Mesmo em territórios distintos, as questões dos caxienses e povos do mangue de Pernambuco se perpassam. O desfile da Grande Rio construiu um paralelo entre os povos do mangue, e na terceira ala, as semelhanças sociais se escancaram.

Os pescadores do Mangue se encontram aos de Caxias, onde a profissão é significativa para a economia da cidade. A fantasia trazia elementos da vida dos pescadores, como o uso de cores claras, chapéus de palha, e estandarte com os frutos de um dia de trabalho. A escola também trazia relação com o conceito sociológico “sociedade do mangue”, de Josué de Castro, que afirma que a população do mangue está entre a estrutura agraria feudal e a capitalista, mas sempre a margem do desenvolvimento econômico.

O fato ressoa com a comunidade de Caxias, ao refletir sobre a situação social de muitos bairros da cidade.

Maria de Fátima Sousa, conhecida como Fafá, está em seu segundo ano na agremiação e destaca a situação das enchentes e a pobreza que afeta alguns bairros de Caxias.

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“Essa enchente do mangue vem tudo a ver com relação a Caxias. A cidade tenta melhorar, produzir coisas melhores, mas a enchente, a chuva sempre acontece, de um lado ou do outro”, afirmou.

Entretanto, o carnaval se torna um meio de resistir à medida em que se denuncia as mazelas da sociedade.

“Eu acho lindo o carnaval fazer a pessoas se unirem, sair do sofrimento, porque viver assim é muito sofrimento. A Grande Rio leva as pessoas a saírem da pobreza, que é uma parte de Caxias, e se alegrar”, disse.

A componente Alicia Martins opina que a temática abordada pelo enredo, e alas que retratam o tema tão próximos da realidade do caxiense, podem trazer reconhecimento e tocar em lugares profundos na mente do público.

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“A gente mostra aqui na ala, a sociedade do Mangue e podem ter ‘mangues’ no Rio de Janeiro, no caso, e as pessoas podem nem reconhecer isso, aí olhar e falar, “nossa, eu também sou do Mangue, também sou filho da periferia”, isso é muito importante”, declarou.

Ao trazer enredos que levam a reflexão, o carnaval assume seu viés pedagógico. A componente, reforça que o poder de ensino da festa amplia olhares e promove pertencimento.

“Essa junção das cidades parte de pertencimento e de reconhecimento também. E ser trazida dessa forma pedagógica para as pessoas é muito importante porque o Carnaval é ensino, é trazer visibilidade às pessoas que estão à margem, é entender que não romantizando, mas que tem uma outra visão por trás disso tudo”, refletiu.