A Viradouro conseguiu combinar técnica e emoção para realizar talvez a maior homenagem feita na Sapucaí. Homenageando um artista vivo, com saúde, que ainda comanda um quesito e que tem muita história nessa agremiação, foi certamente um dia histórico por diversos motivos e, entre eles, por Moacyr da Silva Pinto. O mestre Ciça, por duas vezes, passou pela Sapucaí em êxtase. Não foi só pela homenagem, mas pela quantidade de momentos emocionantes que o desfile teve e pelo alto nível que a Viradouro imprimiu em todos os quesitos. A escola esteve inteiramente focada em fazer o melhor possível pelo mestre “Caveira”. Apesar do desfile primoroso, a quarta alegoria, “Legado do Mestre Caveira”, passou aparentemente com um problema técnico, pois a caveira no meio do carro, que segurava uma caixa de guerra, estava afundada na tumba, esteticamente mostrando um buraco.

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Com o enredo “Pra Cima, Ciça”, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, a Viradouro foi a terceira escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de desfiles do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.

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COMISSÃO DE FRENTE

Desenvolvida e coreografada por Priscilla Mota e Rodrigo Negri, o “Casal Segredo” talvez devesse pensar em trocar o apelido para “Casal Ciça”. Um trabalho espetacular. Eles gostam de fazer o que ainda não foi feito. A comissão trouxe a história de vida de Ciça ainda no coração do Estácio, com os malandros iniciando a apresentação no chão, com o menino Moacyr, ainda moleque, despertando-se para o universo do samba. Em seguida, o Leão do Estácio aparece, símbolo maior da escola, saindo do elemento cenográfico que se revestia em um apito dourado e vazado. O leão interage com os malandros e com o menino. Debaixo do elemento cenográfico saem enormes surdos.

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O menino sobe em um deles, e esses instrumentos se movimentam pela pista, interagindo com os outros componentes que ainda sambam no chão. O menino samba em um deles até que os malandros se aproximam, o encobrem e, junto deles, surge mestre Ciça, não um ator, mas o próprio mestre, para delírio de todos. Em seguida, todos sobem no elemento; o apito vira o arco da Praça da Apoteose e, do meio, Ciça é erguido bem alto, com uma grande explosão na arquibancada e enormes serpentinas pintando as arquibancadas dos setores embaixo dos módulos de vermelho e branco.

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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Julinho Nascimento e Rute Alves trouxeram o pioneirismo da “Deixa Falar”, escola que daria origem ao Estácio, pioneira como escola de samba. A fantasia misturava realeza e ancestralidade nos tons de dourado e palha.

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O pioneirismo da Deixa Falar, cria do Estácio de mestre Ciça, dava-se também na forma como foi estruturada a sua formação rítmica, com um samba mais firme, “pra cima”, uma batida mais urbana. Na coreografia, a dupla já entrou no módulo com muita energia, com giros firmes e intensos antes de apresentar o pavilhão. Com muita doçura, a dupla se procurava na dança, trazendo passos de alta dificuldade, feitos de forma muito eficiente e limpa.

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Como já é costume, Rute trouxe muitos giros, bem executados, com intensidade e utilizando todo o espaço disponível para a apresentação no módulo. Já Julinho é muito completo, elegante com seu bastão, com postura ímpar, acompanhando a porta-bandeira por toda a área de apresentação. O ponto alto foi o passo afro em “Atabaque mandou me chamar” e o final arrebatador, com a bandeira desfraldada para mestre Ciça, que chegava da comissão logo à frente. Apresentações nos módulos de alto nível e sem intercorrências.

ENREDO

“Pra Cima, Ciça!” mostrou a Unidos do Viradouro celebrando uma personalidade vital em sua própria trajetória: o sambista Moacyr da Silva Pinto, artista do nosso Carnaval. Ao completar 70 anos de vida e 55 anos de seu primeiro desfile, mestre Ciça cruzou a Sapucaí em um enredo histórico, no qual um mestre de bateria em pleno ofício é homenageado pela própria escola em que trabalha. Enredo completo, com a vida e a obra deste gênio, de fácil assimilação e muito nostálgico. Viam-se momentos históricos vividos por Ciça na Sapucaí com a nova roupagem prometida por Tarcísio.

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O primeiro setor mostrou um autêntico movimento modernista nascido nos morros, com exímios músicos dos terreiros pintando no Carnaval uma nova tela ao encourar instrumentos percussivos em pele e fogo. O segundo setor mostrou a disputa carnavalesca de 1989 pela Estácio de Sá, quando Ciça estreou como o Rei dos Naipes, com escudeiros fiéis que seguiram o comando de sua batuta.

Em seguida, a Viradouro apresentou o “Maestro do Morro”, imprimindo em cada bateria o registro da ousadia de uma mente que nunca deixou de inovar: pausas de mil compassos, joelhos abaixo, instrumentos para cima. O quarto setor mostrou os fantasmas do percurso, as glórias do ofício, o mestre como lenda viva para os que embarcam no balanço do Caveira. O encerramento deu-se em uma literal “apoteose”, celebrando o homenageado como exemplo dos valores que sustentam o samba verdadeiro: alegre, desvairado, apaixonado, da favela, popular, da amizade, do improviso, da disciplina, do jogo de cintura, do coletivo e da generosidade. Nesse final, a comunidade agradece ao mestre pelos ensinamentos.

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EVOLUÇÃO

Iniciar o desfile com signos do samba, como passistas, ala de bambas e baianas, mostrou-se bastante acertado. Desde o início, a evolução foi alegre e já com uma pegada que mantinha a escola se movimentando na Sapucaí em um ritmo para a frente, como o samba. Sem apresentar buracos e tendo Ciça aparecido em dois momentos do desfile, a Viradouro deu um show no quesito, sabendo dosar bem os momentos para que tudo acontecesse como o planejado. Organizada, mas pulando carnaval, a escola passou pela Sapucaí com fluidez e muita técnica. Nenhum problema foi observado durante os 79 minutos de desfile.

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HARMONIA

O carro de som da Viradouro, comandado por Wander Pires, mostrou alto nível de musicalidade, referendado pelo rigor com que o cantor trabalha, assim como pela direção musical. É um trabalho que exala na Avenida correção e exigência para que tudo seja feito com perfeição musical. As vozes de apoio estavam muito bem encaixadas, Wander aproveitando tudo o que o samba lhe podia oferecer, fazendo terças e vocalizações de grande valor musical, principalmente no trecho “Atabaque mandou te chamar / No alto, vai resistir a caixa de Moacyr / legado do mestre Caveira”. Lindo demais, e o canto da comunidade acompanhou, como não poderia ser diferente, para o mestre Ciça. Aqui, nesse quesito, também nada a se retirar.

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SAMBA-ENREDO

A obra que a Viradouro levou para a Sapucaí foi composta por Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Rodrigo Gêmeo, Lucas Neves, Rodrigo Rolla, Ronaldo Maiatto, Bertolo, Silvio Mesquita, Marcelo Adnet, Thiago Meiners e Alessandro de Malta. Com um andamento do gosto de mestre Ciça, bem para a frente, o samba prima por uma linha melódica mais complexa, com ar nostálgico.

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A obra conseguiu imprimir um bom ritmo, que deu vida e não deixou o desfile arrastado, sem perder sua riqueza harmônica. No trecho “Sou eu mais um batuqueiro”, houve uma bossa apenas com o surdo como tambor a tocar pelo mestre. O samba rendeu ainda mais do que nos ensaios e foi uma explosão desde os primeiros versos, que Wander Pires fez questão de deixar para o público, recurso que aconteceu diversas vezes no desfile. Em alguns momentos, apenas o surdo e a voz do componente. “Se eu for morrer de amor”, o refrão principal, foi a parte cantada com mais energia.

ALEGORIAS

Com um conjunto alegórico primoroso, de alta qualidade de acabamento e utilização de diversos recursos, como a movimentação humana no segundo carro, Tarcísio conseguiu retratar o enredo trazendo luxo e volumetria, mas com carros que tinham, além de tudo, sensibilidade. Apesar do desfile primoroso, a quarta alegoria, “Legado do Mestre Caveira”, passou aparentemente com um problema técnico, pois a caveira no meio do carro, que segurava uma caixa de guerra, estava afundada na tumba, esteticamente mostrando um buraco.

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O abre-alas trouxe uma favela que se iluminava em noite de Carnaval e inspirava o sonho do pequeno Moacyr. A alegoria reproduziu a atmosfera lírica do morro de São Carlos a partir da visão do menino folião, em que barracos se apresentavam como tambores, a fiação se assemelhava a serpentinas e baquetas e chocalhos formavam os postes de luz. À frente do primeiro chassi, o icônico leão projetou-se coroado como símbolo da pioneira agremiação Deixa Falar e seu legado, que reviveu na antiga Unidos de São Carlos e, posteriormente, no G.R.E.S. Estácio de Sá.

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A segunda alegoria era extensão visual do abre-alas, trazendo elementos semelhantes em unidade à ideia contida no primeiro chassi. O terceiro carro trouxe uma alegoria em homenagem ao “Trenzinho do Caipira”. Nessa representação do primeiro campeonato conquistado pela agremiação de mestre Ciça, a musicalidade do Modernismo foi representada por uma locomotiva que conduzia um dos mais importantes personagens do desfile: o povo nas arquibancadas, que agitava bandeirinhas como acontece na Sapucaí. O carro tinha recurso de movimento humano.

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A quarta alegoria, que contou apenas com mulheres, também prestou homenagem às ritmistas da Furacão, Mari Braga e Bia Tinoco, que tiveram destaque no desfile de 2020 ao tocarem atabaques durante uma das bossas. Assim, louvou-se a presença constante de mulheres na bateria de mestre Ciça. No quinto carro estavam presentes mestres de outras baterias, ritmistas e amigos que formam o “Bonde do Caveira”, legião de batuqueiros a pulsar pelo mestre. O carro trazia uma caveira estilizada e, na frente, os mestres de bateria das 12 agremiações do Especial, uma das cenas mais bonitas do desfile, além de amigos como Zé Paulo Sierra, mestre Paulinho, mestre Marcelo Sando, Wantuir, entre outros. A bateria desfilou sobre o último carro, inovação alegórica de 2007 atualizada para louvar mestre Ciça. Um coração pulsante à frente e, atrás da alegoria, uma escada que lembrava a do Theatro Municipal, local das grandes orquestras, como é uma bateria.

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FANTASIAS

Quando Tarcísio acerta a mão, sai da frente: que primor de trabalho. Fantasias de alto valor, com muito uso de materiais de qualidade, como vinil e laminados. Figurinos com acabamento excepcional, maquiagens em praticamente todos os componentes, costeiros e adereços de mão bem desenvolvidos, além de criatividade e muita leitura. Um banho de bom gosto.

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As baianas fizeram parte do conjunto plástico inicial com a fantasia “Arte Negra no Legendário São Carlos”, apresentando-se entre os primeiros carros, variando a fantasia no vermelho e no branco, ambas com tons de dourado. A primeira ala das crianças, “Filhote de Leão”, apresentou o caráter inicial da cabeça da escola com vermelho, prata e dourado. O segundo setor manteve os tons de dourado e prata, com combinações de tons mais quentes e mais frios, como laranja com roxo. O tom de palha se manteve nesses primeiros setores.

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Em seguida, ao focar em suas inovações na bateria, a escola trouxe prata e tons mais claros para o desfile. No quarto setor, a escola trouxe algumas fantasias que Ciça usou em seus desfiles, como as alas “Gari da Invocada” e “Feiticeiros das Evocações”. O quinto setor brincou com o apelido de Caveira, trazendo de formas diferentes e carnavalizadas a máscara de caveira, como nas alas “Na Pressão da Batida”, “O Terror do Metrônomo” e “O Fantasma das Notas”. No último setor, o vermelho da escola apareceu na ala “Um Furacão que Nunca Vai Ter Fim”.

OUTROS DESTAQUES

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O presidente de honra Marcelo Calil, antes do desfile, puxou o grito de “o brilho no olhar…”, seguido da resposta do público com o “continua”. No esquenta, Wander Pires cantou “Malunguinho”, inclusive com o alusivo que fez tanto sucesso no carnaval passado, além do samba em homenagem a “Bibi Ferreira”. E, logo antes de iniciar o desfile, antes do samba propriamente dito, o intérprete cantou o refrão de alguns sambas, inclusive de outras escolas, de desfiles marcantes para Ciça.

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Outros momentos marcantes foram todos os mestres do Especial na alegoria, o carnavalesco Paulo Barros no tripé sobre o carro do xadrez de 2007 e a rainha Juliana Paes reverenciando Ciça. No início da escola vieram os signos do samba: passistas, crianças, baianas e ala de bambas. Mestre Ciça passou pelo desfile muito emocionado; estava radiante.