, e também é preciso entender a personalidade de cada um. Estou fazendo enredos aqui na Mocidade que, certamente, o Jorge teria interpretado de outra maneira. Além disso, meu trabalho envolve atender à escola e ao carnavalesco e, no meio disso tudo, encontrar algo que também me apaixone, porque quero estar envolvido no processo da melhor maneira possível. Tenho a sorte de trabalhar com dois amigos queridos, com quem tenho uma troca muito profunda. Participo ativamente de todo o processo de elaboração das imagens. Não sou exatamente o responsável pela criação, mas dou opiniões, observo, ajudo a adequar e a construir a melhor narrativa. O visual também é narrativa e ajuda a apresentar o enredo. Por isso, precisamos estar em sintonia muito fina”.

Trajetória na Mocidade Alegre e no Salgueiro

A trajetória de Léo nas duas escolas começou com a indicação de Jorge Silveira. No Salgueiro, inicialmente atuou como pesquisador e, posteriormente, passou oficialmente à função de enredista. Na Mocidade Alegre, chegou em 2023 e permaneceu após a saída de Jorge. “O Jorge me levou para o Salgueiro. No primeiro ano, ele trabalhou com o Igor Ricardo e eu estava mais como pesquisador. Desde o ano passado, seguimos oficialmente como enredista do Salgueiro. Fizemos o carnaval de 2026 e agora estamos trabalhando no de 2027. Aqui na Mocidade, tive a surpresa de continuar. Não era algo que eu esperava. Cheguei através do Jorge, no primeiro ano ainda muito distante da escola e, no segundo, já mais próximo. Foi muito surpreendente quando a Solange me procurou depois da saída do Jorge. Foi um processo de conversas para entender qual seria a melhor maneira de dar continuidade ao trabalho. Quando ela me ligou e disse que queriam que eu continuasse, fiquei muito feliz. E já estamos chegando ao quinto carnaval”.

São Paulo é mais técnico; Rio de Janeiro, mais livre

Apesar de utilizar a mesma metodologia de pesquisa nos dois estados, Léo aponta diferenças na forma como o trabalho precisa ser adaptado às exigências de cada carnaval. Em São Paulo, segundo ele, os aspectos técnicos têm peso maior, enquanto o Rio oferece mais liberdade na construção do samba-enredo. “A primeira diferença é a setorização. Aqui temos um carnaval um pouco menor, e acredito que as principais diferenças estão mais na maneira como o carnaval é julgado e nas exigências técnicas do que no processo de criação. Eu crio da mesma maneira para os dois carnavais. Gosto de pesquisar, ler e entender profundamente a história que vou contar. O que precisamos fazer é adequar o trabalho à estrutura do espetáculo. Em São Paulo, existem alguns tecnicismos que precisam aparecer tanto na defesa do enredo quanto no processo de escolha do samba. Aqui, existe uma preocupação com o samba contar de maneira mais linear aquilo que será apresentado na avenida. No Rio, inclusive, o regulamento prevê que o samba não precisa apresentar os elementos na ordem em que aparecerão no desfile. Então, existem alguns aspectos técnicos que precisamos dominar. Na Mocidade, também tenho a sorte e o prazer de trabalhar com uma direção de carnaval muito competente. Não elaboro a pasta sozinho e nem gostaria de ter essa responsabilidade. Construímos esse trabalho coletivamente, com uma direção extremamente preparada”.

Contribuição na elaboração dos materiais para os jurados

A elaboração das pastas para os jurados também apresenta diferenças entre as duas cidades. Na Mocidade Alegre, Léo trabalha de forma integrada com a direção de carnaval, enquanto no Salgueiro assume uma participação mais individual na produção do conteúdo. “Faço um texto bruto com toda a pesquisa do enredo: a sinopse, o histórico e a descrição do que será apresentado em cada ala e em cada alegoria. Depois, entrego esse material à direção de carnaval. A direção da Mocidade é muito capacitada e, inclusive, foi responsável por desenvolver muitas das coisas que hoje aparecem nas pastas e que outras escolas utilizam como referência. Meu trabalho é muito mais voltado ao conteúdo, para que o enredo seja apresentado de maneira clara. A direção entra com toda a experiência e o conhecimento sobre o julgamento em São Paulo. No Rio é muito diferente. Lá, o trabalho é praticamente solitário. Escrevo a pasta quase sozinho, sempre em contato com a equipe de criação e com outros segmentos. Para escrever sobre a bateria, por exemplo, conversamos com os mestres e com os compositores. É um material muito menos técnico e mais teórico, então tenho mais domínio desse processo. Aqui em São Paulo, o trabalho é muito mais coletivo”.