
A Mangueira realizou no último sábado mais uma eliminatória de sambas-enredo para o Carnaval 2027. Numa disputa que está se afunilando, seis obras se apresentaram na quadra da Verde e Rosa, com apresentações quentes e de ótima qualidade. Cinco sambas se classificaram para a próxima semana, e o samba da parceria de Bete da Mangueira foi cortado da disputa. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as apresentações das parcerias classificadas.
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Parceria de Chacal do Sax: Pixulé e Rafael Tinguinha comandaram o samba da parceria de Chacal do Sax, Verônica dos Tambores, Laura Romero, Rafael Capiberibe, Giovani e Ronnie Machado. Um grande desempenho da dupla de intérpretes, levando a obra com maestria. O refrão principal, “Ô ô ogã, bate o aro ogã, eu sou Mangueira, ventania de Yansã, iluminando essa favela inteira, Oyá por nós da Estação Primeira”, é extremamente envolvente melodicamente e tem um canto fácil, chamando o componente a clamar pela escola, obtendo ótimo desempenho em todas as passadas. O início da primeira parte segue o interessante caminho melódico, nos versos “vento que sopra e abre os caminhos, é gira de Ketu pro povo passar, a força que vai conduzir meu destino, relampejou, vai clarear”. O samba mantém uma pegada muito forte nos versos seguintes, culminando no bis “Oyá te te, Oyá te te Ayabá, Oyá te te Oloyá, Oyá te te”, versos que exaltam Oyá como mãe divindade e citam sua força, também muito bem sustentado durante toda a apresentação, levantando os torcedores da parceria. A segunda parte também apresenta uma melodia de qualidade, esta soa mais poética, trilhando os ritos do Candomblé, como o Ajeum e suas danças, tendo um desempenho menos quente, mas sem arrastar. O estilo aguerrido é retomado no trecho que antecede o refrão principal, cujos versos “quando ela passa, nada fica no lugar, incendeia, mãe, incendeia”, “eu não seria nada sem Oyá, quem é do fogo tem dendê na veia” sintetizam o poder da Orixá rainha do dendê e entregam pro refrão com a força em cima. Uma ótima apresentação.
Parceria de Lequinho: Tinga defendeu o samba de Lequinho, Junior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim. A torcida levou o samba todo no gogó já antes da apresentação no palco começar. E, quando iniciou, a temperatura se manteve alta. Uma apresentação com a força da deusa da tempestade. O começo da obra já retrata Oyá como a representação feminina nos versos “Quando toca o adaró, somos tantas numa só, a nação evoca minha mãe Iansã, vira tempo, tempestade”. Na sequência, a narrativa segue forte e dissecando a multiplicidade da rainha das tempestades, presente nas mais diferentes formas, como no trecho “sou rebeldia de Oluafefé, pele de búfalo no corpo de mulher”. O refrão central “Ya Mesan Orun, treme terra, desce o morro, sobe o run, é guerra, bate o Oguê que o sangue tem Dendê, tá pra nascer quem manda nela” retrata bem a linguagem mais visceral e direta que o samba possui, e o trecho obteve ótimo rendimento. A segunda parte apresenta uma ruptura melódica arriscada e interessante no trecho “é que eu sou preta, macumbeira e de Oyá, sou ventania que ninguém pode afrontar, colo de Ketu, solo do gueto, força de Orixá”, que sucede o verso “porque não existe macho que levante a mão pra mim”, que possui uma enorme força semântica, a despeito de uma estranheza causada pela linguagem literal e menos poética da frase, mas que se alinha com o trecho seguinte e foi muito cantado, inclusive por segmentos e público fora da torcida. O refrão principal “Oyá Tetê Oyá Tetê Oyá, Oyá Tetê Oyá Mangueira Yabá, Ê mamãe, traz de novo teu axé, relampejou pra vitória, Motumba Lè” levantou a quadra em todas as passadas. Um desempenho que impressionou.
Parceria de Gilson Bernini: Pitty de Menezes e Ito Melodia foram as vozes principais do samba da parceria de Gilson Bernini, Beto Savanna, Xande de Pilares, Karinah, Gustavo Clarão e Felipe Mussili, e conduziram uma forte apresentação, de muita energia, com uma pequena queda nos minutos finais. Começando pelo refrão principal “Toca o aguerê, vim pra guerrear, queima no dendê Epahey Oyá, Oyá por nós, minha mãe, com o seu axé, Mangueira é terreiro de candomblé”, que é aguerrido em letra e melodia e passou muito bem. A primeira parte inicia com o refrão de cabeça “Oyá de Olúafefé, Oyá Oyá Eparrey Oyá”. A melodia norteia bem a obra e mantém o bom nível, apesar de uma leve queda no desempenho durante as passadas. O refrão central “ergue o Eruxim que o ogã no xirê dobra o run, toda Obirin sacode a poeira, é guerreira, Iyá Mesan Orum, okutá de oguê, ajeum, é fundamento da Estação Primeira” é poderoso em sua narrativa, apesar da linha melódica semelhante ao refrão principal. A melodia possui mais lirismo na segunda parte, combinando bem com versos como “voa no rosa do amanhecer, pousa no verde sagrado de Ewê, preta do ventre de Oyá, não vai se curvar, senhora menina de fé”. A melodia apresenta variações interessantes, como no trecho “corre na veia ancestralidade, trago no peito a honra e a coragem”. Os versos finais “Ô, Iyá em cada herdeira, que desce a ladeira e vem sambar, é um furacão que incendeia a quarta-feira, só quem é Mangueira pode confirmar” jogam o samba em uma crescente para entrar no refrão, potencializando o trecho e a valentia no desempenho.
Parceria de Arlindinho: Evandro Malandro e Bruno Ribas comandaram o samba de Arlindinho, Paulo César Feital, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto e Igor Leal. Um samba que, assim como Oyá, une força com um toque de sutileza e poesia. A apresentação começou visceral, com duas passadas espetaculares. O refrão principal “Ah, epahey, ela é Oyá, a bela Oyá, ah, Epahey, a minha mãe é Iansã, é quarta-feira, tem macumba na Mangueira, batuquei a noite inteira, amanheci campeã” tem uma estrutura curiosa. Ele é entrecortado por outra estrofe que também tem bis, “dobra o adaró, rufa o alujá, no toque de guerra a Mangueira vai passar”. A solução deixou o samba envolvente, diferente e teve excelente funcionalidade durante toda a passagem da obra. A primeira parte explora a força da feminilidade de Oyá, com versos muito bem construídos, como no trecho “é fogo o amor de Xangô, esquenta o Ajerê, banha o casal do Dendê de verde e rosa, na fúria de um furacão a fera vai se transformar, asas de labá-labá, larô, Exu Elegbara”, e se sustentou com categoria. O refrão central “O gira a saia vai começar o xirê, bate cabeça, é noite de tempestade, varre a maldade, derrama o poder, Oyá Tetê é tempo de liberdade” é bonito e possui boa melodia, porém passou de forma mais apagada em relação a outros momentos da obra. A segunda parte segue a narrativa muito bem construída, descritiva com clareza, sem perder o senso poético, e com uma linha melódica que possui poucas variações, mas conduz bem a obra e é bem amarrada, sem quebras. O desempenho terminou sem a pujança do início, mas foi mais uma apresentação de muita qualidade, também com a adesão de pessoas fora da torcida da parceria.
Parceria de Gustavo Louzada: Zé Paulo liderou a apresentação do samba da parceria de Gustavo Louzada, Dulce Santos, Alexandre Naval, Valtinho Botafogo e Raimundo Santa Rosa. A primeira parte começa forte, com versos anunciando a chegada de Oyá, com ótima melodia: “Rasgou o céu, o raio anunciou, Oyá Dewo, força descomunal, a dona do temporal, Oyá Dewo, Oyá Dewo, Dewo”. O refrão central “os tambores quarta-feira, nos terreiros em Mangueira, ajerê carrega a chama, preceito do candomblé, faz um banho de erva-prata, põe dendê no acarajé” possui uma variação melódica gostosa e que teve boa fluidez na apresentação, além de uma narrativa bem feita sobre os ritos para Oyá. Aliás, a linha melódica apresenta vários passeios ao longo do samba. Na segunda parte, ela soa um pouco mais truncada, e o samba mostra uma grande irregularidade em seu rendimento, sobretudo nos versos “inspiradora de mães protetoras, avassaladoras filhas de Iansã”. O refrão principal “Oyá Tete, Oyá Tete Aiyagbá, Oyá Tete Omo Oloyá, Oyá Tete Aiyagbá, Epahei Iansã, Oyá por nós, a poeira vai subir, é bom se segurar, cuidado que a Mangueira vem aí” foi arrefecendo com o passar da apresentação, que foi instável e não teve maior sustentação após as primeiras passadas.









