
O Vai-Vai realizou o evento de lançamento de seu enredo para o Carnaval 2027. Em um encontro na Casa Sincopada, localizada no bairro da Bela Vista, reduto tradicional da agremiação, a escola apresentou o tema “Os Três Obás de Xangô”, que homenageia os amigos Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé. Por meio das religiões de matriz africana, os três exaltaram com força a identidade da Bahia em suas obras, seja na literatura, na música ou nas artes plásticas. A proposta partiu da diretoria e é assinada pela dupla de carnavalescos Alexandre Louzada e Victor Santos. Louzada retorna ao Bixiga para sua terceira passagem pela escola e será o padrinho de Victor, que estreia no cargo. Em conversa com o CARNAVALESCO, a dupla detalhou o desenvolvimento do enredo para 2027.
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Ajuda valiosa para a construção do enredo
Alexandre Louzada contou que a ideia ganhou força a partir de uma conversa virtual com Paloma Amado, filha de Jorge Amado. “Em um bate-papo pela internet com ela, surgiu o que considero a melhor definição para esse enredo: uma celebração da amizade. São três irmãos, não apenas unidos pela mesma religiosidade, mas que viveram como se fossem gêmeos, caminhando juntos e difundindo sua arte e o candomblé por meio dela. Acima de tudo, Os Três Obás de Xangô celebram uma amizade fraterna que contribuiu para a difusão da religiosidade, da tolerância religiosa e da própria Bahia, projetando sua cultura para o mundo e ampliando seu reconhecimento internacional”, afirmou.
Victor detalhou a narrativa que a escola levará para o Anhembi, destacando a ligação com o Carnaval de 1988, quando o Vai-Vai homenageou Jorge Amado e conquistou o título. “Nosso desfile parte dessa amizade. Jorge Amado tem uma frase muito bonita, que abre a narração do documentário com Lázaro Ramos: ‘A amizade é o sal da vida’. A partir dessa ideia, abordamos três figuras que receberam o título honorífico de Obás de Xangô. Existem outros, já que são doze e o cargo é rotativo, mas focamos nesses três pela relação entre eles. Como mencionamos no encontro com Paloma Amado, parece que são irmãos que se reencontraram nesta vida e traduziram o cotidiano da Bahia para o mundo. Eles transformam o que é simples em algo sofisticado, consumido globalmente na música, na literatura e nas artes visuais. O desfile percorre esse caminho: começa no fundamento de Xangô na Bahia, passa pelo desenvolvimento artístico dos três e culmina no reencontro com o Vai-Vai, especialmente no caso de Jorge Amado, que já foi enredo da escola. Retomamos esse vínculo histórico e propomos um novo olhar, inspirado em ‘País do Carnaval’, criando um desfile a partir dessa amizade, desse legado cultural e desses três grandes nomes da cultura brasileira”, explicou.

Sonho e realidade se encontram no Vai-Vai
Victor revelou que chegou a sonhar com o tema antes mesmo de integrar o projeto. “É curioso contar isso. Em outubro do ano passado, assisti ao trailer do filme, dormi e sonhei com esse enredo no Vai-Vai. Na época, ainda trabalhava no barracão dos Gaviões. Depois da eleição e do carnaval, eu e Louzada já havíamos comentado sobre trabalhar juntos. Quando o Vai-Vai entrou em contato com ele, o enredo já estava definido. Em uma conversa comigo, veio a confirmação de que o tema era esse. Foi algo que me conquistou imediatamente”, contou.
Ciclo de uma obra e admiração pelos homenageados
Victor também ressaltou a importância do diálogo com as famílias e a liberação dos direitos autorais. “Tudo acabou se encaixando muito bem. Conseguimos contato com as famílias, que autorizaram o uso de imagem e das obras. Também fomos até a produtora do filme, que deu sua anuência. Assim, o desfile do Vai-Vai se torna a etapa final do projeto ‘Três Obás de Xangô’. Primeiro vem o filme, depois uma exposição prevista para agosto ou setembro e, por fim, o desfile, que encerra esse ciclo”, disse.
Alexandre Louzada destacou a admiração pelo trabalho dos homenageados e elogiou o parceiro. “Victor é um estudioso de Jorge Amado. Eu sempre fui admirador de Dorival Caymmi e Carybé, artistas que retrataram a vida cotidiana da Bahia com autenticidade. Para quem conhece o povo baiano, fica claro que não se trata de ficção, mas de um retrato fiel. Embora eles já tenham partido, seus personagens seguem vivos nos bares, botequins, cabarés, feiras, mercados e no mar. É impossível não se encantar com um enredo assim, ainda mais pela contribuição que pode oferecer em um mundo onde a convivência tem se tornado mais difícil. A arte deles traduz as religiões de matriz africana de forma acessível, respeitosa e profunda. A escola de samba tem um papel fundamental nisso, pois é uma das formas mais eficazes de contar histórias ao público. Nossa contribuição, assim como a do Vai-Vai, tem grande relevância para o povo brasileiro”, declarou.
Victor também elogiou o empenho da diretoria e destacou o andamento do projeto. “Já temos setores de fantasias definidos, carros alegóricos desenhados e a estrutura do desfile organizada. A direção de carnaval e a de harmonia já trabalham em conjunto. Isso reflete minha experiência na função, já que é difícil separar completamente os processos. A diretoria está muito engajada, até mais do que cobramos de nós mesmos, porque todos querem um carnaval grandioso. Desenvolver esse projeto com esse nível de apoio é muito positivo. Estamos em maio, o barracão já está em atividade e a produção das fantasias começou. Embora o enredo esteja sendo lançado agora, ele já vem sendo desenvolvido há mais de um mês e está bem encaminhado”, concluiu.










