Por Gustavo Lima e Almir Aprígio

Entre batuques, emoção e celebração, o Acadêmicos do Tatuapé deu o primeiro passo rumo ao Carnaval 2027. A escola reuniu a comunidade na quadra para apresentar o samba-enredo que levará à Avenida a história da República Democrática do Congo, em uma obra que, segundo seus responsáveis, aposta em um andamento diferente e em uma forte identidade africana. O samba pretende levar para a Avenida uma narrativa sobre a origem, a cultura, a espiritualidade, as manifestações culturais e as heranças deixadas pelo país, estabelecendo também uma relação com a formação cultural brasileira. Assinam os compositores Márcio André, Thiago Morganti, Thiago Meiners, Claudio Mattos, Shumacker, Wilson Mineiro, Herval Neto, André Valencio, Vitor Roblanco, Aranha Wilpz, JP Orlow e Tubino.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
O carnavalesco da escola, Wagner Santos, mostrou estar feliz com a escolha do samba, pois a obra casa bem com o que a escola pretende mostrar na Avenida. A agremiação pretende mostrar a origem do Congo até os dias atuais. O carnavalesco destacou a importância do enredo, que também irá abordar como o Congo foi importante para o Brasil, pois agregou às nossas heranças culturais, comunidades folclóricas e festividades.
“Olha, pelo que eu já vi, o que me apresentaram do samba, eu gostei muito. Ele retrata o que a gente vai apresentar na Avenida. Nós vamos falar da origem do Congo, desde a sua origem até os dias atuais, e vamos trazer também as heranças que o Congo nos trouxe: heranças culturais, comunidades folclóricas, festividades. E a gente vai fazer um belo trabalho”, disse Wagner.

O carnavalesco prometeu um belo desfile da agremiação, com muita teatralidade, tanto nas composições quanto nos componentes.
“O que a gente pretende, nesse enredo, é trazer diversos momentos coreografados em todo o decorrer do desfile. Teremos várias coreografias dos carros e vamos trazer muitas informações através dos elementos que vamos fazer nas nossas decorações”, afirmou Wagner.
Escolha diferente para o Carnaval 2027

A escolha do samba passou por um processo que envolveu dezenas de obras. Segundo os presidentes do Acadêmicos do Tatuapé, Erivelto Coelho e Eduardo Santos, a escola recebeu por volta de 18 sambas para a disputa deste ano. A avaliação foi realizada inicialmente por um grupo formado por integrantes do Departamento Cultural, diretoria e equipe de criação. O objetivo era encontrar uma obra capaz de traduzir musicalmente o enredo e explorar os elementos apresentados na sinopse.
Depois da seleção, os sambas finalistas foram submetidos à avaliação dos departamentos da escola. A comunidade também participou do processo, podendo ouvir e votar na obra que considerasse mais adequada para representar o enredo. Neste ano, a escola decidiu ainda antecipar o anúncio do vencedor. Segundo Erivelto, a divulgação ocorreu dez dias antes do evento para que fosse possível preparar a gravação e realizar os ajustes necessários.

“Não queríamos que nenhum componente se sentisse traído ao descobrir, por terceiros, que determinado samba havia vencido”, explicou o presidente.
A preocupação da diretoria foi garantir que a comunidade acompanhasse o processo desde o início e pudesse conhecer a obra vencedora antes da apresentação oficial. Eduardo Santos também detalhou como foi o processo da escolha do samba do Acadêmicos do Tatuapé e comentou como funciona o processo de mudança dentro de um samba. O presidente informou que mudanças são necessárias, mas afirmou que é contra processos em que é escolhido um samba e, nas mudanças, acaba-se construindo outro.

“Algumas alterações são necessárias. Às vezes, existe alguma palavra que precisa ser colocada e a gente tenta encontrar um lugar adequado para ela”, disse Eduardo.
“Também existem palavras de difícil pronúncia ou que acabam trazendo alguma dificuldade para cantar. Às vezes, não é apenas uma questão de léxico; pode ser uma palavra que destoa um pouco da melodia”, concluiu Eduardo.
Vitória depois de várias tentativas

Para os compositores, a escolha do samba representa também o resultado de uma trajetória marcada por tentativas e derrotas. Um dos vencedores, Shumaker, contou que a parceria chegou à sua décima tentativa na escola até finalmente conquistar a vitória.
“Algumas vezes até pensamos em desistir, mas, graças a Deus, conseguimos cumprir essa missão”, afirmou.
A conquista ganhou um significado ainda maior por acontecer em uma escola que, segundo o compositor, sempre representou um desafio importante para a parceria.

Shumaker também destacou a preocupação de apresentar uma obra diferente do modelo tradicional de samba-enredo.
“A gente sempre tenta sair um pouco do comum. (…) O difícil é sair da caixinha”.
Segundo ele, a composição já nasceu com uma proposta musical diferente. A equipe sabia que apostar em uma estrutura menos convencional poderia trazer riscos, mas a receptividade da comunidade mostrou que a escolha funcionou.

“Quando você apresenta algo novo, existe sempre a preocupação de causar estranhamento ou de as pessoas não entenderem. Mas, graças a Deus, tivemos uma aceitação muito boa”.
Identidade afro na composição
Outro compositor vencedor, André Valencio, também destacou a relação entre a obra e a identidade musical de sua parceria. Segundo ele, o grupo possui uma trajetória ligada a sambas afro e a temas relacionados às religiões de matriz africana. A identificação com o enredo, portanto, aconteceu desde o momento em que a proposta foi apresentada pela escola.
“A gente tem uma linha muito voltada para o samba afro e para os sambas de cunho religioso de matriz africana”, afirmou.

Para André, a vitória no Tatuapé tem um significado especial. Foi a primeira vez que a parceria conseguiu vencer uma disputa na escola, depois de diversas participações.
A força da competição também foi lembrada pelo compositor. Segundo ele, algumas das principais parcerias do Carnaval de São Paulo participaram da disputa deste ano.

“É diferente ganhar em uma escola nova, com a tradição e a potência que o Tatuapé tem. Se Deus quiser, com esse samba o Tatuapé pode conquistar um título neste ano”, destacou.
Emoção de Celsinho ao cantar a história do Congo
Celsinho Mody, intérprete do Acadêmicos do Tatuapé, destacou que defender o samba-enredo na Avenida representa muito mais do que a responsabilidade de interpretar a obra. Para o cantor, o enredo sobre a República Democrática do Congo também estabelece uma conexão com sua própria história familiar e com suas raízes culturais.

O cantor revelou sua identificação com a cultura banto e afirmou que essa relação torna a interpretação ainda mais especial.
“Isso me emociona muito porque sou um homem de cultura banto. Minha família é banto, da Bahia, formada por negros que chegaram escravizados ao Brasil”, contou.
A ligação pessoal com o tema também aparece na forma como o intérprete avalia o samba. Celsinho comparou a experiência de defender a obra no Tatuapé à sensação de cantar em uma escola que admira e destacou a influência de um dos grandes nomes do carnaval brasileiro em sua trajetória. Para ele, o samba é um verdadeiro fenômeno e desperta a sensação de interpretar uma obra à altura de grandes referências do carnaval.

“É um samba em que eu me sinto o Neguinho da Beija-Flor, que é o grande mestre que tenho”, afirmou Celsinho, fazendo questão de enviar uma homenagem ao intérprete.









