A Acadêmicos do Grande Rio levou à Marquês de Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, do carnavalesco Antônio Gonzaga, de densidade política e potência simbólica, ao transformar o mangue em metáfora de origem, resistência e revolução cultural. Inspirada no movimento manguebeat e atravessada pelo pensamento de Chico Science e Josué de Castro, a escola construiu um espetáculo visualmente marcante, mas que apresentou oscilações importantes nos quesitos técnicos. A execução, no entanto, alternou momentos de impacto e trechos de rendimento morno.
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COMISSÃO DE FRENTE
Concebida por Beth Bejani e Hélio Bejani, a comissão de frente apostou em forte teatralidade. O grupo, numeroso, ocupou quase uma passada e meia do samba. A coreografia começou com os bailarinos no chão, vestidos em tons alaranjados, executando movimentos marcados que remetiam ao trabalho no manguezal. Quatro grandes tripés cenográficos em forma de caranguejos cercaram o corpo central de baile, que realizou giros e movimentos circulares, simbolizando o pulsar do ecossistema.

A transformação do figurino sob luz cênica, que ganhou efeito neon, revelando detalhes orgânicos inspirados nas raízes e texturas do mangue, foi um dos pontos altos da apresentação. Um tripé de grandes proporções, com iluminação e painel de LED ao centro, trouxe a representação de Nanã acima da estrutura, reforçando a dimensão ancestral do enredo. Porém, no momento da ativação da luz cênica, a imagem acabou mergulhada na escuridão, prejudicando o impacto visual planejado.
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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
No “Bailado Nupcial dos Mangues”, inspirado na obra “Homens e Caranguejos”, Taciana Couto e Daniel Werneck apresentaram uma dança conectada à proposta do enredo. Em figurinos roxos, associados a Nanã, o casal trouxe movimentos que dialogam com a ideia de entrelaçamento das raízes e fecundação simbólica.

A apresentação, contudo, começou sob tensão. Nos primeiros 15 segundos, Taciana pareceu enfrentar dificuldades com a bandeira: houve erro no primeiro movimento e demora para desdobrar o pavilhão no segundo, com a bandeira entrando desalinhada. O momento gerou apreensão, mas o casal recuperou a concentração e concluiu a exibição com sincronia e conexão, cumprindo bem o restante da performance.
HARMONIA
A escola apresentou boa resposta de canto nos primeiros setores. O samba foi sustentado com força pelo intérprete Evandro Malandro, que conduziu a obra com potência vocal e segurança, características que já marcam sua trajetória. A bateria de Mestre Fafá executou um trabalho consistente, com bossas bem distribuídas que evitaram a monotonia rítmica. O andamento se manteve firme.

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Por outro lado, a harmonia não foi uniforme. Em determinados trechos, os componentes demonstraram menor intensidade no canto. A ala de passistas sambou pouco, aparentemente limitada pela estrutura da fantasia, especialmente na região do busto, que exigia sustentação manual e comprometia a fluidez do samba no pé. Curiosamente, no último setor, a escola apareceu menos engessada e mais empolgada, mas a sensação geral foi de um desfile que não atingiu o ápice de energia esperado.
EVOLUÇÃO

A evolução transcorreu sem grandes atropelos ou buracos visíveis, mas também sem explosão. Em alguns momentos, componentes caminharam em vez de desfilar, o que impactou a leitura estética da escola. A partir do segundo setor, o rendimento caiu e a apresentação perdeu pulsação, reforçando a percepção de queda de temperatura.
ALEGORIAS E FANTASIAS
Visualmente, a Grande Rio manteve sua assinatura plástica. Alegorias e fantasias exploraram detalhes vazados, palhas, texturas orgânicas e uso expressivo de iluminação, especialmente LEDs integrados aos figurinos. O efeito dialogou diretamente com a proposta de mangue ancestral e cidade conectada por parabólicas simbólicas.

As fantasias eram imponentes, mas algumas aparentavam peso excessivo, o que pode ter influenciado tanto na evolução quanto no desempenho de alas específicas. No quesito acabamento, houve falhas perceptíveis. A segunda alegoria apresentou exposição de ferragens e avarias na estrutura na parte superior, comprometendo a leitura estética em determinados ângulos.
OUTROS DESTAQUES
A velha guarda desfilou no chão, vestindo as cores tradicionais da escola, trazendo elegância e pertencimento ao cortejo. Já a rainha de bateria, Virgínia Fonseca, em sua estreia, chamou atenção, mas pareceu enfrentar dificuldades com a fantasia e quase não sambou durante a passagem.









