O giro de uma baiana vai além do movimento corporal: carrega o resgate da tradição do samba e a memória daquelas que abriram suas casas para que ele nascesse nos fundos do quintal. Segunda escola a desfilar nesta terça-feira, a agremiação prestou homenagem a Heitor dos Prazeres e evocou, na ala das baianas, uma figura central dessa história: Tia Ciata, matriarca do samba. Foi ela quem consolidou a tradição do “fundo de quintal”, transformando sua casa em espaço seguro de fé, encontro e celebração da cultura negra.
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E foi lá, no terreiro de Tia Ciata, que Heitor dos Prazeres a reconheceu como mãe de santo. Na avenida, a ala das baianas, “Mães de Santo, Mães do Samba, Mães Baianas”, surgiu como guardiã desse legado. A fantasia destacou o amarelo intenso em referência a Oxum, orixá de cabeça tanto de Tia Ciata quanto de Heitor.
A diretora Vera Lúcia Belandi, 78 anos, está no comando da ala há 25 anos. Ela acredita que as baianas estão nesse papel de manter o legado não só da escola, mas da ancestralidade que Heitor retratava em suas obras.
“A imagem da Tia Ciata pra mim é ancestralidade, porque eu acho que o giro da baiana é a limpeza da avenida. Quando elas giram pra direita, elas vão limpando. Então é uma ala que não pode faltar no carnaval porque elas abrem e limpam os caminhos”, afirmou Vera Lúcia.

Tânia Machado, aposentada de 66 anos, estava emocionada com sua fantasia, que representava Oxum. Para ela, as baianas têm o compromisso em preservar e proteger o legado das matriarcas do samba, sobretudo, por ser o aprendizado que sua ancestral, Tia Ciata, deixou.
“Ela foi uma grande mulher, uma negra com personalidade fortíssima. Eu estou me sentindo muito feliz em estar representando o orixá dela que é Oxum”, disse Tânia.

Cátia Antunes, 48 anos, desfila na Vila há 11 anos e se sentiu arrepiada de tanta emoção por homenagear a pioneira das rodas de samba. Ela reverenciou a mulher que abriu portas para que todas as outras pudessem ocupar espaços no samba.
“Tem toda a história de ser uma mulher negra. A gente sabe que tinha esse preconceito na época… uma mulher negra, pobre. Ela é tudo para gente. Acho que para qualquer sambista Tia Ciata é o máximo”, declarou.
O depoimento de Cátia ecoa a proposta do enredo, centrado nos sonhos e em sua concretização. Professora, ela recordou que vestir a saia de baiana era um desejo cultivado desde a infância.
“É o sonho daquela menina pequenininha que, quando via as baianas ensaiando na rua e a saia delas esbarrava, eu olhava pra minha mãezinha com o olho brilhando e falava: “Mãe, eu quero, eu quero!”. Ela falava: “Um dia você vai ser”. E hoje eu tô aqui, graças a Deus”, contou Cátia.

Ana Conegundes, costureira da ala das baianas, de 61 anos, desfila pela Vila há 18 anos e sentiu a responsabilidade e emoção em estar representando a Oxum de Tia Ciata.
“É uma ancestral nossa, aquela que veio primeiro. É por ela que nós estamos aqui, por ela essa festa é a maior do mundo. Foi ela que defendeu o samba, que colocou nos quintais dela as pessoas que estavam iniciando no samba. Foi ela que colocou na rua os primeiros cortejos de carnaval. É uma responsabilidade e um prazer muito grande poder representá-la, declarou Ana.
Mais do que uma representação, a ala atravessou a Sapucaí mostrando que o legado de tia Ciata se mantém vivo nos giros de suas saias.










