A Paraíso do Tuiuti abriu os desfiles desta terça-feira de Carnaval na Marquês de Sapucaí em busca de seu primeiro título no Grupo Especial. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumí”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, a escola propôs um mergulho na espiritualidade afro-brasileira e afro-cubana. No quinto carro alegórico, a agremiação apresentou a expansão da rama caribenha que fez do Brasil uma grande Egbé.

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CARRO 2
Detalhes alegoria
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ele simbolizou a presença do Ifá Lucumí em solo brasileiro e sua missão de levar a palavra de Orunmila ao mundo. No alto da alegoria, um globo terrestre formado por esculturas de pessoas de diferentes partes do planeta, concebidas sob estética iorubana, reforçava a ideia de conexão. Acima de todos, a escultura de Orunmila, inspirada na obra de Carybé no Mural dos Orixás, surgia como guia do destino sagrado da paz.

Para falar sobre a importância do enredo, participaram Diogo Andrade, 40 anos, analista de sistemas, estreante na Sapucaí pela Tuiuti; O criador de conteúdo Juninho Silva, também em sua estreia no desfile da escola; e Diego Moreira, 45 anos, professor, com mais de 30 anos de Carnaval — e cinco deles dedicados à agremiação.

A importância de levar a religiosidade cubana para a Avenida

Para Diogo Andrade, a escolha do tema mantém a tradição da escola em abordar questões profundas e atuais. “A Tuiuti tem tradição de trazer enredos políticos. E acho que mais uma vez ela traz isso e é muito importante a gente mostrar isso na avenida. Eu acho que enaltece a cultura”

O criador de conteudo Juninho Silva
O criador de conteúdo Juninho Silva
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Juninho destacou que as diferenças entre Brasil e Cuba diminuem quando se trata de religiões de matriz africana: “Eu não sei se é exatamente tão diferente, inclusive quando se está falando da religião de matriz africana. Então eu acho que a importância é mostrar essas similaridades de perspectiva do religioso que o brasileiro tem em comum com outros povos que também são povos da matriz africana. Então acho interessantíssima essa união”.

Diego Moreira ampliou o debate ao relacionar o enredo com a diáspora africana e sua herança cultural global.

“Eu acho super importante, porque quando a Tuiuti faz essa empreitada de trazer uma outra religiosidade é para poder buscar um entendimento de que a presença africana de todas as pessoas que saíram de diferentes lugares da África contribuíram para a religiosidade não somente brasileira, mas que a gente pudesse ter, pela diáspora e pela luta de todas as pessoas negras envolvidas nesse processo, uma representatividade, um patrimônio cultural que não é só brasileiro, mas acaba sendo mundial”, afirmou.

“Quando você liga Cuba, Brasil, você liga Nova Orleans, você liga lugares diferentes do mundo, você vê como essas pessoas, apesar de terem tido vidas extremamente sofridas, terem tido que lidar com a violência, tiveram que sobreviver do jeito que conseguiam. Elas deixaram um legado que grande parte da música, da dança, das artes de modo geral no mundo bebe dessa fonte até hoje”, concluiu.

A conexão entre povos por meio das religiões de matriz africana

A conexão entre povos por meio das religiões de matriz africana

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FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Diogo Andrade ressaltou a necessidade de respeito diante da repetição histórica de perseguições. “A gente percebe que a história se repete ao longo dos países. E é isso que a Tuiuti vai contar um pouco do Ifá em Cuba. Eu acho que a gente deveria prezar mais pelo respeito, pela igualdade. Não importa qual é a religião, a cor, o gênero, o que importa é que são pessoas. A gente deveria respeitar as pessoas, mas não é o que a gente viu no passado e, infelizmente, a gente está vivendo um momento muito triste com relação a isso, tanto no nosso país como em outros países, onde, por diversas situações, as minorias vêm sendo perseguidas. Eu espero que a gente possa ter um futuro melhor”.

Juninho Silva enxergou na religião um caminho de reconhecimento e reencontro. “Eu acho que é a forma como nós, pessoas pretas, nos reconhecemos, apesar de toda a diferenciação social por conta do que a gente absorve como sistema. Então quando a gente está falando da religião, eu acho que é uma forma de que todos nós nos encontramos num caminho de volta para casa. Eu acho que é um pouco disso”.

Carnaval como espaço de união e troca

Ao refletir sobre o papel do Carnaval, Diogo Andrade ponderou sobre as contradições da festa: “O Carnaval é um pouco disso, eu acho que o Carnaval traz isso para a gente, mas ao mesmo tempo eu também acho que tem um lado comercial no Carnaval que também dá uma separada. Quando você vê, por exemplo, camarotes, essa união não é tão grande como você vê no desfile. E eu gosto muito do desfile, gosto muito da arquibancada, porque eu acho que traz essa união de povos e uma igualdade. Todo mundo é igual naquele momento e pode ser feliz, cantar e aproveitar”.

Juninho acredita que a essência da festa está sendo retomada: “A perspectiva do Carnaval sempre foi essa, de união de povos. Eu aprendi a gostar do Carnaval através desse ponto de vista. Infelizmente ele andou por algum tempo se perdendo, mas eu acho que ele está tentando voltar para casa. Então eu acho bacana isso”.

Diego Moreira 45 anos
Diego Andrade
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Diego Moreira reforçou o papel histórico da festa como espaço de resistência e representatividade: “Com certeza. Toda a nossa musicalidade vem de uma matriz africana, de matriz indígena, nesse lugar de sobrevivência, de muitas mulheres que estavam envolvidas no passado e homens também que resistiram dentro desses projetos no nosso país que não incluíram essas pessoas”, afirmou.

“Foi através do Carnaval que ergueram a representatividade, mesclando culturas e dando um dos maiores patrimônios mundiais que é o Carnaval carioca”, concluiu.