guga viradouro
Foto: Alicia Oliveira/CARNAVALESCO

“Você não se torna griô, você nasce griô.” A Unidos da Viradouro, campeã do Carnaval de 2026, vem com seu trabalho metalinguístico trazendo o enredo “Griô”. O objetivo da escola é dar voz àquela pessoa que sempre contou a história dos outros. Mas quem conta a história dessas pessoas? Por meio da parceria com o carnavalesco da Unidos da Viradouro, Tarcísio Zanon, o enredista João Gustavo Melo contou ao CARNAVALESCO como surgiram as primeiras intenções para a criação do enredo e como o mito de Kwaku Ananse, figura responsável pela origem dos griôs, tornou-se um dos pilares da narrativa da escola.

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“Esse mito é um mito da contação de histórias, do início de tudo. Kwaku Ananse era um deus meio aranha e meio humano e, a partir disso, foi pedir histórias a Nyame, que era o deus supremo de todas as histórias. Nyame o desafia a cumprir algumas provas. Após vencer esse desafio, ele entrega as histórias a Ananse, que as espalha por toda a Terra. Ele é considerado, pela cultura ashanti, o primeiro contador de histórias do mundo”, explica o enredista.

João também destacou a felicidade de descobrir um tema que, segundo ele, esteve tão próximo da escola o tempo todo. Além disso, ressaltou a importância de valorizar o carnaval e os poetas que mantêm viva a tradição das escolas de samba.

“Estava muito na nossa cara. Quando a gente descobre essas coisas, fica maravilhado, porque sempre ouvimos falar nos griôs. No Carnaval, é um termo muito usual, só que a gente nunca tinha investigado de onde eles vêm, e eles vêm realmente do Mali, de dinastias e famílias. Não se torna griô, você nasce griô. E aí, a partir disso, nós fazemos um paralelo com o carnaval porque, assim como as famílias dos Djelli, que são essa dinastia, esse clã de contadores de histórias, as escolas de samba também são isso. Elas formam grandes irmandades e, a partir disso, você tem grandes poetas. A escola é como se fosse essa família griô também, que se coloca no Carnaval. Não só a Viradouro, mas todas as escolas de samba que, de uma forma ou de outra, acolhem esses poetas, esses baluartes e essa comunidade. A comunidade também é griô, e toda essa junção forma esse grande griôzão que é o carnaval”, comentou o enredista.

Uma das parcerias mais importantes dentro de uma escola de samba é a formada entre o enredista e o carnavalesco. É nesse encontro que as ideias ganham forma e que o desfile começa a ser desenhado. Questionado sobre sua parceria com Tarcísio Zanon, João Gustavo Melo explicou como funciona o primeiro passo para a elaboração do enredo e revelou os três pilares que sustentam a narrativa da Viradouro para o próximo carnaval.

“O nosso primeiro passo foi fazer o roteiro do desfile. E o roteiro ficou muito diverso, porque a história do griô é o griô contando a sua própria história. Ele ficou muito centrado no panorama da África Ocidental e dessas civilizações da África Ocidental. Quando a gente está falando de griô, está falando de uma parte específica da África. A partir dessa delimitação, fomos contando uma história como se fosse um griô narrando essa trajetória. Obviamente, abrimos pedindo licença a Exu, que representa a oralidade e a comunicação. Pedimos também licença a Nanã, que significa a memória do mundo, e a Iroko, que representa a eternidade e o tempo. O nosso enredo vai se basear nessas três fases, nesses três pilares, e, a partir dessa abertura, começamos a contação de histórias. Contar a história de quem conta histórias. E, mais uma vez, trazemos a metalinguagem, como fizemos no ano passado com Ciça”.

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