O último carro da Vila Isabel encerrou o desfile transformando a Sapucaí em um encontro entre Brasil e África, entre memória e presente. A alegoria partiu da afirmação que marcou a trajetória do homenageado, “Eu sou Heitor dos Prazeres”, para construir uma imagem monumental do artista que atravessou o samba, as artes visuais e a história cultural do país. No centro desse momento esteve Heitor dos Prazeres Filho, emocionado ao representar a família no encerramento do cortejo.

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Detalhes da alegoria da Vila Isabel
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A proposta do carro celebrou a ida de Heitor ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, em 1966. Elementos inspirados nas artes africanas se misturaram a referências da favela e do quilombo, criando uma fusão simbólica entre territórios de resistência e criação cultural. Uma grande escultura com lanças transformadas em pincéis destacou a altivez do artista. Casas de madeira crua dialogaram com tramas artesanais, enquanto, na parte traseira, a pintura inacabada “Feira de Dakar” apareceu ao lado da assinatura do homenageado.

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Heitor dos Prazeres Filho
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A presença de Heitor dos Prazeres Filho no último carro deu ao encerramento um peso ainda mais simbólico. Emocionado, ele falou sobre o convite e o que significou atravessar a Avenida representando o pai.

“Foi gratificante, foi uma honra ser lembrado e estar aqui representando o mestre junto com a minha família, meus filhos e minha esposa. É muito especial. Quando recebi o convite senti uma alegria imensa, uma emoção muito grande, só coisa boa. Eu convivi com ele desde criança, tocando e sambando ao lado dele desde os cinco anos de idade. É mais do que um pai, é uma referência de vida. Esse momento é emoção. E na Avenida a gente segura cantando, sorrindo, chorando, vivendo tudo o que a emoção provoca”, afirmou.

Isaac
Isaac Dahora
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

No alto da alegoria, o ator e pesquisador Isaac Dahora deu vida ao homenageado e destacou o encontro entre arte, pesquisa e carnaval: “Foi uma honra muito grande. Como pesquisador, eu sei quem foi Heitor dos Prazeres e ele está presente inclusive na minha pesquisa de doutorado. Não foi coincidência, foi uma confluência. Já trabalhei com os carnavalescos em outro momento e agora represento esse homem tão importante. Eu me senti interpretando um artista múltiplo, que expôs na Bienal de São Paulo, que esteve à frente do seu tempo e que não foi reconhecido como deveria em vida. Para mim, isso é missão e vocação. Eu sou apaixonado por Carnaval e quero sempre contribuir com ele de alguma forma”.

curadora chefe do Museu de Arte Moderna do Rio Raquel Barreto
curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto, também integrou o carro e ressaltou a importância de reafirmar o lugar de Heitor na história da arte brasileira.

“É uma alegria muito grande. Eu venho das artes visuais e já participei de uma exposição dedicada ao Heitor. Sempre trabalhei para redimensionar esse artista gigante, que muitas vezes foi colocado em um lugar menos importante. Hoje ele recebe o destaque que merece. Estar nessa alegoria, que mistura favela e quilombo, é fazer parte de um legado de luta e de afirmação cultural. É um projeto coletivo que fala de democracia e de reconhecimento. Ver o nome de Heitor sendo celebrado dessa forma é emocionante”, afirmou.

Leni Ferreira
Leni Ferreira
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Entre os componentes, Leni Ferreira resumiu o sentimento coletivo de quem atravessou a Avenida no último carro. “Representa tudo. É mostrar a nossa garra, a nossa cor, a nossa história. Quando o samba fala da Vila negra, eu me sinto parte disso. Eu não sou só componente, eu faço parte dessa história”.