A Beija-Flor de Nilópolis encerrou seu desfile na Marquês de Sapucaí convertendo a avenida em oceano, altar e território de memória. O último carro alegórico não desfilou, navegou. Avançou como um grande balaio que cruza as águas do Recôncavo Baiano para entregar à avenida o presente mais precioso: o sagrado do Bembé do Mercado.
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Nascido há mais de um século em Santo Amaro da Purificação, o Bembé ocupa as ruas como gesto coletivo de fé e liberdade. Criado por João de Obá logo após a abolição formal da escravidão, ressignificou o 13 de maio não como concessão do Estado, mas como rito de louvor às divindades, especialmente Iemanjá e Oxum. Se a lei veio pela caneta, foi o corpo negro reunido em celebração que construiu caminhos concretos de existência, pertencimento e continuidade.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Bembé é considerado o maior candomblé de rua do mundo. Na Sapucaí, sua força ancestral ganhou dimensão de vitrine internacional.

O carro final materializou essa travessia. Espelhado como água viva, era o próprio oceano que abriu o desfile e, ao final, o acolheu de volta. No alto, Iemanjá e Oxum giravam sobre o mar cenográfico, abençoadas pelo beijo simbólico de um beija-flor que costurava rio e mar, Recôncavo e Baixada Fluminense, Bahia e Nilópolis. O carro era espelho, templo e balaio. Nele, o povo depositava vitórias, dores, promessas e gratidão. O desfile se encerrou como começou: em oração.

Para quem desfilava, a responsabilidade ia além do espetáculo.
Luana Maria, 45 anos, stylist, figurinista e componente da escola há três anos, destacou a dimensão espiritual da apresentação:
“A celebração da vida já é uma grande oferenda e uma energia vital. Estar vivo e celebrar nossa religiosidade numa escola tão grandiosa é um presente. Carregamos o nome dos orixás da nossa casa de santo através do corpo, então precisamos estar preparados com postura e imponência”, disse.

A professora Katiuscia Ribeiro, 45 anos, definiu o desfile como marco político e espiritual: “Nós fomos inundados por um axé de transformação numa sociedade que nega a nossa presença e a nossa espiritualidade. A Beija-Flor fez um manifesto vivo de axé e de existência. Deixar as águas do Bembé na Sapucaí foi fertilizar um novo horizonte de respeito à nossa fé e à nossa liberdade de viver o sagrado”, afirmou.

Para a jornalista Flávia Oliveira, 56 anos, que desfila pela escola desde 1999, o momento teve dimensão íntima e ancestral. Filha do Recôncavo Baiano e beija-flor desde a infância, viveu na avenida o encontro de suas duas origens.
“Eu sinto o encontro de Bembé e Nilópolis no meu corpo e na minha alma. É a união da escola que amo com a terra onde nasci. É responsabilidade, mas também escolha política de valorizar nossa cultura e exigir respeito à nossa religiosidade”, comentou.

Diretamente de Santo Amaro para a avenida, o artista Roberto Chaves, 57 anos, que mora na França, atravessou o oceano para participar do desfile.
“Eu vim por causa da homenagem ao Bembé do Mercado, à minha terra. Hoje foi uma reparação simbólica para o povo negro, porque o mundo inteiro pôde ver um Bembé com mais de um século de existência chegar à Sapucaí. É a melhor vitrine para mostrar nossa história”, afirmou.
Ao levar o Bembé do Mercado para a Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor reafirmou o carnaval como território legítimo da memória negra. Transformou a avenida em extensão simbólica do Largo do Mercado de Santo Amaro. Fez da arte gesto de devoção e do samba herdeiro direto das matrizes africanas que estruturam o Brasil.









