A Imperador do Ipiranga definiu na noite do último sábado o samba-enredo a ser entoado pela escola no Carnaval 2027. O enredo “Xetruá, Boiadeiro! A Saga de Fé e Luz no Cruzeiro de Bom Jesus da Lapa”, já possui música. Os compositores Xandinho Nocera, Nando do Cavaco, André Filosofia, Daniel Covo, Vinícius Nobre, Alcides Jr, Dr Édson, Diley Machado e Ronny Potolsky, assinam o antigo samba 02, agora chamado de samba-enredo oficial da escola para o próximo desfile. A obra vencedora mistura uma série de elementos que o amplo enredo propõe, ao reconectar balanço, história, lirismo, regionalismo e samba em um mesmo balaio digressivo. Presente na final, o compositor Xandinho Nocera explicou ao CARNAVALESCO sobre a construção dos elementos melódicos no samba.
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“A parte do sertão tem um tom mais de lamento. E um destaque ao nosso parceiro Nando do Cavaco, que ajudou muito nessa construção melódica. Essas nuances na parte do ‘vaqueiro, vaqueiro’, são construções harmônicas dentro da nossa parceria. A gente tentou explorar as ruas nordestinas. Tanto que esse refrão de meio, eu falei, ‘ó, e se o refrão de meio a gente fizesse um xote? Um forrozinho?’ Aí o Daniel disse: ‘Para que eu tenho uma ideia de letra’. Ele veio com o vaqueiro, pôs a ideia, a gente lapidou, ajustou e saiu o refrão. E assim como na primeira, ele sai com um tom mais de lamento, que é o povo do sertão que pede clemência, a gente tentou ajustar melodicamente cada parte do enredo no trecho, colocando a parte afro na segunda do samba, que para mim é uma parte de muito destaque. É um samba com um DNA de Imperador. Eu falo que é um samba com a cara da Imperador, com a cara dos melhores sambas da Imperador, que são sambas em tom menor, um samba valente, que a gente fala que é para cantar de braços abertos e de olhos fechados. É esse samba aí”, exemplificou.

Outro dos compositores que celebrou na quadra do Ipiranga foi Daniel Covo. Profundamente emocionado com a vitória dessa parceria, o compositor destacou a riqueza teológica que o enredo concedeu aos compositores, e sua experiência pessoal neste processo.
“Eu sou da religião. Eu sou um umbandista. Eu já conhecia um pouco da história do Seu Boiadeiro. A sinopse veio bem detalhada para a gente, e tivemos facilidade de encaixar as ideias poéticas do Xandinho dentro da história do Seu Boiadeiro, com alguma contribuição nossa. A partir do que a gente imagina, do que a gente escuta também dentro do terreiro, e acabou nisso. A teologia, eu estava até comentando com o Xandinho hoje. A gente é compositor, e ao receber a sinopse, já queremos sair fazendo samba, às vezes sem falar sequer com o carnavalesco. A gente já estava com o samba praticamente pronto. Quando o Anselmo fez a explanação e passou a parte da segunda, percebemos que nossa segunda estava invertida, ou seja, não estava na ordem cronológica dos orixás. Me deitei; orei para meus orixás, acordei de madrugada e refiz a segunda na ordem que meus orixás passaram para mim. Isso é muito da miscigenação do povo brasileiro. Eu aqui, alemão; minha esposa negra, e minhas duas filhas mestiças. Isso é o Brasil. Isso é Imperador do Ipiranga! E isso é o carnaval. Estou muito feliz, e não tenho nem palavras para expressar”, complementou.
Voz do samba-enredo
Antes de a comunidade conhecer o samba-enredo, a cerimônia trouxe uma musicalidade incomum nos sambas Brasil afora. Com a presença de um berrante, que deu som ao enredo e simbolizou o boiadeiro como um raiar de letra e música para o pavilhão, o instrumento cumpriu o papel de um sino que anuncia e de um rufo de tambor que cria suspense. Na sequência, quando a comunidade esperava ansiosamente, o intérprete oficial, Helber Medeiros, mostrou que entende do palco, ao conduzir o Imperador do Ipiranga para o clímax que uma final de samba-enredo representa. Autêntico, presente e enérgico, foi e será na voz de Helber, que a poesia afro-sertaneja e melodiosa ganhará sentido, força e identidade. O cantor refletiu sobre a potente final, e sintetizou tecnicamente o quão equilibrado e plural o samba vencedor é, além das abordagens possíveis para sua interpretação.

“Primeiramente, eu quero agradecer a todos os compositores. Faz três anos que a Imperador do Ipiranga não fazia concurso de samba-enredo. Tivemos uma safra muito bacana. Tínhamos três sambas muito bons na final, e com três vertentes diferentes. É muito bacana poder analisar três vertentes diferentes. O Samba 01, mais curto e para cima; uma melodia muito gostosa de ser cantada. O Samba 02, uma vertente de melodias diversas. Você começa, cai, volta e o refrão explode! E o samba 08, mais um samba gostoso de ser cantado. Foi bem difícil lá na salinha. Demoramos, mas por democracia, o pensamento da Imperador do Ipiranga, que patinava um pouco nessa questão do samba enredo, hoje partiu para um samba exatamente disso: um samba completo que fala de tudo do enredo. Tudo que você olhar na avenida, você vai ver nesse samba. O nosso desfile, você ouve no samba. Foi o que mais chamou a atenção e por isso escolhemos esse samba, justamente por ser um enredo complexo. Eu passei a sexta-feira no estúdio, do meio-dia até às 18h, fazendo laboratório para os três sambas. Eu baixei meio tom do samba campeão para caber na minha textura. Começamos falando do sertão, e trabalhar com vibrato é algo que uso pouco. Eu trabalho mais com a voz aguerrida. A gente começa a falar de religiosidade na segunda do samba. E para nós não perdermos essa garra, vamos manter a sonoridade guerreira, sem essa questão do vibrato. Trabalharemos um pouquinho daquela questão do sertão, porque falamos do Boiadeiro, e precisamos dessa identidade. Esse sertanejo no começo, e depois a parte mais aguerrida; até a subida do samba. Vamos trabalhar essas duas vertentes”, garantiu.
Da música para o desfile
O desfile da escola, marcado para 30 de janeiro de 2027, terá como carnavalesco um velho conhecido. Anselmo Brito retorna à escola azul e amarela para contar a história do Boiadeiro. O artista esteve na finalíssima e elaborou para o CARNAVALESCO sobre a excelência do samba e a vasta dimensão, tanto na espiritualidade quanto na parte artística que o enredo e seu novo samba carregam.

“Imperador do Ipiranga teve a grata surpresa de ser contemplada com uma grande e fantástica obra. O nosso enredo é um leque de possibilidades. Por quê? Porque eu venho contando a saga de um espírito mesmo, que é do Seu Boiadeiro. E eu tenho muita ligação com ele. Eu tenho uma ligação muito espiritual e, quando esse tema chegou na escola, ficou muito claro que a gente queria o quê? Apresentar a história. Não somente a história do espírito, mas o que levou esse espírito a chegar nesse plano espiritual. Nós vamos fazer uma viagem e, nessa viagem, o que nós pedimos para os compositores era que apresentassem uma obra de caminho, de que ele foi um vaqueiro, e que ele viveu no Nordeste, numa região seca e castigada. E, como nós, também um devoto de Bom Jesus da Lapa. Essa história se baseia na espiritualidade dele até chegar nesse plano espiritual. O samba realmente está enquadrado nessas possibilidades. Uma melodia fácil para se cantar, e tecnicamente, fazer a nossa escola trazer nota em evolução e em harmonia”, projetou.
Primeiros passos
Quando o Sambódromo do Anhembi receber o Imperador do Ipiranga para o desfile, o samba-enredo terá a companhia da comissão de frente, que dará os primeiros passos, artísticos e cênicos na avenida. Responsável por este segmento, o coreógrafo Diego Costa, conjecturou a maneira que a música e o enredo dialogam com suas ideias para o Carnaval 2027.

“É interessante, porque fazendo uma analogia com o enredo do ano passado do Ibeji, onde eu estive à frente como diretor de carnaval, esse projeto de 2027 não foge muito, porque o samba tem uma letra mais extensa, mas está contando e narrando perfeitamente o nosso enredo. Não é uma narração em primeira pessoa. Ele está contando a história. A gente começa ali o desfile mesmo! Vai começar com o Nordeste, com a procissão da cidade de Bom Jesus da Lapa, que é a maior procissão que tem no estado da Bahia. E aí, o que que acontece? A gente vai contar sobre a história do Boiadeiro; da entidade deste Boiadeiro. Ele era o chefe dos vaqueiros e vai em busca do seu grande amor, marinha; até ele morrer e passar para o próximo plano. E nessa chegada ao próximo plano, ele vai encontrando orixá por orixá, até chegar no final e acontecer aquela grande gira no terreiro de Aruanda. É um enredo muito fácil e muito autoexplicativo. Vamos iniciar com o Nordeste, o sertão e a seca. Falaremos da flor na procissão, a Romaria até o segundo plano, na parte dos orixás. No ano que vem, vai ser muito fácil de vocês baterem olho e entenderem qual é a proposta da escola”, afirmou.
Ainda sobre os impactos técnicos que o samba-enredo provoca nos passos da escola, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Nogueira e Dani Motta, salientou como eles vêm trabalhando em torno deste enredo e suas impressões sobre o samba campeão da comunidade ipiranguense. O desenho dos movimentos obrigatórios já havia começado e, para Matheus, a melodia é um formidável destaque.
“A gente vem trabalhando desde maio. Agora que o samba saiu, vamos colocá-lo em cima do nosso desenho de pista. É uma melodia gostosa, com as letras espaçadas e sem aquele atropelamento. Vai ser bem funcional para a Imperador do Ipiranga”, opinou o mestre-sala.

Com um pouco mais de spoiler sobre aquilo que casal prepara, a porta-bandeira Dani Motta, observou a criatividade possível dentro do regulamento, além de um gracioso pitaco sobre o andamento do samba vencedor.
“A gente já tem praticamente fechada a nossa apresentação de jurado. Agora, o regulamento da liga pede um movimento cenográfico. Por isso, tem tudo a ver a gente conseguir colocar os elementos que caracterizam o Boiadeiro, o sertão e todos os elementos que acompanham o nosso samba. Vai ficar bem bonito! Já está bem bonito. O samba-enredo casa com a bateria; ficou numa levada muito legal. Agora vamos abraçar o samba e, se Deus quiser, é o samba que vai ser campeão com a Imperador em 2027”, esperançou.
Por falar em bateria
Recém-chegado no Imperador, Wasni Oliveira, o mestre Pelé, fez um apanhado sobre o processo da escolha do samba-enredo da escola. Suas preocupações voltadas ao andamento durante as eliminatórias, e suas percepções iniciais sobre como o samba-enredo escolhido pode dialogar com a identidade da bateria “Só Quem É”.

“Eu procurei me manter mais centrado no andamento, porque foram 36 sambas inscritos. Eu tive que escutar muitos sambas para poder julgar e para poder dar meu voto. Eu procurei entender melhor as melodias e a sinopse do que me apegar. Esse samba tem uns pontos de xote afro. Agora sim, eu vou parar, pegar o samba, dechavar ele todinho na minha mente e entender onde pede o quê. O que precisa? Onde é carreteiro, onde é ‘telecoteca’, onde é forró, onde é afro. Agora sim, eu vou entender. Com calma, eu vou fazer esse trabalho para ajudar a escola, para que a escola evolua e a comunidade cante. Para que a criançada se emocione e para que a harmonia também se dê bem. A partir de agora, começa o trabalho”, revelou.
Palavra do presidente
O presidente do Imperador do Ipiranga, Renato Ribeiro Filho, o Neto, saudou a qualidade e relevância de todos os sambas-enredo que participaram da seletiva, em especial os três finalistas. Ao comentar o quão difícil foi a decisão tomada pela escola, ele relembrou o significado profundo do enredo para a trajetória da agremiação.

“Todos os sambas estão em um nível muito alto e similar. Infelizmente, apenas três foram para a final. Eu vou falar logo. A verdade é que foi muito difícil escolher, porque estavam muito bons. Não tínhamos favoritos e foi uma briga boa para decidir, e quem ganha é a Escola. Eu escolhi esse enredo em homenagem à uma pessoa que é o patrono da escola. Se essa escola hoje está aberta, é por causa dele. É uma homenagem ao meu padrinho e o patrono da minha escola”, reforçou.
Representando a Comissão de Harmonia da escola, Luciana Marcondes, dividiu com o CARNAVALESCO como a diretoria tratou a disputa do samba-enredo, além de traçar sua perspectiva sobre o trabalho daqui em diante, e suas afinidades com o samba que a escola, enfim, levará ao Anhembi.

“Acreditamos desde o começo. Nós recebemos diversos sambas, e houve uma audição interna com muito estudo. Trabalhamos em cima da sinopse, e tentamos ser absolutamente técnicos, no sentido de fazer o melhor para a Imperador. Nós queremos muito! A gente quer brigar para voltar para o especial. O trabalho precisa ser sério, rico em pesquisa e tudo o mais. Temos um carnavalesco próximo, a diretoria acreditando no trabalho da harmonia muito forte, e pesquisa e trabalho andando juntos. O samba é muito completo, de uma forma rica e de acordo com a sinopse. Ele vem com propriedade de letra! Ele tem uma melodia muito boa. Acreditamos que é importante a gente vir com uma melodia para a frente. Queremos a Imperador cantando; a arquibancada cantando. A Imperador é uma escola especial, e não faremos um desfile morno. Precisa ser um desfile para passar de verdade, e transmitir o nosso recado”, encerrou.









