A Mocidade trouxe uma estética bem acima do carnaval passado, com carros bem desenvolvidos, fantasias leves e qualidade de acabamento no geral, salvo alguns pequenos pontos. Bruna e Diogo voltaram a entregar uma apresentação muito intensa e sincronizada, mas um buraco enorme no setor quatro, bem no campo de visão de três módulos de julgamento, além de diversos momentos de evolução travada comprometeram o desfile. Com pequenos problemas em comissão e harmonia, a escola mostrou o enredo de forma perfeita e criativa. O samba teve rendimento satisfatório e interagiu com o público.

Com o enredo “Rita Lee, a padroeira da liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, a Mocidade abriu a segunda noite de desfiles do carnaval carioca com o tempo de 80 minutos.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

COMISSÃO DE FRENTE

Mais uma vez liderada por Marcelo Misailidis, a comissão apresentou Rita Lee como sinônimo de tudo aquilo que não tem limite no imaginário, do que representa uma mulher livre, independente e contestadora, alguém que se permitiu viver fora de padrões preestabelecidos, enfrentando a resistência e desafiando o sistema político e de comportamento. Dessa forma, a comissão propôs uma abertura falando da artista, relacionando a mulher real e sua história ao ficcional de sua obra. A apresentação se inicia com um cortejo hippie e Rita seguindo com o jipe de que ela gostava muito e que comprou do pai. Enquanto essa trupe dançava, Rita e o jipe eram escondidos por algumas torres grafitadas com a imagem dela e outras palavras. Quando as torres se afastam, Rita reaparece com roupa de presidiária, agora envolta por grades e com soldados batendo nelas.

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O ponto toca sobre o embate entre a cantora e a ditadura militar, que buscava censurar as suas músicas. Nesse momento, a iluminação dá o clima quando o foco fica só na personagem e o restante totalmente escurecido. Então, das torres, surgem bruxas em bicicletas altas, evocando o misticismo de Rita e, no final, a iluminação diminui, e o fascínio da cantora pelos mistérios do universo é representado quando as grades da prisão se dobram até formar um disco voador, com Rita tocando guitarra. Pelo segundo ano consecutivo, Misailidis buscou uma comissão mais no chão, sem elemento cenográfico gigante, mas colocando outros recursos na apresentação. A narrativa da comissão buscou sintetizar o enredo, colocando traços que seriam apresentados depois no próprio desfile. A comissão teve leveza e graça, ainda que não tenha se utilizado de muitos recursos especiais. A execução também teve alguns problemas, como o não funcionamento total das câmeras que faziam parte da apresentação no primeiro módulo, além do travamento das engrenagens que não permitiu que a moto saísse da torre.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade, Diogo Jesus e Bruna Santos, veio para a Avenida vestido com fantasia inspirada na arte psicodélica dos anos 1960, movimento que mistura cores vibrantes e intensas para criar a sensação de alucinação visual. Psicodélicos, coloridos, em azul, rosa, vermelho, laranja e traços quadriculados em preto e branco, Diogo Jesus e Bruna Santos abriram o cortejo da Mocidade com coreografia em passos que pontuavam a letra do samba. A coreografia se iniciou com a dupla já girando junta, de mãos dadas, e depois separada, com Bruna brilhando no giro com o pavilhão.

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Após a apresentação do pavilhão, a dupla fez uma passada coreografada, como que dando pisadinhas mais firmes, um indo em direção ao outro e depois para o lado. Depois, após um momento de maior intensidade nos giros, a dupla voltou a se procurar e se aproximar para mais uma sequência intensa de giros separados e, em seguida, o giro de mãos dadas. Houve ainda mais um passo coreografado até os últimos giros e a bandeirada de Bruna. Excelente apresentação nos módulos, com força e intensidade, com o casal se procurando o tempo todo e com os passos bem sincronizados. Mais um ano de apresentação em alto nível da dupla.

ENREDO

“Rita Lee, a padroeira da liberdade”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, incumbiu a Mocidade Independente de Padre Miguel de assumir a responsabilidade de reverenciar, na Avenida, o legado de uma estrela indispensável à história do rock, da música e da cultura brasileira. A escola apresentou na Sapucaí todas as fases da artista: provocadora, espiritualizada, libertária, verborrágica, irônica, crítica, debochada, rebelde e profundamente amorosa.

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O primeiro setor representou o nascimento artístico de Rita Lee e a primeira grande ruptura que ela provocou na música e no comportamento brasileiro. É o momento da explosão criativa, da psicodelia e da contracultura, em que Rita surge jovem, coletiva e ousada, transformando a música em atitude, estética e comportamento. Depois, a escola celebrou Rita Lee como um dos grandes símbolos do Tropicalismo, movimento que uniu música, artes plásticas, teatro e cinema em uma luta estética e política por liberdade em meio à ditadura.

O terceiro setor retratou o período em que Rita Lee enfrentou diretamente os limites impostos pelo poder, pelo conservadorismo e pelas tentativas de silenciamento, sem se reduzir apenas à ditadura. Em seguida, a Mocidade apresentou Rita Lee transformando a música em um espaço de consciência, afirmação e emancipação da mulher. No setor seguinte, a escola mostrou que Rita Lee levou a liberdade para outro território: o da experiência sensorial, do prazer e da festa, onde a sexualidade deixa de ser discurso e se transforma em vivência. O setor seguinte revelou as muitas faces de Rita Lee: a roqueira, a mística, a ativista, a escritora, a defensora dos animais, a aliada das minorias e a observadora crítica do mundo.

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O encerramento foi com Rita Lee transformando o rock em samba e a música em festa coletiva, unindo riso, dança, ironia e alegria popular. Justa homenagem a essa grande artista, passada com muita leitura, de forma didática por Renato Lage. Sem fazer muita firula, focou em contar a vida e a obra de Rita, até de forma bastante cronológica, propondo no final uma relação entre a artista e o carnaval por meio da música “Lança Perfume”.

EVOLUÇÃO

A evolução da Mocidade, diferentemente do ano passado, foi bastante problemática. Ainda no início do desfile, a escola deixou um buraco considerável no setor 4, quando o segundo casal e a ala à frente da bateria foram e a bateria ficou, dando visão principalmente para o jurado do módulo 1, mas também para os jurados da cabine espelhada. Além disso, sem nenhuma explicação de problemas com alegorias ou outra coisa parecida, por mais de uma vez a Mocidade ficou parada por muito tempo.

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Uma pena, pois os componentes vinham, antes desses problemas, desfilando com muita garra, com muita vontade, além de alegria e no tom que o desfile pedia: irreverente, leve e para cima. Mas, no quesito, a Mocidade provavelmente vai deixar décimos preciosos.

HARMONIA

Um dos pontos positivos da Mocidade foi o canto da comunidade. Como nos ensaios, a escola comprou a ideia de um samba leve, para cima e alinhado ao enredo. Cantou bastante durante todo o desfile, principalmente nas primeiras alas, que passaram mais tranquilas na Sapucaí. Houve uma diminuição de intensidade só no final, quando a escola já chegava à dispersão, mas nada que comprometesse o rendimento desse ponto na nota de harmonia.

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O carro de som, comandado por Igor Vianna, trouxe musicalidade e, principalmente, a presença feminina das vozes de Milena Wainer, Viviane Santos e Roberta Barreto, algo já característico da escola. Há alguns carnavais, a agremiação tem trazido esse time de vozes femininas com volume, contrastando com o intérprete oficial. E foram, mais uma vez, muito bem, abrilhantando a parte harmônica. Já Igor, em sua estreia na Verde e Branca da Zona Oeste, mostrou sua grande relação com a agremiação, sempre buscando animar o componente por meio de bons cacos e gritos de animação. O único ponto a ser colocado foi que, nos momentos de notas mais altas do samba, o cantor teve um pouco mais de dificuldade, passando mais reto, em contraste com as vozes de apoio, que seguraram bem.

SAMBA-ENREDO

O samba que a Mocidade levou para a Avenida teve como compositores Jeffinho Rodrigues, Diego Nicolau, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Lauro Silva, Cleiton Roberto e Cabeça do Ajax. Leve e irreverente como a homenageada, a obra teve rendimento satisfatório para o desfile, sendo bastante cantada pelos componentes e tendo resposta positiva do público. Muita gente nas frisas e arquibancadas interagiu com a Verde e Branca.

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Na cabeça, em “Um belo dia resolvi mudar”, as cordas faziam uma levada mais pop rock, de forma bem sutil, sem atrapalhar a obra. Destaque para o refrão principal, que começa aludindo na melodia e métrica à música “Venenosa”, mas depois vai para outro campo harmônico. Este foi muito cantado pelo público e ainda com mais força pelos componentes.

ALEGORIAS

O conjunto alegórico da Mocidade foi composto por seis carros e um tripé. Renato Lage levou para a Sapucaí carros de muito conceito, bem executados e com estética muito bem relacionada à homenageada, pontuando cada parte do desfile. Um desfile diferente até dos trabalhos recentes do carnavalesco. Carros leves, com leitura, irreverentes, com bom uso de luz e visual psicodélico. Porém, com alguns pequenos problemas de acabamento em alegorias específicas.

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No abre-alas, a Mocidade celebrou a chegada da cantora ao cenário da música brasileira, quando ela fez história ao se tornar a primeira mulher a liderar uma banda roqueira no Brasil. No carro, uma explosão de cores e luzes, vários elementos de alucinação psicodélica, como discos hipnóticos, borboletas, camaleões, cogumelos e símbolos da colorida cultura hippie. Na parte da frente, Rita Lee, e nas laterais, o recurso de arte cinética com o giro de formas.

No segundo carro, a escola apresentou Rita como uma das principais figuras do Tropicalismo. De bom nível de cores, a alegoria teve problema em uma escultura de abacaxi que não mostrava estar bem encaixada. No terceiro carro, havia uma grande prisão, o Xadrez 21, para onde Rita foi levada por suposta posse de maconha. Na frente, a Ovelha Negra e, nos lados, esculturas de soldados. A alegoria tratou do embate da artista e sua obra com a censura e a ditadura militar.

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O quarto carro mostrou como as músicas e a própria imagem da artista desafiaram tabus diante da sociedade e do patriarcado, tratando dos anseios femininos sem culpa, sem limitações e sem estereótipos. O cenário da quinta alegoria era um castelo medieval, com direito a candelabros, vitrais, gárgulas e uma linda lua cheia. Veio para exaltar um dos clássicos de Rita Lee: a sensual e erótica “Doce Vampiro”. O último carro trouxe uma visão cenográfica dos antigos carnavais, nas cores da escola. O tripé “Paixão pelos Animais”, que vinha no último setor, esteve um pouco abaixo do excelente conjunto alegórico da Mocidade.

FANTASIAS

As fantasias também apresentaram bom nível, ainda que um pouco abaixo das alegorias na questão de acabamento. Produziram ótima leitura do enredo, foram muito bem trabalhadas nas paletas de cores e eram bastante irreverentes, algumas até engraçadas, dialogando com a leveza que Rita tinha.

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A ala “Psicodelicamente Lisérgico” inaugurou o desfile com muito colorido e psicodelismo. O segundo setor, sobre o Tropicalismo, trouxe colorido e abusou de verde e amarelo, como visto nas alas “Parangolé” e “La Miranda”. No terceiro setor, as cores cítricas apareceram para contar o lado mais questionador de Rita, e a famosa música “Ovelha Negra” foi retratada de forma irônica, aparecendo toda de branco.

A partir do quarto setor, o rosa se fez mais presente ao falar da carreira solo de Rita Lee e das características visuais, de moda e personalidade da artista. Na fantasia “Toda Mulher é Rita Lee”, as mulheres vinham com os famosos óculos da cantora. No quinto setor, o rosa seguiu intercalado com cores cítricas, como na excelente ala “Bonita e Gostosa”, que tinha até seios cenográficos acoplados à fantasia, satirizando o poder do patriarcado. Depois, uma das alas mais legais do desfile, “Mulher Vampiro”, homenageando “Doce Vampiro”, música da artista.

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O penúltimo setor falou do misticismo e das curiosidades de Rita, quando o roxo voltou a fazer parte na ala das baianas e na ala da frente “Alô, Alô, Marciano”. A Mocidade encerrou o desfile com colorido, tons mais leves e irreverência, como na ala “Quero Mais Saúde”, e, antes da última alegoria, a ala “Circo”, com estética de palhaço e balões amarrados no costeiro, foi uma das mais belas do desfile.

OUTROS DESTAQUES

A ala de passistas traduziu, em movimento, a liberdade feminina celebrada por Rita Lee, onde corpo e emoção caminharam juntos com identidade. Inspirados pelos versos “Eu fico pensando em nós dois… Cada um na sua”, em verde e dourado, deram o show de sempre no samba no pé e na beleza.

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A “Não Existe Mais Quente”, de mestre Dudu, veio para a Avenida vestida de Eros, o deus do amor na mitologia grega. A fantasia trazia um estilizado clâmide (o manto grego mais curto), com asas que representam Eros. A rainha Fabíola de Andrade representou Afrodite. Nas apresentações nos módulos, a bateria trouxe um efeito visual ao soltar balões em formato de coração.

As baianas da Mocidade representaram uma feiticeira rompendo com estigmas ao afirmar que “nem toda feiticeira é corcunda”. Mística por natureza, a cantora dizia que toda feiticeira tem um gato preto — símbolo do instinto, da liberdade e do saber ancestral. No adereço de mão, o gato deixou de ser mau agouro e passou a ser cúmplice.

No esquenta, Igor Vianna cantou clássicos da discografia da Mocidade, como “Sonhar não custa nada” e “Vira, Virou”.