A Rocinha atravessou a avenida com pressa no passo e emoção no olhar. A Acadêmicos da Zona Sul levou para o Carnaval de 2026 o enredo “Alafiou! Caminhos Abertos para a Vitória”, apostando em uma narrativa de superação e fé para sustentar seu desfile.
Desde o primeiro setor, ficou evidente que a escola confiava na força da harmonia para manter o conjunto coeso. E foi justamente no canto intenso dos desfilantes que encontrou sua maior segurança. O samba ecoou com potência, ajudando a empurrar alas e alegorias pela avenida, mesmo quando o relógio começou a apertar.

Nos minutos finais, a correria se fez necessária. A escola precisou acelerar o andamento para não comprometer o tempo regulamentar, transformando tensão em energia. Ainda assim, não perdeu o canto nem deixou a emoção esfriar.
Foi um desfile vibrante, que soube equilibrar organização e improviso. Entre ajustes de última hora e vozes firmes no refrão, a agremiação mostrou que, quando a comunidade sustenta o samba, há sempre um caminho possível.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente chegou impondo respeito. Com canto forte e passos marcados com precisão, os doze integrantes desenharam na pista uma coreografia segura e expressiva. O quesito, liderado por Júnio Barbosa, fez apresentação consistente aos jurados na madrugada de terça-feira, na Intendente Magalhães.
Divididos em representações de orixás, figuras encapuzadas de preto e uma borboleta — símbolo maior da Acadêmicos da Rocinha —, os bailarinos ocuparam a avenida com intensidade. Durante toda a performance, entoavam o samba enquanto marcavam o chão com pisadas firmes, criando atmosfera de força e presença.
Um dos momentos mais impactantes veio na troca de figurino de seis bailarinas. Em movimento sincronizado, retiraram as capas pretas e revelaram vestidos prateados, numa virada visual que chamou atenção imediata. As capas eram depositadas em um cesto carregado por outra integrante, compondo a cena com organização e efeito teatral.
Nas quatro cabines, a comissão manteve o padrão: apresentações técnicas, bem executadas e com boa leitura cênica. Um cartão de visitas que uniu vigor, simbolismo e precisão logo na abertura do desfile.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Bela apresentação do casal Rodrigo França e Manu Brasil, que defendeu o pavilhão da Acadêmicos da Zona Sul com segurança e elegância. A dupla soube utilizar bem o espaço da pista, demonstrando sintonia e credibilidade em cada movimento.
O giro da porta-bandeira foi coeso e firme, enquanto o mestre-sala executou cortejo bem marcado, valorizando o pavilhão e respeitando a liturgia do quesito. Havia harmonia nos olhares, precisão nos gestos e confiança na condução da coreografia.
O figurino também se destacou: muito bonito, trazia as cores da escola em composição equilibrada, criando conjunto visual que dialogava perfeitamente com o pavilhão. Um quadro plástico bem resolvido, que reforçou a força da apresentação.
EVOLUÇÃO E HARMONIA
A Acadêmicos da Zona Sul apostou na força da comunidade e encontrou, no canto empolgado dos desfilantes, um dos pilares do desfile. Quase todas as alas evoluíram com entusiasmo, sustentando o samba em voz alta e mantendo a energia da pista acesa ao longo do percurso.
Nem todos os setores, porém, acompanharam o mesmo ritmo. As baianas, que vinham à frente da escola, deixaram a desejar no quesito canto. Evoluíram com dignidade, mas praticamente não cantaram, criando contraste perceptível com o restante da comunidade.
A harmonia assumiu a responsabilidade de balizar o desfile, ajustando espaços e corrigindo pequenos desalinhamentos. Esse esforço impactou o andamento geral. Nos minutos finais, a escola precisou acelerar de forma mais intensa e passou muito rápido diante da última cabine, numa corrida contra o relógio que quebrou parte da cadência construída ao longo da apresentação.
Ainda assim, ficou a imagem de uma escola vibrante, que contou com sua gente até o fim, mesmo quando o tempo exigiu mais pressa do que o samba gostaria.
OUTROS DESTAQUES
A bateria da Acadêmicos da Zona Sul, sob o comando do mestre Júnior, entrou vestida de ogã, impondo presença e reforçando a identidade cultural do enredo. Com afinação segura, sustentou o samba que vinha forte da comunidade, mantendo cadência e energia durante todo o desfile. Um momento especial foi a participação de mestre Lolo, da Imperatriz Leopoldinense, que trouxe brilho extra à apresentação.
Enquanto a bateria mostrava firmeza, a diretoria demonstrava apreensão. Já na metade do desfile, havia preocupação com alegorias que ainda não tinham entrado na avenida. A tensão só se dissipou no fim, quando a escola conseguiu completar o percurso dentro do tempo regulamentar, mesmo precisando acelerar nos últimos minutos. A emoção tomou conta da direção, refletindo a entrega de todos que trabalharam para que, no improviso e na pressa, o samba e a tradição prevalecessem.










