Por Gustavo Lima e Almir Aprígio
A Mocidade Alegre realizou na noite do último domingo a grande final de samba-enredo na Arena Morada. Considerado um dos eventos mais aguardados do carnaval de São Paulo, a disputa contou com a quadra lotada e reuniu milhares de componentes e torcedores para acompanhar a decisão. Cinco sambas chegaram à fase final e levaram suas respectivas torcidas para defender as obras. A noite foi marcada por grandes apresentações, com efeitos especiais, balões e papéis que ajudaram a abrilhantar o espetáculo. No fim, o samba 10 confirmou o favoritismo que vinha construindo ao longo da disputa e foi escolhido como o hino oficial da agremiação para o Carnaval de 2027. Repetindo a estratégia apresentada na semifinal, a parceria levou para a Arena Morada uma alegoria de barco acompanhada de uma encenação, representando a navegação da Nau Catarineta, elemento central do enredo. Além disso, uma multidão de torcedores cantou forte durante a apresentação da obra campeã, com destaque para o refrão do meio, um dos trechos mais celebrados pela comunidade. Os compositores responsáveis pelo samba vencedor são: Gui Cruz, Nikimba, Imperial, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Portuga, Ratinho, Darlan Alves, Reinaldo, Luciano, Rapha Moreira, Ayr Júnior, Mala, Fal, Thiaguinho da Morada, Rafa Cria, Jorge Diego, Mario Presida, Marçal, Willian Tadeu e Vitor Gabriel. Atual campeã do carnaval de São Paulo, a Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no sábado de Carnaval com o enredo “Sete Anos de Mar, Sete Léguas de Encanto: A Nau que Venceu o Diabo sob a Benção do Sagrado Manto”, desenvolvido pelo carnavalesco Caio Araújo.
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“É muito gratificante saber que a comunidade abraçou esse samba. Foi uma composição feita de coração, por uma parceria que conhece profundamente a escola. Quando uma agremiação vem de um título e consegue se unir ainda mais em torno de um samba, só podemos ficar muito felizes”, disse o compositor Imperial.

Voltando a vencer pela escola do coração
Um dos maiores vencedores da história da Mocidade Alegre, agora com nove sambas campeões, Imperial afirmou que conquistar mais uma disputa pela escola do coração tem um significado especial. “É sempre um sentimento de renovação, como se fosse a primeira vez. A Mocidade é a escola do meu coração. Foi aqui que me tornei sambista, compositor e onde nasceu o nome Imperial. Sou muito grato por essa escola. Como diz o samba, ela é o meu ‘porto seguro’. Esse é um samba que pegou, a comunidade abraçou e praticamente foi uma escolha unânime”.

A parceria do samba 10 levou uma grande torcida à Arena Morada, transformando a final em uma verdadeira festa. Imperial comentou sobre a celebração. “Foi uma festa maravilhosa. Trouxemos uma verdadeira multidão, apaixonada por essa escola e por essa bagunça maravilhosa que é o carnaval. São os loucos marinheiros dessa nau. E, graças a Deus, conseguimos chegar ao porto que tanto queríamos”.
Retorno de uma parceria vitoriosa
Outro compositor que assina a obra, Vitor Gabriel celebrou o retorno da parceria à Mocidade Alegre, já coroado com mais uma vitória. “Para nós foi muito especial compor esse samba. Ele marca o retorno da nossa parceria à Mocidade Alegre, depois de ficarmos fora do último Carnaval. Mais do que isso, representa a reunião da nossa formação original: eu, Gui Cruz, Portuga, os Gêmeos, Rafael Falanga e toda a equipe que conquistou tantas vitórias pela escola. Por isso, esse samba tem um significado muito especial”.

Desde o lançamento dos sambas concorrentes, o samba 10 despontou como um dos favoritos. Mesmo assim, Vitor preferiu tratar o assunto com cautela e fez questão de demonstrar respeito às demais parcerias. “Favoritismo fica por conta das opiniões de quem acompanha o concurso. Para nós, compositores, não tem isso. Existe respeito por todas as parcerias. Todo mundo trabalha para apresentar o melhor samba possível. Eu mesmo ouvi os concorrentes e havia dois ou três sambas de que gostei muito. Inclusive, falei isso ao Maradona no palco. Havia grandes composições na disputa. O importante era fazer o nosso melhor e, graças a Deus, deu certo”.
Assim que o resultado foi anunciado, a reação da comunidade foi imediata. Para Vitor, ver o samba ser tão bem recebido pela escola tem um significado especial, principalmente por sua ligação com a Mocidade Alegre. “Ter o acolhimento da comunidade é sempre muito especial. A Mocidade Alegre foi a escola onde comecei no Carnaval, em 2002. Passei muitos anos na bateria antes de me tornar compositor. Tanto eu quanto meus parceiros somos pessoas da casa, então esse carinho da comunidade tem um significado enorme”.

Geralmente, o refrão principal é o trecho que mais chama a atenção em um samba-enredo. No entanto, a obra vencedora se destaca principalmente pelo refrão do meio, que ganhou força pela construção melódica e pela riqueza da letra. “A proposta era fazer algo diferente. O refrão tem uma ousadia na letra porque trata de um tema que normalmente é abordado de forma muito pesada. Nós escolhemos seguir um caminho mais lúdico, leve e irreverente. Talvez esse tenha sido o grande diferencial do samba: transformar um assunto denso em algo satírico, agradável e gostoso de cantar”.
Evento grandioso e uma escolha unânime
A presidente Solange Cruz celebrou o sucesso do evento e o grande público que a Arena Morada recebeu neste domingo. “Confesso que me surpreendeu. Tinha muita gente. Havia pessoas na arquibancada, na pista, em todos os espaços da quadra. Acho que o horário ajudou bastante, começamos mais cedo, o pagode foi excelente e toda a preparação para a festa foi muito bem feita. Claro que, durante a apuração, bate aquela tensão para conhecer o resultado e ver a reação das pessoas. Mas terminou tudo muito bem. Todo mundo saiu feliz, cantando o samba. Foi mais uma grande escolha da Mocidade”.

De acordo com a dirigente, a votação apontou 100% de preferência pelo samba 10, além de refletir a vontade da escola e a reação dos componentes durante a final. “A comissão julgadora foi unânime na escolha e, além disso, realizamos uma audição na quarta-feira com todas as lideranças da escola. O time de canto apresentou todos os sambas e fizemos uma votação. Percebemos que o resultado dessa votação era exatamente o mesmo desejado pela comissão julgadora. Isso nos dá muita tranquilidade, porque é importante ouvir a comunidade, ouvir a escola e ouvir quem vai defender esse samba na avenida”.
A comissão de carnaval da escola costuma analisar os pontos do samba para adequá-los às suas pretensões e, quando necessário, realiza ajustes na obra. “Amanhã começamos o trabalho de ajustes. Na quarta-feira teremos ensaio de bateria e vamos alinhar esses detalhes. Depois fazemos uma pequena pausa por causa do Dia dos Pais e, na sequência, retomamos tudo com força total para iniciar os ensaios da comunidade”.
Próximos passos
Júnior Dentista, diretor de carnaval, revelou que, durante as conversas com os compositores, a proposta era apresentar um samba irreverente, característica encontrada na obra escolhida pela escola. “Quando definimos esse enredo, nossa intenção era apresentar uma proposta irreverente, deixando a escola mais leve e mais solta. Inclusive, isso foi explicado aos compositores desde o início.
Sentimos que, por não haver eliminatórias, muitos sambas não tiveram tempo suficiente para crescer ao longo da disputa. Se houvesse mais duas ou três fases, acredito que algumas obras evoluiriam bastante. Mas esse é o formato adotado. A audição realizada durante a semana foi fundamental. A comissão julgadora gostava de aspectos diferentes de alguns sambas, mas naquele momento conseguiu esclarecer todas as dúvidas. A final apenas confirmou essa decisão”
Em relação ao anúncio que levou a quadra ao delírio, Júnior comentou sobre a importância de ter a comunidade alinhada com a escolha da escola. “Quando a comunidade está ao seu lado, tudo fica mais fácil. Nesta semana vamos nos reunir com o diretor musical para fazer pequenos ajustes que forem necessários e chegar ao primeiro ensaio oficial com o samba completamente pronto. Sempre existe algum detalhe de letra ou melodia para aperfeiçoar, mas trabalhar com a comunidade abraçando o samba facilita muito esse processo”.

Revelando os próximos passos da preparação, Júnior Dentista também comentou sobre os ajustes que serão realizados no samba, conforme confirmado pela presidente Solange Cruz, além de detalhar o andamento dos trabalhos no barracão. “Nesta semana vamos nos reunir com o intérprete, o diretor musical, o mestre de bateria e toda a diretoria para finalizar os ajustes de melodia, letra e arranjos. Na quarta-feira já teremos ensaio da bateria. Depois da pausa do Dia dos Pais, voltamos com o ensaio da comunidade antes do primeiro ensaio de rua. Paralelamente, seguimos com a produção dos pilotos. A reprodução das fantasias já está praticamente pronta e o barracão está em pleno andamento. O Caio ainda está finalizando a pintura de algumas alegorias, mas todo o projeto já está desenhado. As fantasias estão definidas, o projeto da comissão de frente está maravilhoso e estamos caminhando muito bem. Agora é seguir trabalhando rumo ao nosso objetivo: buscar a décima quarta estrela da Mocidade Alegre”.
Clima leve e escolha alinhada com o tema
O carnavalesco Caio Araújo enalteceu a festa realizada pela Mocidade Alegre e o clima da final. “Acho que foi uma sensação de muita leveza e muita alegria. A gente tem noção da importância que é escolher o samba certo para o nosso desfile. É ele que vai conduzir a Mocidade para um grande sucesso ou para um grande fracasso. E esse ano a gente tem certeza de que fez a escolha certa, um grande samba. Agora a gente vai correr atrás de fazer um grande desfile. A gente sai daqui hoje com a alma leve, tranquila, de que vamos fazer um grande carnaval em 2027”.
Questionado se o samba-enredo poderia alterar o projeto da agremiação para o desfile, o carnavalesco Caio Araújo afirmou que novas possibilidades sempre podem surgir. “Acho que sempre abre novas possibilidades. O samba é a parte mais importante do desfile. Se a gente precisar adequar o visual ao que o nosso samba está falando, a gente vai fazer isso. Mas acho que esse ano não vai ser o caso, porque está tudo muito casado. No ano passado nós encontramos a frase ‘Todo preto vai para o céu’, que era a frase mais forte do samba e que não estava prevista no desfile, não estava representada antes da escolha do samba. Aí fizemos essa adequação para ela caber no desfile”.

O enredista Léo Antan revelou que, apesar de não participar da votação, contribui com opiniões junto ao carnavalesco Caio Araújo e à diretoria, além de confiar no processo de escolha da escola. “A gente dá nossa opinião, mas não vota nesse processo. Então a gente acompanha um pouco de longe, tentando entender o que está acontecendo, mas sempre confiante também na decisão da escola. A gente sabe que, apesar de ter a centralidade da Solange, é uma escola com um debate muito grande, em que as decisões são tomadas coletivamente. Então isso também nos tranquiliza. Tem uma democracia muito grande aqui na Mocidade. Então a gente acompanha esses processos mais de longe, mas com a alma leve e com a certeza de que a escola vai escolher o melhor para o desfile. Porém, era o nosso samba favorito, com certeza”.
Arriscar coisas diferentes
A porta-bandeira Graci Araújo revelou que não costuma ouvir os sambas concorrentes durante a disputa para evitar criar preferência por alguma obra específica. Satisfeita com a escolha, ela acredita que o samba vencedor permitirá novas possibilidades para a apresentação do casal. “Eu não tinha um samba preferido. Costumo me apaixonar por algum durante a disputa e, no fim, nem sempre é ele o escolhido. Então aprendi todos, porque estava preparada para qualquer resultado. O samba vencedor pega rapidamente. Tem muitas pausas e o que mais me agradou foi a variedade da composição. São quatro estrofes bem diferentes entre si. Isso vai nos permitir explorar bastante o passo tradicional de mestre-sala e porta-bandeira, mas também arriscar alguns movimentos mais específicos que dialogam com o enredo”.
Já o mestre-sala Emerson Ramires comentou que a obra era uma de suas favoritas e destacou a expectativa para desenvolver a apresentação ao lado da companheira. “Achei o samba maravilhoso. A expectativa era muito grande. Era o samba pelo qual muita gente torcia. Todos os finalistas eram muito bons e, qualquer que fosse o escolhido, nós cantaríamos, vibraríamos e comemoraríamos, porque a Mocidade Alegre é assim: canta com emoção. Agora a expectativa é fazer algo diferente. Como a Graci comentou, há muitas surpresas sendo preparadas. O samba nos dá essa possibilidade e vamos aproveitar isso para levar algo novo para a Avenida”.

Graci também elogiou a forma como a agremiação conduz o processo de escolha do samba-enredo. “Este é o meu primeiro ano na Mocidade Alegre e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a forma como a escola conduz a escolha do samba. Eles reúnem todos os chefes de ala e representantes da comunidade para estudar os sambas. São feitas várias passagens com os finalistas e esse trabalho também é replicado nas alas. Independentemente de qual fosse o vencedor, todos já estavam preparados, conheciam a letra e sabiam cantar. Eu não conhecia essa dinâmica em outra escola e achei muito interessante. Isso fez com que todos participassem da final com entusiasmo, independentemente do samba que estivesse sendo apresentado. Acho que isso contribuiu muito para a energia da noite”.
O mestre-sala, que já defendeu a Morada há alguns anos, destacou o sentimento de retornar à escola e acompanhar uma final de samba-enredo. “Achei tudo maravilhoso. Depois de seis anos longe da Mocidade Alegre e do mundo do samba, poder retornar e prestigiar uma final de samba-enredo como essa é algo que não tem preço. Estou muito feliz e grato por viver esse momento novamente. Agora é trabalhar, porque o Carnaval de 2027 já está aí e estamos ansiosos para ver esse samba na Avenida”.

Segundo Graci Araújo, o casal já iniciou a preparação antes da escolha do samba e agora irá desenvolver a coreografia da apresentação. “Estamos ensaiando desde março. Ainda não temos uma coreografia fechada, mas já desenvolvemos algumas sequências. Hoje temos entre sete e oito prontas. Também pensamos em algumas entradas, embora ainda não na apresentação para os jurados. Agora, com o samba definido, vamos aproveitar parte do que já foi ensaiado e montar a coreografia como um grande quebra-cabeça. O samba sugere alguns movimentos mais específicos, então devemos acrescentar alguns elementos. Mas não esperamos a escolha do samba para começar a preparar a apresentação; esse trabalho já vinha sendo desenvolvido”.
Acerto no samba em busca do campeonato
Comandante da “Ritmo Puro” desde os anos 90, mestre Sombra aprovou a escolha da obra e já projeta a busca pelo título no Carnaval de 2027. “Temos acertado na escolha dos sambas e isso tem dado resultado. Agora é trabalhar, repetir, corrigir e prestar muita atenção aos detalhes para fazer um grande desfile. O Carnaval de 2027 será muito disputado, e não podemos esperar que a vitória venha até nós. Precisamos correr atrás dela”.

Questionado sobre o trabalho após a escolha do samba-enredo, o mestre de bateria revelou que a preparação começa imediatamente. “Toda segunda-feira marca o início do trabalho da direção de bateria junto com a equipe de canto e os técnicos. É nesse momento que definimos cada detalhe, cada pausa, cada entrada, para conduzir aquilo que vai dar ainda mais vida ao desfile da nossa escola”.
Trabalho intenso com a ala musical
Igor Sorriso, que retornou à Mocidade Alegre em 2019, destacou o compromisso de entregar novamente um trabalho de excelência. “O samba-enredo é um estilo musical que se constrói e amadurece com o tempo. Estamos em agosto e temos até fevereiro para evoluir, melhorar e fazer com que ele funcione cada vez mais, encontrando a melhor forma de apresentá-lo. Estou muito tranquilo em relação a isso e tenho certeza de que vamos entregar um trabalho de muita qualidade”
O intérprete revelou que, mesmo antes da final, o trabalho de preparação com os sambas concorrentes já havia começado. “Esse trabalho já começou antes mesmo da final. Pegamos os sambas finalistas, começamos a cantar, testar algumas ideias e fazer alguns ajustes. Agora vamos aguardar o nosso diretor musical, o Fabiano, apresentar o que preparou, porque ele também já vinha estudando algumas possibilidades. Ainda esta semana faremos nossa primeira reunião para acertar os detalhes e fazer esse samba acontecer”.

Como citado anteriormente, a Mocidade Alegre costuma realizar mudanças para adaptar a obra às necessidades do desfile. Igor Sorriso explicou que participa dessas reuniões para aprimorar o conjunto. “Gosto de participar dessas reuniões. Acho importante respeitar a composição original, mas também pensar no que é melhor para a escola. O samba é cantado por um conjunto muito grande de pessoas, então precisamos fazer com que todos estejam na melhor condição possível para entregar uma grande apresentação e conquistar as notas máximas nos quesitos que nos competem”.









