beijaflor enredistas
Foto: Mariano Santos/CARNAVALESCO

Conhecida pela torcida apaixonada, a Beija-Flor busca valorizar as histórias e ideias que partem da própria comunidade. Em conversa com o CARNAVALESCO, no “Samba Enrena”, no Andaraí, os enredistas Guilherme Niegro e Vivian Pereira, que trabalham com Bruno Lauratto, defenderam que o engajamento do chão da escola nasce de um movimento de valorização de seus personagens e da escuta ativa daqueles que fazem a agremiação nilopolitana. Em um trabalho conjunto com o carnavalesco João Vitor Araújo na escola desde 2024, o grupo criativo reconhece o passado vivo da escola. Neguinho da Beija-Flor, Pinah, Neide, Soninha e tantos outros personagens históricos da escola pavimentaram o caminho, mas seguem ativos, apontando a direção para o futuro aos que chegaram hoje. Segundo Guilherme e Vivian, tudo o que é pensado é pensado primeiramente nos baluartes da agremiação.

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Com a sabedoria de quem construiu a história da Soberana, são eles que exigem e mantêm o nível alto da escola, o que mantém a equipe em constante busca por excelência. A torcida da Beija-Flor também não fica para trás: é exigente e sempre considerada nas escolhas.

“Em Nilópolis existem outras atividades culturais, mas o que engloba todo mundo é a Beija-Flor. Eu não conheço um cidadão de Nilópolis que não torça para a Beija-Flor. Nosso desafio, quando sentamos para produzir esse trabalho, é pensar primeiro neles. O que eles gostariam de cantar? Porque, no final, quem vai defender tudo o que a gente constrói são eles. São eles que vão cantar. A importância de pensar primeiro na comunidade passa por isso”, explicou Guilherme.

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“A comunidade da Beija-Flor tem muita história. E que bom que a gente pode olhar para essa história e, de vez em quando, revisitá-la. Olhar com atenção para aspectos que não foram aprofundados no passado. A comunidade também nos serve de guia nesse processo. É uma comunidade muito participativa e expressa claramente o que deseja. Acabou o carnaval e, ainda na quadra ou na Praça da Apoteose, eles já estão dizendo: ‘No ano que vem vocês podem olhar para isso’, ‘Já pensaram em falar sobre aquilo?’. É uma comunidade que participa muito e cobra bastante da gente”, destacou Vivian.

E a enredista ressalta que o sucesso de um carnaval na “Soberana” vem da escuta ativa dessa comunidade. “A gente ouve muito eles. Não apenas o que querem para o carnaval, mas também os valores e a construção desse chão. Ouvir é uma forma de eles também participarem do que estamos produzindo no barracão”, afirmou.

Já Guilherme, cria de Nilópolis, cresceu absorvendo a atmosfera que a escola dá à cidade e entendendo todos os atributos que a fazem ser o ‘rolo compressor’ da Sapucaí. Ao compor o quadro criativo da escola, tem como base a imponência, a força e os sambas marcantes que a escola carrega como característica e que sempre o fizeram admirar a agremiação.

“Todo ano, quando estamos propondo alguma coisa, pensamos nesse nível de excelência que é a Beija-Flor. Não podemos entregar menos do que isso. Nesse sentido, fica mais fácil para a gente, porque passamos a saber do que eles gostam, que também é o que aprendemos a gostar. Quando falamos do Laíla, por exemplo, não o conhecemos pessoalmente, mas sabíamos o que era a Beija-Flor através dele. Os caminhos já estavam ali”, afirmou.

Ouvir a comunidade é entender também relações e personagens que marcaram a história da escola, como o caso de Dona Zeneida, enredo deste ano. A pajé, que fez parte da narrativa contada no desfile campeão de 1998 e será protagonista do enredo de 2027, permaneceu ligada, física e espiritualmente, à escola nesses quase 30 anos. Além disso, a conexão da escola de Nilópolis com histórias que têm o Norte e o Nordeste do país como pano de fundo é vista como ‘sorte’ para muitos torcedores e tem um ‘quê’ de identificação de ambas as partes.

“A Beija-Flor foi muito vitoriosa quando falou dos estados do Norte. Já falou do Amazonas, do Pará, agora com Dona Zeneida, do Amapá e de tantos outros lugares. Quando chegamos nesses estados, somos recebidos com muita festa. A Beija-Flor realmente estreitou esses laços. Para você ter uma ideia, existe um restaurante na Ilha de Marajó cujo nome é uma referência a um enredo da Beija-Flor: Nas Águas do Patu-Anu. Existe uma identificação. São comunidades ribeirinhas, muitas vezes isoladas, que se reconhecem em Nilópolis. Um município distante do centro da cidade, mas que todos os anos sai do seu território para disputar espaço na avenida e reivindicar seu lugar”, explicou Vivian.

A relação com o Nordeste também se destaca na história da escola. A escola já levou personagens de Maceió, Pernambuco e, em 2026, da Bahia, com o enredo sobre o Bembé do Mercado, que ocorre em Santo Amaro. A homenagem estreitou ainda mais os laços entre a escola nilopolitana e a cidade. Mesmo após o desfile que lhes garantiu o vice-campeonato, a equipe da escola também marcou presença no maior candomblé de rua do mundo, no dia 13 de maio deste ano.

“Nessas últimas décadas, a Beija-Flor conquistou muitos torcedores nessas regiões. Quando estivemos em Santo Amaro, por exemplo, várias pessoas nos disseram que torciam para a Beija-Flor, sabiam os sambas, mandavam beijos para o Neguinho, para a Pinah. Essas conexões foram construídas ao longo dos anos. O crescimento da Beija-Flor nessa região foi maior nesses quase 30 anos, e os enredos dialogando com isso são importantes porque a gente vai fidelizando esses torcedores, falando de si, como a Beija-Flor já gosta de falar, e falando do seu povo. É um casamento perfeito citar essas regiões do Nordeste, do Norte do país, que são riquíssimas culturalmente”, concluiu Guilherme.

E, nos espelhamentos que permeiam a relação entre a Beija-Flor, o Norte e Zeneida, há um aspecto principal: a Beija-Flor é uma escola feminina, de grandes personagens femininas, lideranças femininas no barracão e uma equipe de harmonia liderada por mulheres.

A semelhança lança luz sobre a importância de dar protagonismo a Dona Zeneida e contar sua história de luta e liderança. E a narrativa da última pajé marajoara ganha um tom ainda mais significativo ao ser cantada pela Beija-Flor, pois é a única escola do Grupo Especial do Rio de Janeiro que tem uma mulher como intérprete: Jéssica Martin, que dará voz à história de Zeneida na Sapucaí.

“Acho que a voz da Jéssica vai dar a potência necessária para a narrativa que pensamos durante todo esse processo. Ela vai coroar tudo aquilo que estamos construindo. É uma mulher cantando a história de outra mulher que deixou um legado importante para a sociedade brasileira. Quando os sambas saírem e forem interpretados por ela, isso vai potencializar ainda mais a mensagem. Ela será uma mulher dando voz a outra mulher. E isso aconteceu naturalmente. Não foi algo pensado para criar um efeito específico. A ideia de Dona Zeneida veio como um sopro para a gente. E a Jéssica vai engrandecer ainda mais esse enredo. Uma mulher com uma voz extremamente poderosa contando a história de outra mulher igualmente poderosa”, avaliou Vivian.

“A Jéssica representa essa mulher que é a Beija-Flor: soberana, imponente, linda e com uma voz maravilhosa. Quando ela abre a boca para cantar, consegue tudo. Foi um casamento perfeito. O mundo ainda está conhecendo a Jéssica, mas nós já a conhecíamos no dia a dia. É uma continuidade de legado, e esperamos que ela e o Nino permaneçam por muitos e muitos anos na Beija-Flor”, afirmou Guilherme.