
No Rio de Janeiro, o dia 23 de abril une católicos, umbandistas e candomblecistas na celebração de dois guerreiros: São Jorge e Ogum. Fruto da resistência dos escravizados, o sincretismo entre o santo e o orixá é o que guia as rodas de samba, em que imagens e guias dividem o mesmo altar em busca de caminhos abertos. No carnaval, essa devoção se faz presente para além da tradição; é a fé nos guerreiros que dá a força necessária para enfrentar as adversidades do cotidiano e da Sapucaí.
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Nascido no dia do santo guerreiro, João Drumond é mais um devoto de São Jorge. Recentemente, a relação de fé se intensificou, pois ele passou por momentos delicados, mas não teve dúvidas de que São Jorge estava ao seu lado, intercedendo a seu favor.
“Me sinto abençoado pelo simples fato de ter nascido nessa data tão especial. Santo forte, santo guerreiro. Humildemente, acredito que eu tenha absorvido um pouco dessa força na minha personalidade. Ele cuida de mim! Todas as provações pelas quais precisei passar, eu passei, e São Jorge esteve ao meu lado. É uma coisa que eu não esqueço: eu agradeço a ele por estar ao meu lado. Eu só ando com ele, não saio de casa sem o meu São Jorge, sem o meu escapulário de São Jorge”, contou João Drumond.

Neste ano, João Drumond pretende bater seu recorde de festividades de São Jorge, marcando presença na virada da famosa e tradicional igreja de São Jorge, em Quintino, Zona Norte do Rio, e em diversas feijoadas.
“Eu estou pronto para o dia 23, estou me preparando fisicamente porque vou bater o meu recorde. Vou mirar as 30 feijoadas no dia 23 de abril. Vou começar o meu aniversário já na virada, na igreja de São Jorge, em Quintino, e pretendo rodar todas as feijoadas do Rio de Janeiro nesse dia especial, saudando e agradecendo sempre pelas proteções que ele nos dá todos os dias da nossa vida”, revelou João.
A crença sempre esteve ali, mas foi em um dos momentos mais difíceis de sua vida, a pandemia, que o mestre Vitinho criou um maior vínculo de fé e cuidado com o santo.

“São Jorge mudou minha vida, mudou a visão sobre a minha vida. Toda terça-feira eu acendo meu São Jorge; quando estou com alguma preocupação, eu converso com o São Jorge; quando estou com alegria para compartilhar, a primeira coisa que faço é compartilhar com o meu São Jorge. Muitas pessoas fazem do dia 23 de abril um dia de festejar e beber; eu já levo mais para o lado do afeto, da fé, de ser religioso e acredito que isso é algo que meus filhos acompanham e que já passou para eles”, afirmou mestre Vitinho.
Ele conta que, entre todos os adereços que tem do santo, a imagem de São Jorge no quarto de bateria é a mais marcante, pois é o que dá o caminho para a vida pessoal e profissional.
“Eu abro o quarto de bateria, São Jorge está lá. No dia 23 de abril, eu levo esse São Jorge para minha casa e ele participa da feijoada que eu faço, depois eu o levo de volta… Ele é o meu protetor, o meu guia, o que me dá caminho e sabedoria para seguir em frente, tanto na minha vida quanto no carnaval”, contou Vitinho.
Para ele, a feijoada é uma tradição desde o ano em que a devoção começou, em 2020. No dia 23, ele reúne família e amigos para a renovação dessa fé, mas sempre enfatizando que o primeiro prato é de São Jorge.
“Dia 23 de abril eu paro tudo para cultuar o meu herói, o meu santo guerreiro, meu São Jorge”, concluiu o mestre de bateria.
Foi em 1998, ano em que a Beija-Flor foi campeã depois de alguns anos sem conquistar o título, que Selminha Sorriso se tornou devota de São Jorge. Ela conta que o santo trouxe paz e calma ao seu coração naquele momento e que, há três anos, buscando um local calmo para assistir à tensa apuração, vai à igreja.

“Eu sempre peço proteção e livramentos, para mim e para o meu filho. Tenho certeza de que recebo as bênçãos. Lá (na igreja) eu sinto muita paz e levo o pavilhão da Beija-Flor durante o ano também, sobretudo no dia 23. Sempre tem a oração, a capoeira, o maculelê, a roda de macumba e vários pontos. É muito nosso, é o santo mais amado do Brasil”, afirmou Selminha Sorriso.
Sua devoção não é exclusiva a São Jorge, mas, entre todos, a relação com o santo é a mais forte. “Eu sou devota de Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora da Conceição, São José… mas eu confesso que São Jorge é uma relação muito forte. Eu tenho uma imagem dele em casa, vou lá, peço água benta, compro velas para ajudar a igreja… Sou muito grata a ele mesmo”, revelou a porta-bandeira.
Para essas três figuras do carnaval carioca, São Jorge e Ogum não são apenas reflexos do sincretismo histórico, mas guias de sabedoria e força para abrir caminhos e enfrentar os “dragões” do cotidiano e da Avenida. A relação com o santo é pessoal, mas a força transcendental da figura de São Jorge é muito clara: vai além do rito religioso; ele é parte do alicerce do samba.










