A Beija-Flor de Nilópolis reafirmou sua condição de potência do carnaval carioca ao transformar a Marquês de Sapucaí em um imenso terreiro a céu aberto para celebrar o Bembé do Mercado. Em uma exibição que uniu o luxo plástico de João Vitor Araújo à força de seu chão, somada ao impacto visual de alegorias realistas e ao canto vigoroso da comunidade, selou um desfile que credenciou a agremiação a um possível bicampeonato em 2026.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

COMISSÃO DE FRENTE

Sob o comando de Saulo Finelon e Jorge Teixeira, a Comissão de Frente apostou em uma narrativa simples, porém poética. O grupo de bailarinos, vestidos em branco, executou uma dança sincronizada com giros intensos de axé à frente de um tripé em formato de canoa. No primeiro módulo de julgamento, houve um percalço técnico: o içamento da estrutura demorou a acontecer, falha que foi prontamente corrigida nos setores seguintes, como no módulo do setor 6.

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Quando a canoa finalmente se erguia, revelava a imagem de Iemanjá emanando raios de energia sobre os pescadores, enquanto o fundo do barco se transformava na face imponente de João de Obá, que abria os olhos. O rito encerrava-se com os bailarinos batendo cabeça para o primeiro casal, em um gesto de respeito que unia o sagrado ao pavilhão.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Claudinho e Selminha Sorriso, entregou uma apresentação de gala sob a fantasia “Os Ventos da Justiça de João de Obá”, trajando o vermelho sagrado de Xangô e Iansã. Celebrando 30 anos de parceria, exibiram uma condução segura e uma sintonia que o tempo apenas apurou.

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Selminha flutuou na avenida com giros tradicionais e domínio absoluto do pavilhão, enquanto Claudinho apresentou uma dança nobre e contida, característica da maturidade do casal. A execução foi correta em todos os módulos, sem falhas de coordenação.

ALEGORIAS E FANTASIAS

O conjunto visual foi um dos pontos altos da noite. João Vitor Araújo apresentou alegorias ricas em detalhes e de fácil compreensão. O destaque foi a alegoria do mercado, uma verdadeira obra de arte realista, com balaios, ervas, frutas e texturas que transportaram o público para o Recôncavo Baiano. As fantasias exibiram acabamento impecável, com uso farto de búzios, espelhos e estampas de africanidades.

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No último carro, as esculturas giratórias de Iemanjá e Oxum sob o beija-flor encantaram o público presente. Porém, houve um incidente na concentração, onde a parte superior da última alegoria colidiu com o viaduto, causando avaria. O luxo e o bom gosto cromático mantiveram a escola em um patamar de excelência plástica.

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HARMONIA E SAMBA

A harmonia da Beija-Flor foi no estilo “rolo compressor”. O samba-enredo, que caiu no gosto popular, foi entoado a plenos pulmões por toda a escola, do início ao fim. Os intérpretes Nino do Milênio e Jéssica Martin conduziram a obra com boa qualidade vocal, chamando a Sapucaí para o rito.

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A bateria, dos mestres Rodney e Plínio, cadenciada e potente, introduziu bossas de força ancestral com atabaques e agogôs, dialogando diretamente com o enredo. O “toque para Iemanjá” elevou o rendimento do canto, criando uma atmosfera de transe e devoção que contagiou a comunidade e as arquibancadas.

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EVOLUÇÃO

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A escola exibiu uma evolução fluida e “flutuante”, característica forte do chão de Nilópolis. Mesmo com problemas pontuais no sistema de som da Sapucaí em dois momentos, com picotes e uma aceleração, a escola não perdeu a coesão. O andamento foi correto, e os componentes evoluíram com felicidade e espontaneidade, sem buracos ou atropelos, garantindo a densidade necessária, com ótimo aproveitamento do espaço e boa ocupação da avenida.

OUTROS DESTAQUES

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À frente da bateria, a rainha Lorena Raissa personificou a energia do Bembé. Com um samba no pé irretocável, estabeleceu uma conexão vibrante com os ritmistas. Outro ponto alto foi a passagem da Velha Guarda, guardiã da tradição, e a presença de lideranças do Bembé original na última alegoria, reforçando o caráter de autorreparação e fé do desfile.