Quando a Beija-Flor fez o sambódromo gritar “Isso aqui vai virar macumba”, não foi apenas por uma mera provocação. Foi um gesto de afirmação e resistência. A frase anunciou que a Sapucaí seria tomada pela força da fé, assim como o Largo do Mercado é ocupado durante o Bembé. A Azul e Branca é muito conhecida por abordar temas afro-brasileiros em seus enredos, sempre valorizando a cultura e as religiões de matriz africana. Na comunidade nilopolitana, isso é visto com muito orgulho.
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A estudante de direito Ana Beatriz, de 20 anos, que desfilou na primeira ala da escola, fez um relato pessoal sobre a importância da escola dar visibilidade a toda uma comunidade que ainda sofre com a estigmatização de suas crenças.
“É muito importante para mim, ainda mais pela oportunidade de ser reconhecida e vista, como uma mulher negra que também já foi uma criança negra. Nós crescemos com uma ideia colonizada sobre o Brasil, que não é sua verdadeira história. A verdade tem muito a ver com os negros e com os indígenas. Dar essa visibilidade para as nossas raízes é fazer parte dessa história. Estamos no berço da Tia Ciata. Antes de aqui ser o Sambódromo, era o terreiro dela. Trazer essa história para ser contada na Apoteose hoje é transformar a avenida em espaço de fé e, sim, resistência. Vai ser lindo ver o povo lutando, gritando, exigindo atenção, ser visto”, afirmou.
O passista nilopolitando Júnior Felipe, de 29 anos, que tem 16 anos de carnaval e é torcedor de coração da passarinha, também enxergou o desfile como ato de resistência religiosa.

“Sempre é um ato de resistência, porque o carnaval é mais uma oportunidade da gente mostrar o quanto a religião pode ser importante na vida de um ser humano. E poder falar da nossa religião, que sofre tanto com preconceito, me faz enxergar a Sapucaí como um lugar de fé e de acolhimento”.
Sobre o verso principal do samba, ele destacou que gritar em nome da “macumba”, é dar voz para que todo um povo responda aos ataques que sofre.
“Isso aqui vai virar macumba representa que é a nossa voz podendo falar um pouco mais alto e mostrar para todas as pessoas que a intolerância religiosa é apenas uma tolice e uma ignorância dos demais”.
Ele também ressaltou o orgulho de ver a escola do coração levar o Bembé para a avenida: “É uma honra poder mostrar o maior candomblé de rua e trazer um pouco mais da cultura da Bahia, da cidade de Santo Amaro e da nossa religião”.

Luanna Barthollo, musa da escola, se emocionou ao falar do enredo. A fantasia que ela veio vestindo representou as ervas de defumação na avenida.
“Eu sou uma pessoa de axé. Por isso, esse assunto me toca profundamente. É a primeira vez que eu estou desfilando na Beija-Flor desfilando e já chorei muito de emoçãk antes de chegar até aqui. Estar aqui hoje é uma forma amorosa de resistir, levando a nossa cultura de uma forma muito irreverente e alegre, mas forte, para as pessoas entenderem que nenhuma religião está acima da outra”.

Representando Santo Amaro, estava o administrador baiano Alexinando Souza Lima, de 46 anos, que foi atraído para desfilar pela primeira vez no carnaval carioca por conta do enredo falar de sua terra natal. Ele veio na ala que homenageou Maculelê.
“Representa muito a nossa história, a nossa ancestralidade. Começou lá na minha terra. Para mim é uma emoção mostrar isso pro mundo. Imagine mostrar para o mundo que o Bembé existe no carnaval, que é um grande palco. É uma celebração da fé em uma escala gigante”.

A auxiliar de administrativo financeiro Andréia Oliveira, de 44 anos, que desfilou na ala das baianas, trouxe a visão de fora de uma pessoa que tem outra fé, mas que consegue celebrar todas as crenças, sem preconceitos. Cristã, ela vê o grito como uma liberdade do outro de exercer a fé, e ainda assim, consegue se sentir representada.
“Quando se diz que isso aqui vai virar macumba, para mim, que sou mulher preta e vim dessa ancestralidade, acredito que isso aqui vai virar uma festa, um acontecimento. Mesmo sendo cristã, para mim a macumba é tudo de bom. Não existe preconceito. Isso aqui vai virar macumba porque vai virar uma coisa muito legal, se Deus quiser”, finalizou.









